A bravata afegã de Obama e de McCain criar PDF versão para impressão
31-Out-2008
Combatentes talibanAs primeiras conversações sérias entre o governo afegão e os talibans começaram há dez dias em Meca, sob os auspícios do Rei Abdullah da Arábia Saudita. Um general britânico sénior, Mark Carleton-Smith, admitiu que a vitória militar absoluta no Afeganistão é impossível. Mas John McCain e Barack Obama ainda falam como se mais umas brigadas de soldados americanos pudessem mudar o resultado da guerra.
Por Patrick Cockburn, do Counterpunch

As primeiras conversações sérias entre o governo afegão e os talibans começaram há dez dias em Meca, sob os auspícios do Rei Abdullah da Arábia Saudita. Durante as conversas, todas as partes concordaram que a guerra no Afeganistão vai ser resolvida pelo diálogo e não pelas armas. O líder taliban, Mullah Omar, não estava presente, mas os seus representantes disseram que ele já não é aliado da Al Qaeda.

O reconhecimento por parte de um general britânico sénior, Mark Carleton-Smith, de que a vitória militar absoluta no Afeganistão é impossível, foi muito citado nas conversações na Meca. "Se os taliban estivessem dispostos a sentar-se do outro lado da mesa e conversar sobre um acordo político, este seria precisamente o tipo de progresso que conclui insurreições como esta," disse o general Carleton-Smith. "Não nos devemos sentir mal com isso."

Parece que a última aventura militar britânica no Afeganistão vai acabar numa retirada, sem que nenhum dos seus mal-definidos objectivos se realizem. Nos EUA, a compreensão da verdadeira situação no terreno está a chegar mais lentamente. John McCain e Barack Obama ainda falam como se mais umas brigadas de soldados americanos, enviados para perseguir os taliban nas montanhas do sul do Afeganistão, pudessem mudar o resultado da guerra.

A política dos Estados Unidos no Iraque depois do derrube de Saddam Hussein tem sido constantemente denegrida como uma receita para o desastre auto-infligido. Mas a política do presidente Bush no Afeganistão, na sequência da queda dos talibans, foi idêntica, e tão catastroficamente mal-concebida. Em ambos os países, o plano da administração foi principalmente concebido para utilizar a vitória militar para assegurar-se de que os republicanos ganhassem as eleições.

Os taliban sempre foram notoriamente dependentes do Paquistão e do serviço de informações dos militares paquistaneses (ISI). Foi o ISI que impulsionou os taliban para o poder nos anos 1990, e que encobertamente deu aos seus militantes um porto seguro, depois da sua retirada do Afeganistão em 2001, permitindo-lhes reagruparem-se e contra-atacar.

Mas no próprio momento em que isto estava a acontecer, o Sr. Bush louvava o governo paquistanês do general Pervez Musharaf, que criara os taliban, como sendo o grande aliado dos Estados Unidos na sua guerra contra o terror. O contraproducente absurdo desta política não tocou os EUA, como aconteceu com o fracasso no Iraque, embora seja óbvio que enquanto os taliban tiverem uma região montanhosa vasta e longínqua onde se basear, nunca serão derrotados. A presença de tropas estrangeiras sempre foi mais popular no Afeganistão do que no Iraque. Os afegãos têm uma repugnância profunda pelos seus líderes militares. Mas nenhuma força de ocupação estrangeira, envolvida no combate e dependendo em particular de ataques aéreos mal concebidos, é popular por muito tempo. Isto é especialmente verdade se as tropas estrangeiras não garantirem, de facto, a segurança. Entretanto, a sua presença significa que os lutadores taliban podem apresentar-se como patriotas que combatem pelo seu país e a pela sua fé.

O derrube dos taliban em 2001 nunca foi exactamente o que pareceu. Logo depois de terem abandonado a luta, passei pela estrada de Cabul a Kandahar ao longo de uma das piores vias construídas do mundo. Os taliban estavam habilmente a mudar de lado ou a ir para casa, em função dos acordos locais. As baixas dos dois lados foram misericordiosamente baixas. Na antiga cidade de Ghazni, um acordo sobre o fim do poder taliban só foi adiado por causa de uma discordância acerca de quantos carros oficiais eles poderiam conservar. Numa aldeia fora de Kandahar, perguntei a um líder local se ele podia reunir alguns antigos talibans para um encontro comigo e, em meia hora, a hospedaria da aldeia encheu-se de lutadores confiantes e perigosos. Pensei que não lhes custaria muito regressar.

Ainda assim, não teriam sido capazes de o fazer sem as asneiras da Casa Branca e do Pentágono. Ao invadir o Iraque, convenceram o general Musharaf de que era seguro ajudar os taliban mais uma vez. Havia suficientes tropas estrangeiras no Afeganistão para deslegitimar o governo afegão, mas não chegavam para derrotar os seus inimigos. A perseguição dos taliban na região, ano após ano, só levou à expansão da revolta.

As conversações na Arábia Saudita ainda estão longe das negociações, mas são um sinal de que o impasse político actual pode vir a ser rompido. A constatação directa do general Carleton-Smith de que não pode haver vitória militar também revela um certo realismo. O melhor caminho para a Grã-Bretanha e os EUA no Afeganistão é ter objectivos modestos e atingíveis, e reconhecer que, na sua luta pela sobrevivência, o governo afegão deve lutar e ganhar as suas próprias batalhas.

Patrick Cockburn é o autor de "Muqtada: Muqtada Al-Sadr, the Shia Revival, and the Struggle for Iraq" "Muqtada: Muqtada Al-Sadr, Revivificação Xiita, e a Luta pelo Iraque".

Tradução de Ana Palma

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