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28-Out-2008
"Esta crise financeira, que rebenta curiosamente no final do mandato de George W. Bush nos EUA, mostra ao mundo que o neoliberalismo tem os seus dias contados. O capitalismo desregulado é agora obrigado a, pelo menos, ser fiscalizado pelos governos, para impedir mais excessos dos mecanismos especulativos do sistema financeiro mundial." Esta afirmação é do nosso leitor Nuno Araújo de Oeiras, publicamos ainda as opiniões de João Olaia e Vítor Ruivo.

Capitalismo em coma?

Opinião de Nuno Araújo

Esta crise financeira, que rebenta curiosamente no final do mandato de George W. Bush nos EUA, mostra ao mundo que o neoliberalismo tem os seus dias contados. O capitalismo desregulado é agora obrigado a, pelo menos, ser fiscalizado pelos governos, para impedir mais excessos dos mecanismos especulativos do sistema financeiro mundial.

Com tudo isto, o valor do barril de petróleo desce, e o preço dos combustíveis mantém-se.

Na Europa, os governos de cada país tem de contar consigo próprios, de acordo com palavras de Jean-Claude Trichet, do Banco Central Europeu (BCE). As injecções de capital por parte do BCE não resolvem nem ajudam, à medida que a taxa de referência ditada pelo mesmo organismo desce meio ponto percentual e queda-se por uns inadmissíveis 3,75 por cento. A taxa Euribor continua alta, porque os bancos estão sem dinheiro, pois tendo rebentado a bolha especulativa, já não fazem operações interbancárias envolvendo liquidez capaz de baixar o valor real dessa mesma taxa.

Em Portugal, o governo garantiu 20 mil milhões de euros para as operações de financiamento dos bancos. Esta medida ad-hoc não irá garantir, só por si, a recuperação do sector; trata-se de uma decisão com base num diagnóstico reservado, de um sector em coma, e onde há esperança de que os dias de prosperidade voltem de novo. Mas, na verdade, esta crise não dita o fim do capitalismo; poderá representar antes um desfalque aos cidadãos portugueses, já que as poucas garantias da disponibilidade dos depósitos bancários justificarão, eventualmente, desesperadas nacionalizações em que a população terá, certamente, mais a perder do que a ganhar.  Este é o tempo de nacionalizar sectores essenciais do país, como o energético (GALP, por exemplo), mas não para depois privatizar de novo.

Com o capitalismo, tal como o conhecemos, em estado de coma, há que verificar as derivas ideológicas dos partidos, mais ao centro, existentes em Portugal. O PSD abandonou o discurso liberal - venenoso! - e o PS, no espaço de um mês, tornou-se progressista economicamente e crítico do sistema financeiro norte-americano, criticando, inclusive, o próprio conceito do neoliberalismo! A política da conveniência parece ser mais uma vez a escapatória do primeiro-ministro português, em que a ausência de ideologia é notoriamente sintoma de falta de rumo e de linhas programáticas para Portugal.

Nuno Araújo, Oeiras

Que ninguém se surpreenda

Opinião de João Olaia

Noutros tempos e noutras circunstâncias, está mais uma vez o sistema capitalista a dar mostras da sua instabilidade e vulnerabilidade.

A crise capitalista mundial de 1929 mostrou ao mundo que quando a potência mais forte se abana, as pequenas também se ressentem.

Esta crise mostra o mesmo mas de forma mais apurada, ou seja o mundo já não é influenciado por uma potência única; tendo começado nos EUA, a Europa está a tomar medidas para não se sair muito mal, e outra grande potência mundial pouco se fala ainda: a China. O mercado asiático no geral, ainda vive as réplicas da crise.

Espero que ninguém se surpreenda quando o oriente sair a ganhar nesta crise do sistema que quando não tem fabrica uma crise...

João Olaia

Quem vai pagar a crise financeira?

Opinião de Vítor Ruivo

Aproveito para vos enviar este artigo que exprime o que eu penso sobre a crise financeira mundial.

Um breve comentário sobre como me está a afectar pessoalmente. Enquanto funcionário público (sou técnico-profissional na novel Administração Hidrográfica do Algarve - ARH) os efeitos que sinto, e são muito grandes, têm que ver não já directamente com esta crise financeira mas com a governação ultra liberal de Sócrates e, pelo menos, dos dois anteriores governos PSD-CDS. Roubaram-me parte do valor da futura pensão (10% à conta da Ferreira Leite, um pior cálculo da pensão - factor de sustentabilidade, etc. - à conta do actual governo) e acrescentaram anos (o Sócrates) para me poder aposentar com o valor máximo possível. Vão-me meter numa nova carreira - assistente técnico - em que graças à nova avaliação de desempenho e ao poder discricionário do chefe máximo da ARH, nunca mais irei subir de posição remuneratória (no meu caso pessoal já estou "congelado" há 13 anos!). No início do próximo ano vão ainda impor, contra a minha vontade, que passe de funcionário público ao regime de contrato de trabalho, com a entrada em vigor do Regime de Contrato de Trabalho em Funções Públicas. Isto apenas para falar nos prejuízos mais gerais e mais graves a que eu, e milhares de colegas, estou sujeito.

Finalmente, um efeito já directo da crise financeira que estou sentindo, é que se está tornando cada vez mais difícil fazer a venda de uma moradia que possuo em Faro e da qual me pretendo desfazer para tentar equilibrar um pouco o meu orçamento já tão periclitante.

Obrigado

M. Ruivo

Quem vai pagar a crise financeira?

População e trabalhadores portugueses já vêm pagando, anos a fio, o sucessivo aumento dos bens alimentares, dos combustíveis, dos transportes, do crédito à habitação, da água e da luz, das taxas moderadoras e dos medicamentos, do material escolar... numa escalada sem fim à vista. Por isso Portugal é, na UE a 27, o único país há três anos consecutivos sem aumento real de salários, campeão da desigualde social. Com o crescimento dos despedimentos e do desemprego, com a precariedade laboral a dominar, sobretudo os jovens, a insegurança no presente e no futuro das famílias é enorme e o seu endividamento bate recordes.

Neste mesmo tempo, como se de outro país se tratasse, banqueiros e gestores, grandes empresas e grupos económicos têm acumulado lucros escandalosos. Agora que a crise financeira lhes bate à porta, tremem por dentro, mas por fora, assobiam para o lado. Se tremem e assobiam, não é por medo de não poderem pagar a casa ou o carro, mas sim nervosos sobre a melhor maneira de se safarem da crise sem perderem os milhões que enterraram na especulação bolsista. E de o fazerem, mais uma vez e sempre, à custa dos trabalhadores e dos cidadãos em geral.

É esse o velho papel reservado a gente como o 1º ministro e o ministro das finanças, com a benção mais ou menos empertigada, do presidente da república - bombeiros e enfermeiros do Capital. Tenham eles os nomes que tiverem! Chamem-se Bush, McCain, Obama, Merkel, Sarkozy, Barroso, Sócrates, Leite, Santos, Silva... Podem até torcer o nariz e fazer caretas uns aos outros, mas é no esforço de melhor cumprirem o seu papel.

É o que estamos vendo nestes dias de susto, para eles e para nós, por razões opostas. Os seus programas para enfrentar a crise são as falências com as respectivas compras e fusões interbancárias, acompanhadas de biliões de euros e de dólares dos contribuintes injectados pelos bancos centrais no sistema financeiro para que ele se aguente, e, em último caso, agora na ordem do dia, a estatização das maiores instituições bancárias, socializando as perdas acumuladas para salvaguardar os lucros possíveis.

São esses os programas e as soluções que servem trabalhadores e populações? Os resultados mostram o contrário. Mesmo sem pôr em causa o sistema, mas para que o prejuízo não recaia por completo sobre o povo e, cosméticas à parte, tudo continue como dantes, são precisas medidas que rompam com o neo-liberalismo financeiro até agora reinante.

Respigo algumas, entre as propostas e exigências colocadas pela Mesa Nacional do Bloco de Esquerda, na sua última reunião do passado fim de semana:

  1. As entidades reguladoras demonstraram a sua incompetência (no caso BCP), a sua conivência (no caso dos preços dos combustíveis) e a sua função justificativa: os reguladores são hoje alibis para a ausência de responsabilidade do Estado. O sistema de regulação deve ser uma responsabilidade do Estado, porque só assim será democraticamente controlável (e terá alguma eficácia).
  2. A crise financeira demonstrou que as privatizações de sectores estratégicos são erradas. Essas privatizações acentuam a crise orçamental, porque determinam a perda de receitas, e portanto exigem o aumento da carga fiscal sobre os contribuintes. Por outro lado, diminuem a segurança na economia e a capacidade de controlo sobre as suas decisões. O Bloco de Esquerda, defende a nacionalização do sector energético (incluindo a GALP), recusa a sua privatização e exige ainda o controlo das margens das petrolíferas, para abolir a componente especulativa dos preços dos combustíveis.
  3. Exige-se ao Governador do Banco de Portugal e ao Governo, a informação pública sobre o grau de exposição dos fundos de PPRs e outros que tenham aplicações em mercados imobiliários e de acções nos EUA ou em bancos intervencionados na Europa.
  4. Exige-se ao Governo, que apresente na União Europeia a proposta de uma resolução defendendo a redução da taxa de juro de referência, para diminuir o Euribor a curto prazo. O BCE tem de se subordinar a uma política de criação de emprego, orientada para a protecção da segurança social e dos rendimentos dos mais desfavorecidos, o que implica subordiná-lo ao poder das instituições eleitas.
  5. Exige-se ao Governo, que assuma a proposta de encerramento de todos os offshores, para restituir aos Estados a capacidade de registar e controlar os movimentos de capitais para evitarem a fraude fiscal e o branqueamento de capitais.

Faro, 07-10-08

Vítor Ruivo

 
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