Reforma de 186 euros, depois de trabalhar 35 anos criar PDF versão para impressão
30-Out-2008
O nosso leitor Armando Soares, conta-nos a revolta da sua esposa: "com a mesma idade que eu (60 anos) começou a trabalhar antes dos 10 anos, a descontar aos 14, sempre trabalhou, sempre descontou, até que um dia tinha ela 50 anos, o patrão resolveu fechar a empresa (...) Terminou o desemprego próximo dos 55 anos, meteu reforma antecipada, ganha actualmente 186 euros, trabalhou uma vida 35 anos, qualquer rendimento é maior do que o ordenado dela (...)".
Publicamos ainda opiniões de Luís Peres e José Lopes.

Reforma de 186 euros, depois de trabalhar 35 anos

Armando Soares

É a primeira vez que participo, li parte da primeira pagina e lembrei-me de escrever estas frases.

Estou reformado, não me sinto mal com o meu salário, fui operário todo o meu tempo de trabalho activo (comecei a trabalhar com 10 anos mas a descontar a partir dos 14, estou com uma reforma de 6oo e poucos euros, tenho 59 anos), atá aqui tudo normal, operário normal; ordenado normal, situação normal, sou casado,,,,

Começa agora a não ser normal...

A minha esposa, com a mesma idade que eu (60 anos) começou a trabalhar antes dos 10 anos, começou a descontar aos 14, sempre trabalhou, sempre descontou, até que um dia tinha ela 50 anos, o patrão resolveu fechar a empresa (carteiras de senhora, malas), para ficar o filho com a empresa, foi tudo tratado em tribunal, com o devido acompanhamento do sindicato, sentença lida indemnização aos trabalhadores, mas como o patrão passou tudo para o nome do filho, não tinha nada, não pagou nada, seguiu-se o desemprego (entretanto ainda trabalhou num outro local mas a idade já era elevada veio embora no fim do contrato).

Terminou o desemprego próximo dos 55 anos, meteu reforma antecipada, ganha actualmente 186 euros, trabalhou uma vida 35 anos, qualquer rendimento é maior do que o ordenado dela---revoltada roubada é o que ela sente.

Obrigado. É um desabafo do marido.

Armando Soares

O que me dói

Luís Peres

É obvio que a "bolha" tinha de rebentar um dia.

Entretanto, foi um fartar vilanagem.

O que me dói, a mim e a muitos milhões que vivemos do nosso mísero ordenado ou parca reforma, o que me dói, dizia, é que possa haver impunemente quem possa vir para a reforma após cinco anos de trabalho e receba uma "compensação" de largos milhares pelo trabalho magnífico desenvolvido em prol de si próprio e seus "compadres"! E o valor da reforma mensal muito, mas muito, antes dos 65 anos?

As maiores Instituições Financeiras Mundiais vão à falência, quando ontem apresentavam milhões de lucro. O maior Banco Nacional anda "aos papéis" e ainda ontem era uma Instituição altamente saudável que distribuía lucros, pagava fortunas aos seus Administradores e ostentava luxos por tudo quanto era sítio!

Como tudo muda de um dia para o outro?

Quem pede responsabilidades a toda esta "gente" que por todo o Mundo fez o que quis e ainda lhe sobrou tempo?

Luís Peres

A herança de George W. Bush

José Lopes (Ovar)

Afinal que herança deixa Bush, não só aos seus compatriotas, mas aos povos do mundo, que vêem reflectir-se nas suas vidas, por mais anónimas que sejam as consequências do desmoronar de um sistema económico, que levou ao colapso dos mercados financeiros, aos quais os vários governos tentam salvar injectando fundos para salvar o capital, cujos custos e sacrifícios continuarão a recair sobre os trabalhadores e as famílias.

W. Bush, como o 43º presidente a sair de cena, deixa o seu país, que quis apresentar ao mundo, como a potência "guarda-chuva" dos povos, com pelos menos dois cenários de guerra, cujo desfecho ainda são imprevisíveis, mas cujos custos humanos e económicos são bem evidentes.

Só no Iraque, desde a sua invasão, sem mandato das Nações Unidas, os custos por mês rondam os 12 milhões de dólares, enquanto o povo a quem foi prometido salvar das "garras" do tirano e das "armas de destruição massiva" do regime de Saddam Hussein, contam-se por baixo, cerca de 90 mil civis iraquianos mortos.

Trata-se de uma guerra com cheiro a petróleo, que nomeadamente aos americanos, também já custou uma factura cara pela aventura de Bush, traduzida em perto dos 4200 militares mortos neste conflito em que todos os dias se contam os mortos e estropiados.

Todo este sacrifício para que o mundo também foi arrastado, ainda que com surpreendentes movimentos anti-guerra, surge como resposta aos atentados terroristas de 11 de Setembro que naturalmente mais enraiveceu e manchou, com a profunda humilhação que representou para a potência americana e Bush, filho, cuja resposta ao terrorismo que continua a ser um duro osso de roer por exemplo no Afeganistão, a seu jeito, foi a de "dente por dente". Herança guerreira deixada ao futuro presidente.

Mas se o carácter obstinado de Bush em casa, para além do seu défice intelectual, deu origem a outros pesadelos, como o desemprego a ultrapassar os 6% e o fracasso das políticas económicas com inevitáveis consequências sociais. No mundo, deixou mais ódios, desde logo na América Latina, que rejeita justamente ser o "quintal" dos EUA, enquanto a Guerra Fria se volta a colocar no instável tabuleiro de xadrez, em que o orgulho russo foi ferido pelo inquilino da Casa Branca, com imprevisíveis efeitos inquietantes para os povos na área, que estão a sofrer, tanto no silêncio como na vida e na carne, a repressão mais truculenta e tirana. Assim aconteceu recentemente perante a cobardia do mundo ocidental, que se curvou e silenciou indignamente, tal como continua a fazer relativamente ao comportamento da China no Tibete e outras regiões, como a que se abateu sobre a Geórgia, que confiou e se apoiou no "amigo" americano para esmagar sentimentos nacionalistas internos e acabou por deixar o seu povo sujeito á humilhação e ocupação, espezinhado pelo vizinho russo enraivecido, que ambiciona recolocar as suas "peças" no tabuleiro do xadrez ético e rico da região, numa posição mais confortável ao domínio e controlo dos seus interesses. Ainda que reine a tendência e ambição separatista, nuns casos fomentada pelos russos e noutros pela pretensão geoestratégica de Washington no Leste europeu.

São pois, heranças muito pesadas e perigosas, as deixadas ao mundo por Bush.

21/10/2008

José Lopes (Ovar)

 
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