Educação: A propaganda não consegue esconder o fracasso criar PDF versão para impressão
20-Out-2008
Educação: propaganda não consegue esconder fracassoO governo sabe que precisa de inventar muito na Educação para apagar as críticas, a revolta, e a insatisfação generalizada que levou 100 mil professores à rua, os profissionais que todos os estudos dão como dos mais respeitados pela população portuguesa. Texto de Miguel Reis, artigo publicado no jornal Esquerda  nº 31, Outubro de 2008.

E assim o início do ano lectivo abriu triunfalmente.

Com os ministros em peso a visitar as escolas e a distribuir diplomas e cheques de 500 euros aos melhores alunos. Com o anúncio do reforço do Orçamento de Estado para a Educação. Com mais verbas para a Acção Social Escolar. Com milhares de computadores distribuídos pelas escolas. E com a apoteose do aumento do sucesso escolar.

Mas basta destapar a cortina do mediatismo, analisar números fi áveis, e ouvir professores, pais e alunos que estão no terreno para compreender a diferença abismal entre o discurso e a realidade. Na verdade, além dos dados que aqui apresentamos em três caixas e que desfazem mitos, acrescentemos o seguinte:

1) Este governo concordou com a subida dos preços dos manuais escolares 3% acima da inflação no 1º ciclo e 1,5% acima da inflação nos 2º e 3º ciclo. Há alunos que estão no escalão A da Acção Social Escolar e que só recebem metade do valor total dos livros. Uma situação escandalosa num país que continua a alimentar o lucro das editoras e onde falta coragem para tornar os manuais gratuitos através de um sistema universal de empréstimo nas escolas.

2) O Orçamento para a Educação vai aumentar 3,5% em 2009. Mas a verdade é que nos seis anos anteriores houve uma quebra de 17,5%. Mesmo com este aumento, as verbas para a educação ficam 1 milhão de euros aquém dos valores de 2002.

3) Os alunos não passaram a saber mais nem a aprender melhor. É já sabido que o governo trabalhou para as estatísticas, apoiando-se no sucesso burocrático e pressionando escolas e professoras a não chumbarem alunos. Mas naquilo que conta, no esforço necessário para aumentar a qualidade das aprendizagens, o governo falhou. Há milhares de estudantes que necessitam de ensino especial e que estão sem qualquer apoio, com tantos professores desta área sem colocação. Por outro lado, um estudo da Universidade do Minho põe o dedo na ferida, colocando em evidência o fracasso da escola pública: as famílias portuguesas gastam mais de 100 euros por mês em explicações no privado.

O Partido Socialista não tem uma política de esquerda para a educação. Tem sim uma propaganda de esquerda com que tenta esconder o seu único grande propósito: quebrar a espinha aos professores, cortando nos salários e nas carreiras, poupando assim muito dinheiro e transformando a profissão reflexiva e criativa no automatismo de uma gigantesca máquina burocrática. Mas a confusão que reina nas escolas com a "aplicação experimental" deste modelo de avaliação de desempenho, com grelhas arbitrárias e reuniões intermináveis, não augura nenhuma grande vitória do governo, que arrisca-se a perder naquilo em que verdadeiramente apostou.

Dados da OCDE

- Portugal é o segundo país da Europa com a maior taxa de abandono escolar precoce (38%), só ultrapassado por Malta (40%).

- 57% dos trabalhadores não têm mais do que o 6º ano e só 28% tem mais do que o 9º ano.

- Estamos em 19ª lugar (em 31 países da OCDE) quanto a investimento na educação em relação ao PIB e em 23º lugar quanto ao investimento por aluno.

- As despesas correntes absorvem 97% dos gastos em Educação (o valor mais alto da OCDE), mas os professores portugueses estão em 21º lugar (em 31 países) quanto ao valor dos seus ordenados.

Há professores com mais de 150 alunos

O grupo parlamentar do Bloco lançou um inquérito sobre as condições de trabalho dos professores. Das 3100 respostas recebidas, conclui-se que:

- 47% dos professores dão aulas a mais de cinco turmas e 60% dão aulas a mais de 75 alunos

- 5 em cada 10 professores tem a seu cargo mais 100 alunos e dois em cada dez leccionam a mais de 150 estudantes.

- os professores gastam em média 46 horas semanais na sua actividade profissional - muito mais, portanto, do que as 35 esperadas

Há 10 mil professores precários

Há 10 mil professores contratados, com vínculos que vão de um mês a um ano. Frequentemente estão mais do que cinco anos nesta instabilidade, circulando de escola em escola pelo país inteiro.

- Dos 46 mil candidatos a professor no último concurso, apenas 6 mil conseguiu colocação. Ao mesmo tempo, as famílias portuguesas gastam em média 118 euros por mês em explicações dadas por professores desempregados.

- 93% dos monitores e professores que leccionam as Actividades de Enriquecimento Curricular do 1º ciclo do Ensino Básico estão a recibos verdes, sem direito a subsídio de desemprego, apoio na doença ou subsídio de férias e de Natal.

 
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