Hipocrisia criar PDF versão para impressão
08-Out-2008
Natasha NunesTendo assumido como seus os preceitos e as práticas do neoliberalismo, os governos como o do PS são cúmplices dos desequilíbrios que o sistema gerou e culpados pelos prejuízos que o sistema produz. Essa cumplicidade será certamente julgada nas urnas em 2009.

Quando a economia global se precipita para uma recessão, estando a União Europeia com uma previsão de crescimento para 2009 quase nula (0,2%), o país ouve Vítor Constâncio dizer que o que é preciso é que se vá confiando naquilo que dizem as autoridades. Como se a natureza das autoridades fosse a da resolução dos problemas e estas não tivessem quaisquer comprometimentos com o seu surgimento. Como se o governo Sócrates não tivesse culpa no cartório do panorama sombrio que assola as vidas dos portugueses.

Sócrates bem tentará vitimizar-se, procurando explicar como o seu executivo estava a pôr o país no trilho do sucesso e como tudo seriam rosas se não tivesse por aí irrompido um tsunami financeiro, tudo fará para se desresponsabilizar dos efeitos sociais devastadores causados, apontará ele, pelos desvarios do mercado.

Porém, coloca-se a questão: o que fez Sócrates para prevenir o impacte da crise social não apenas junto da população em geral, mas também, e em particular, no seio dos grupos mais desfavorecidos? Pouco ou nada. E pergunta-se ainda: não têm os governos imputações a propósito do actual estado da arte das suas economias? Claro que têm.

Durão Barroso fala agora em resposta concertada da União Europeia perante a incerteza dos mercados financeiros: garantia das poupanças depositadas até 50 mil euros, operações de recapitalização das grandes instituições financeiras, responsabilização dos accionistas, intentos de introdução de mecanismos de regulação no mundo da finança. No entanto, a discussão em torno da necessidade de uma maior coesão da Europa enquanto bloco regional económico não abarca ainda algumas questões fundamentais como a refundação do BCE, a criação de um novo regime fiscal europeu, a existência de um Orçamento conjunto dos 27, a reestruturação das instâncias governativas visando uma operatividade de uma política de sustentabilidade, anti PEC e anti Estratégia de Lisboa, pensada à escala europeia. Quando a suspensão, mesmo que temporária, dos limites dos défices poderia ser utilizada para canalizar investimento público no sentido da reconversão das estruturas produtivas da União Europeia, ficando-nos apenas pelas respostas nacionais, em Portugal, um casual fogo orçamental servirá apenas para financiar algumas medidas sociais eleitoralistas que intentarão mascarar uma realidade triste de desigualdades crescentes e de incremento da pobreza.

Tendo assumido como seus os preceitos e as práticas do neoliberalismo, os governos como o do PS são cúmplices dos desequilíbrios que o sistema gerou e culpados pelos prejuízos que o sistema produz. Essa cumplicidade será certamente julgada nas urnas em 2009. Porque os eleitores conhecem o jeito hipócrita de Sócrates e pelo voto trarão a verdade ao de cima.

Natasha Nunes

 
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