Stiglitz: Na Europa “é preciso autorizar défices superiores a 3% do PIB” criar PDF versão para impressão
13-Out-2008
Joseph StiglitzEm entrevista ao jornal Le Monde publicada no passado Sábado, 11 de Outubro de 2008, Joseph Stiglitz,  prémio Nobel da Economia em 2001, afirma que para enfrentar a crise na Europa são precisas soluções comuns "europeias", defende que "é preciso autorizar défices superiores a 3% do PIB" e considera ainda: "Os estatutos do Banco Central Europeu, que está focalizado na inflação e não no crescimento, são também um problema".

A crise financeira agrava-se quotidianamente. Porque é que os investidores não conseguem reganhar confiança?

Não é uma surpresa que as coisas não melhorem. Os remédios apresentados até agora só resolvem uma parte do problema. Em particular, o plano inicial norte-americano de 700 mil milhões de dólares [517 mil milhões de euros] consiste em comprar as más dívidas dos bancos. Mas, ao comprar títulos que não valem quase nada, o Estado vai transformar perdas antecipadas em perdas reais. Os bancos têm um buraco nas suas contas por causa destas más dívidas. É preciso tapá-lo. Nisto, o plano britânico que consiste em injectar capital nos bancos é uma melhor opção. Mas não há apenas este problema.

O que quer dizer?

A raiz do problema é a queda do mercado imobiliário. Nos Estados Unidos, espera-se ainda dois milhões de penhoras imobiliárias, porque os proprietários são incapazes de reembolsar os seus créditos hipotecários. Enquanto este movimento não tiver parado, as dívidas vão continuar a provocar perdas nas contas dos bancos. Henry Paulson [Secretário do Tesouro dos Estados Unidos] pensa que o declínio do imobiliário vai parar, mas nenhum economista sério acredita nisso. O seu plano consiste em fazer uma transfusão sanguínea para um doente que sofre de uma hemorragia interna.

Por fim, as economias entram em recessão. Para travar esta situação, são preciso estímulos à economia. Nos Estados Unidos, o subsídio de desemprego cobre vinte e seis semanas, depois fica-se sem nada. A crise vai durar muito mais que vinte e seis semanas. São necessárias medidas de maior protecção sob pena de a situação se tornar muito pior.

Na Europa, que soluções seriam, para si, eficazes?

É necessária uma solução comum para todos os países da Europa. Cada país não pode agir como se a crise só lhe tocasse a ele. A Europa conseguiu criar um sistema financeiro único. É preciso extrair daí as consequências. Para resolver a crise na Europa, são necessárias soluções europeias. Propor um garantia dos depósitos num país e não noutro, por exemplo, apenas distorce a concorrência entre bancos: é muito fácil mudar de estabelecimento na União.

No imediato, é preciso autorizar défices superiores a 3% do PIB. Os estatutos do Banco Central Europeu, que está focalizado na inflação e não no crescimento, são também um problema.

Assiste-se a um movimento de desconfiança face aos bancos. Pensa que essa situação vai durar?

Os banqueiros têm-se comportado muito mal. Porque haveria de se ter confiança? Eles não sabem gerir os riscos, mesmo quando sabem dar às suas contas um aspecto correcto. E isto não é novo, tivemos já muitas crises bancárias. É preciso rever toda a maneira de regular o sistema. Há um buraco no barco e é urgente repará-lo, como disse Ben Bernanke [presidente da Reserva Federal, o banco central dos EUA]. Mas é preciso também mudar de capitão. Este barco está a ser guiado por um alcoólico, que nos conduz directamente contra os rochedos.

Esta crise é frequentemente comparada com a de 1929. Teme consequências tão dramáticas?

Evoca-se 1929, porque se pensa na falência de Wall Street e quer-se evitar grandes perdas dos bancos. Devia-se antes comparar esta crise com a da Indonésia. Há dez anos, a crise financeira da Indonésia transformou-se numa grande depressão: em Java, o desemprego atingiu os 40%. Sabe-se o que não deve ser feito e como travar a queda. A questão está em saber se isso será feito e se será feito correctamente.

Entrevista de Claire Gatinois.

Tradução para português de Carlos Santos.

 
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