Assédio sexual: A ponta do “Iceberg” criar PDF versão para impressão
07-Out-2008
Mariana AivecaO assédio sexual das mulheres no local de trabalho - é um novo nome para um velho problema de subjugação das mulheres como elos mais fracos nas relações laborais, onde o domínio masculino se continua a fazer sentir, apesar dos avanços do estatuto das mulheres nas últimas três décadas em Portugal.

As declarações que vieram a lume da inspecção do trabalho de que, existiram em 2007 trezentos processos por denúncia de assédio sexual e a consideração de que esta será decerto a ponta de um "iceberg" feito de muitos silêncios e medos, bem como a estimativa de que quatro em cada dez mulheres são vítimas de assédio sexual no local de trabalho, são elucidativas duma realidade que deve envergonhar um país que demora demasiado tempo em acertar o passo no campo da igualdade de género.

A verdade é que o assédio sexual sobre as mulheres trabalhadoras tem sido largamente praticado e sistematicamente ignorado desde os tempos mais remotos.

Existem relatos de trabalhadoras que, nas fábricas do início do século, eram sistematicamente assediadas por patrões e encarregados.

Por outro lado, e, para além de ser um tema "tabu" na nossa sociedade completamente eivada de conceitos e preconceitos que, descambam quase sempre na consideração de que se existe assédio é porque "ela o provocou", também as vitimas acabam muitas vezes caladas pela pressão, até das pessoas que lhes são próximas.

Não espanta pois que não cheguem aos serviços competentes mais queixas, porque as mulheres sabem que o percurso que têm que fazer quando o assumem é de um autêntico calvário.

Bem ilustrativas da realidade que se vive nas empresas são as declarações que também ontem foram públicas do presidente da Associação Nacional das Pequenas e Médias Empresas (ANPME) e, cito " Temos um trabalhador que já assediou várias colegas de trabalho e já teve uma semana de suspensão. É reincidente, mas como é um bom trabalhador, o que quer dizer que não é despedido, porque o que interessa à empresa é o resultado".

É o resultado!... O que conta para os patrões!... O resultado da empresa.

O sofrimento psicológico das mulheres assediadas, a humilhação, a diminuição de motivação, a deterioração das relações sociais, a perda de auto-estima, as dificuldades no acesso às carreiras profissionais dependentes da avaliação das chefias, normalmente masculinas, tudo isso não conta para nada.

Creio que estas são as razões pelas quais os estudos escasseiam em Portugal.

A experiência em muitos países mostra que a luta efectiva contra o assédio sexual nos locais de trabalho exige a combinação entre uma legislação adequada, uma maior sensibilização para o problema e uma maior actuação das instituições.

Em Itália por exemplo, um estudo publicado em 2004 refere que 55% das mulheres entre os 14 e os 59 anos declararam ter sido vítimas de assédio sexual. A investigação mostra ainda um perfil de mulher mais vulnerável ao assédio sexual: mulher jovem, economicamente dependente, solteira ou divorciada e com estatuto de imigrante.

Este país tem uma enorme obrigação com as mulheres que constituem 51,6% da sua população, no mínimo a de não continuar a menorizar uma queixa de assédio sexual.

Esse caminho as mulheres irão fazer. Eu acredito!

Mariana Aiveca

 
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