Insatisfação de classe ficou patente nestas eleições criar PDF versão para impressão
06-Nov-2008
Cartaz da IWW: Vale a pena recordar que, há apenas 50 anos, era negado a afro-americanos o direito de votar em eleições presidenciais, quanto mais candidatar-se a esse lugar. Esses direitos apenas foram conquistados depois da luta de massas do movimento pelos direitos civis ter finalmente afastado o Partido Democrático do seu legado segregacionista.

Por Sharon Smith


A vitória de Obama marca um golpe no racismo, de proporções históricas similares. Apesar dos esforços continuados de McCain e de Palin para fomentar a animosidade racial contra Obama, a sua campanha de ódio não conseguiu arrebanhar uma maioria de votantes. Como pôde verificar-se, as alterações demográficas na composição do eleitorado nos EUA diminuíram a importância relativa do eleitorado branco, incrementando a dos negros, dos latinos e de outros imigrantes.

Contrariamente às previsões de analistas encartados, muitos trabalhadores brancos votaram entusiasticamente pelo candidato negro nas eleições de 2008. A vitória de Obama teria sido impossível sem eles.

O racismo - acumulado e reforçado desde cima - sufocou o movimento laboral nos EUA desde o seu surgimento, como demonstra o falhanço das associações sindicais em ganhar posições firmes no Sul. Enquanto os trabalhadores brancos acreditarem erradamente que têm mais em comum com os seus exploradores brancos do que com os seus companheiros negros ou imigrantes, o seu movimento tem tudo a perder. Finalmente, após décadas de declínio, o movimento laboral posiciona-se para avançar.

A eleição de Obama não significa que o racismo tenha desaparecido da noite para o dia. Pelo contrário, os comícios de McCain e Palin arregimentaram milhares de racistas, empolgados pelo vitríolo que emanava do palanque. A brutalidade policial, as disparidades sociais no emprego e na educação e a segregação nas áreas de habitação continuam a existir como antes, não importa quem esteja na Casa Branca, até que se retome explicitamente a luta contra o racismo.

Mas a vitória de Obama representa também um avanço na consciência de classe e uma decisiva rejeição das políticas neoliberais que rebaixaram o nível de vida dos trabalhadores do mundo inteiro durante mais de três décadas. As sondagens mostraram que a opinião pública se deslocou para a esquerda em praticamente todas as questões sociais, desde a guerra do Iraque aos casamentos do mesmo sexo, nos anos recentes.

A existir um paralelo histórico com a dinâmica de classes presente nas eleições de 2008, ele será com a vitória de Franklin Delano Roosevelt em 1932. O triunfo de Roosevelt, como o de Obama, resultou da generalizada insatisfação e revolta de classe, numa era em que a desenfreada ganância das grandes empresas lançou o descrédito sobre o livre-mercado.

Embora Roosevelt tivesse feito aos votantes promessas vagas de um "New Deal" ["Novo Contrato"], foi necessária a pressão desde a base para determinar o conteúdo da política presidencial durante a Grande Depressão. A escala da luta de classes foi tal que os trabalhadores não só alcançaram o direito legal aos sindicatos e a outras reformas em prol da classe trabalhadora, como deslocou o equilíbrio de forças a seu favor durante dezenas de anos.

Há mais de três décadas que não se verifica um recrudescimento da luta de classes nos EUA. Contudo, a insatisfação de classe patenteada nestas eleições pode bem ser o prelúdio desse recrudescimento nos próximos anos. Obama prometeu "mudança", mas a escala da mudança necessária requer a luta de massas a partir da base.

Sharon Smith é autora de "Subterranean Fire: A History of Working-Class Radicalism in the United States" e de "Women and Socialism".

Tradução de José Pedro Fernandes

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