Chomsky: "Os EUA têm essencialmente um sistema de partido único" criar PDF versão para impressão
30-Out-2008
Noam Chomsky. Foto de theiastminute, FlickRO linguista e intelectual Noam Chomsky tem sido, desde há muito tempo, um crítico do consumismo e imperialismo americanos. A [revista alemã] Der Spiegel falou com ele sobre a actual crise do capitalismo, a retórica de Barack Obama e o conformismo dos intelectuais.
Entrevista conduzida por Gabor Steingart

Professor Chomsky, as catedrais do capitalismo entraram em colapso, o governo conservador está a gastar os seus últimos dias em exercício com os planos de nacionalização. Como é que isso o faz sentir?

Os tempos são demasiado difíceis e a crise demasiado severa para cair em lamentações. Olhando em perspectiva, o facto de que iria haver uma crise financeira era perfeitamente previsível, tal como a sua natureza e até a sua magnitude. Os mercados são sempre ineficientes.

O que é que previu exactamente?

Na indústria financeira, como noutras indústrias, existem riscos que não são calculados. Se você me vender um carro, talvez possamos fazer um bom negócio. Mas existem efeitos decorrentes desta transacção que atingem outros e que nós não temos em conta. Haverá mais poluição, o preço do combustível sobe e haverá maior trânsito. Estes são os custos externos do negócio. No caso das instituições financeiras, são gigantescos.

Mas correr riscos não é tarefa de um banco?

Sim, mas se forem bem geridos, como o Goldman Sachs, serão capazes de cobrir os seus riscos e absorver as suas perdas. Contudo, nenhuma instituição financeira pode gerir riscos sistémicos. Portanto, o risco é assim desvalorizado e correr-se-ão maiores riscos do que aqueles que seriam prudentes para a economia. Com a desregulamentação governamental e o triunfo do liberalismo financeiro, os perigos dos riscos sistémicos e a possibilidade de um tsunami financeiro crescem abruptamente.

Será correcto colocar toda a culpa em Wall Street? Não a terá também a Main Street, a classe média americana, que tem vivido do crédito que pode ou não pagar?

As dívidas das famílias são enormes. Mas eu não tornaria os indivíduos responsáveis. Este consumismo deriva do facto de sermos uma nação de interesses de negócios. Há uma propaganda maciça para que todos consumam. Consumo é bom para os lucros e para o sistema político.

Como é que esta situação beneficia os políticos quando o povo conduz muito, come muito e compra muito?

O consumo distrai as pessoas. Não se pode controlar o próprio povo pela força, mas pode-se distraí-lo com consumismo. A imprensa especializada em economia tem sido bastante explícita sobre este objectivo.

Há pouco tempo, chamou à América "o melhor país do mundo". Como é que isso encaixa com o que está a dizer agora?

Em muitos aspectos, os Estados Unidos são um grande país. A liberdade de expressão é mais protegida do que em qualquer outro sítio. É também uma sociedade muito livre. Na América, o professor fala com o mecânico. Estão na mesma categoria.

Depois de ter viajado pelos Estados Unidos há 170 anos atrás, Alexis de Tocqueville escreveu, "o povo reina sobre o mundo político americano como Deus governa o Universo". Era ele um sonhador?

Chomsky: A posição de James Madison durante a Convenção Constitucional foi a que o poder do Estado deveria ser usado "para proteger a minoria dos opulentos contra a maioria". É por isso que o Senado tem apenas cem membros cuja maioria é rica, e foi-lhe dado um grade poder. A Câmara dos Representantes, com várias centenas de membros, é mais democrática e foi-lhe dado menos poder. Até liberais como Walter Lippman, um dos grandes intelectuais do século XX, foram da opinião de que numa democracia que funciona apropriadamente, a minoria inteligente, que deve governar, tem de ser protegida do "atropelo e ruído da multidão desorientada". Entre os conservadores, o vice-presidente Dick Cheney ilustrou recentemente o seu entendimento de democracia. Foi questionado sobre a razão pela qual apoiava a continuação da Guerra do Iraque quando a população é fortemente contra. A resposta dele foi: "E então?"

"Mudança" é o slogan da campanha presidencial deste ano. Vê alguma hipótese para uma mudança tangível e imediata nos Estados Unidos? Ou usando o mote de Obama: está entusiasmado?

Nem um pouco. A reacção europeia a Obama é uma desilusão europeia.

Mas ele diz coisas que a Europa tem estado à espera de ouvir desde há muito tempo. Fala de parceria transatlântica, prioridade da diplomacia e a reconciliação da sociedade americana.

É tudo retórica. Quem está interessado nisso? Toda esta campanha é sobre retórica, esperança, mudança, todo o tipo de coisas mas não sobre os problemas.

Prefere a equipa do outro lado? O veterano de 72 anos John McCain e a antiga rainha da beleza do Alasca, Sarah Palin?

Este fenómeno da Sarah Palin é muito curioso. Creio que alguém que nos observe de Marte pensará que este país ficou louco.

Os ultra conservadores e eleitores religiosos parecem entusiasmadíssimos.

Não podemos esquecer que este país foi fundado por fanáticos religiosos. Desde Jimmy Carter que os fundamentalistas religiosos têm um grande papel nas eleições. Ele foi o primeiro presidente que se exibiu como um cristão renascido. Isso despoletou uma ideia nas mentes dos directores de campanhas políticas: finge-se ser um fanático religioso e ganha-se automaticamente um terço dos votos. Ninguém perguntou se Lyndon Johnon ia à igreja todos os dias. Bill Clinton é provavelmente tão religioso como eu, ou seja, zero, mas os seus directores asseguraram-se que todos os domingos ele estava na Igreja Baptista a cantar hinos.

Há alguma coisa que o atraia em McCain?

Num aspecto ele é mais honesto que o seu opositor. Ele diz explicitamente que esta eleição é sobre personalidades e não sobre os assuntos. Os democratas não são tão honestos, embora vejam as coisas da mesma forma.

Então para si, republicanos e democratas representam apenas pequenas variações da mesma plataforma política?

Claro que há diferenças, mas não são fundamentais. Ninguém deve ter ilusões. Os Estados Unidos são essencialmente um sistema de partido único, que é um partido de negócios.

Está a exagerar. Em quase todas as questões vitais - desde os impostos sobre os ricos à energia nuclear - existem posições diferentes. Pelo menos no problema da guerra e paz os partidos diferem consideravelmente. Os republicanos querem lutar no Iraque até à vitória ainda que, de acordo com McCain, dure 100 anos. Os democratas exigem um plano de retirada.

Se olharmos para as "diferenças" mais de perto, reconheceremos o quão limitadas e cínicas elas são. Os "falcões" dizem, se continuarmos, podemos ganhar. As "pombas" dizem, isto está a custar-nos demasiado. Mas tente encontrar um político americano que diga francamente que essa agressão é um crime: o problema não é ganhar ou perder, se é custoso ou não. Lembra-se da invasão da Rússia ao Afeganistão? Alguma vez debatemos se os russos conseguiriam ganhar ou se era demasiado cara? Esse talvez tenha sido o debate no Kremlin ou no Pravda. É o tipo de debate que se espera numa sociedade totalitária. Se o General Petraeus conseguir aquilo que Putin conseguiu na Tchéchénia, deveria ser coroado rei. A questão-chave aqui é se aplicamos a nós próprios os padrões que aplicamos aos outros.

Quem impede os intelectuais de questionar e responder criticamente a essas questões? Você elogia a liberdade de expressão nos Estados Unidos.

O mundo intelectual é profundamente conformista. Hans Morgenthau, que foi o fundador da teoria realista das relações internacionais, condenou uma vez "a subserviência ao poder" por parte dos intelectuais. George Orwell escreveu que os nacionalistas, que são praticamente toda a classe intelectual de um país, não só não desaprovam os crimes do próprio Estado como têm uma capacidade notável para nem os ver. Isto é correcto. Nós falamos muito dos crimes dos outros. Relativamente aos nosso crimes, somos nacionalistas no sentido orwelliano.

Não houve ou não há - nos Estados Unidos e em todo o mundo - um ruidoso protesto contra a guerra do Iraque?

O protesto contra a guerra do Iraque foi mais forte do que aquele contra a guerra do Vietname. Quando houve quatro mil mortos americanos e 150 mil soldados em acção, ninguém quis saber. Quando Kennedy invadiu o Vietname em 1962, houve apenas um bocejar.

Para concluir, talvez possa oferecer uma palavra conciliatória sobre o estado da nação?

A sociedade americana tornou-se mais civilizada, em grande parte devido ao activismo dos anos 60. A nossa sociedade e também a europeia tornaram-se mais livres, abertas, democráticas e, para muitos, mais assustadoras. Esta geração foi condenada por isso. Mas teve um efeito.

Professor Chomsky, agradecemos-lhe por esta entrevista.

Tradução de Sofia Gomes

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