O horizonte a médio prazo da economia mundial criar PDF versão para impressão
18-Nov-2008
Foto de silverfuki, FlickRQuando vivemos uma conjuntura tão convulsiva como a actual, é quiçá mais arriscado que nunca tecer cabalas sobre a evolução a médio prazo da economia mundial. Ainda que também seja verdadeiro que nestes momentos de perturbação é seguramente quando melhor se podem adivinhar os espaços de tensão que a afectam.

Por Juan Torres Lopez, Temas para el Debate


Na minha opinião, hoje em dia, podem-se perceber claramente cinco grandes fracturas no conjunto da economia mundial. Talvez a sua consideração seja um ponto de partida adequado para tentar prever o horizonte em que podemos situar os anos vindouros.

Nenhuma delas é nova e inclusive num certo sentido poder-se-ia dizer que são consubstanciais ao próprio capitalismo. Mas sim, parece que nestes momentos históricos se manifestam de um modo muito mais exacerbado que nunca.

Resulta também bastante evidente que se trata de fracturas sistémicas e complexas, entendendo por isso que se traduzem em perturbações que afectam globalmente o funcionamento de todo o sistema e que são geradas e por sua vez afectam, o seu conjunto e todas as suas componentes. Trata-se, como acho que vai ficar claro, de fracturas entrelaçadas que não se podem explicar, nem resolver de forma superficial porque fazem parte do funcionamento traumático do todo um complexo que constitui a economia mundial no seu conjunto.

Congraçar-se com a natureza

A primeira fractura é a que se vem dando, desde há um tempo, entre o modo de produzir dominante e a base natural e energética que se utiliza. Apesar das numerosas evidências que temos à nossa volta, ainda não conseguimos ser plenamente conscientes de que o problema económico fundamental da nossa época deixou de ser o da escassez de recursos, para passar a ser o da sobreprodução de resíduos e que a ênfase não se pode pôr somente nos problemas da produção, mas também nos do seu metabolismo económico e social.

Para fazer frente a uma fractura como esta, que representa quiçá a pior das patologias de uma sociedade e de um sistema económico, porque afecta a sua expressão mais básica, é necessário que a economia se reconcilie com a natureza. Para isso ter-se-á de abordar várias questões hoje em dia só modestamente propostas, mas que têm de ser necessariamente resolvidas nos próximos decénios.
Uma delas é a necessidade de encarar os custos do progresso que não se materializam necessariamente numa expressão monetária, como costuma ser habitual que ocorra com o que tem que ver com o meio natural das relações económicas. Assim, será imprescindível medir e avaliar com outros indicadores e com outro tipo de magnitudes a actividade económica e seus efeitos sobre o meio.

Além de fazer da economia algo mais que uma contabilidade monetária, será necessário também convertê-la numa economia dos resíduos e de seu metabolismo, para evitar que este último se converta numa patologia letal da nossa biosfera, tal como tem vindo a acontecer.

Como adverti, questões deste tipo não se podem considerar como simples assuntos ambientalistas. A fractura entre a economia e a natureza afecta a actividade económica global, mas também o equilíbrio da sociedade no seu conjunto. Pense-se, por exemplo, no problema da água e do risco sistémico que supõe a falta de acesso a fontes saneadas, que provoca a morte de quase 6.000 pessoas cada dia, uma verdadeira catástrofe diária da qual praticamente não se fala.

Outros sistemas financeiros

A segunda fractura está neste momento mais aberta que nunca e precisa de remédios imediatos. Refiro-me à que se produz entre o sistema financeiro e a economia produtiva. Requererá inevitavelmente fazer frente a três questões principais, que não têm muito que ver com as injecções contínuas de liquidez às que até agora se recorrem como única terapia.

Teremos de fazer frente à crise já letal do dólar, incapaz de continuar a ser moeda de reserva internacional se não for à custa de um poder imperial cada vez mais oneroso e inaceitável, por mais que ainda seja aceite. Já que é impossível que mais de 80% da poupança mundial seja canalizada para os Estados Unidos para dar cobertura à sua moeda, ou se aceita que a economia mundial funcione sobre a base de papel sem nenhum valor (como está a ocorrer com as consequências que temos à vista), ou se estabelece um novo sistema monetário internacional, algo que talvez tenha de se compatibilizar, dadas as difíceis condições de negociação existentes e o enfraquecimento político da zona euro, com uma fase transitória de novas moedas continentais.

Além disso, é já inevitável abordar a reforma radical do sistema bancário, pois a deriva do actual para os mercados secundários de produtos financeiros que não financiam a actividade real, deixa-o sem financiamento suficiente.

E, finalmente, será preciso substituir, não só a aplicação da ideologia falsa do livre mercado às relações financeiras (que é o menos), mas também a regulação enganadora que realmente constituiu a chamada desregulação dos últimos anos.

O comércio ou a vida

A terceira fractura tem a ver com o estado actual das coisas que afecta o comércio internacional e que é a causa directa de, apesar de existirem recursos de sobra no nosso planeta, mais de metade da humanidade careça do necessário para subsistir decentemente.

Apesar de haver avanços, estes terão de ser bem mais rápidos e sinceros para eliminar para sempre o actual regime do comércio internacional que protege os fortes e desarma os fracos.
Simplesmente teremos de dar a volta, não para o liberalismo global com que sonham as grandes multinacionais e os estados agora mais poderosos, mas para um novo estilo de proteccionismo que, face ao actual regime de produção de escassez, garanta a produção mundial e o seu usufruto em condições mais equitativas.

Também não será fácil avançar neste campo, porque será preciso reformular o uso das tecnologias, estabelecer uma autêntica disciplina mundial de soberania e segurança alimentar, submeter a um controlo as práticas comerciais das empresas multinacionais, criar um sistema impositivo internacional (agora que tantos lutam para eliminar os nacionais!) e, ao mesmo tempo, estabelecer um novo sistema mundial de fixação de preços.

Novas formas de vida social

A quarta fractura tem a ver com factores diversos, como a quebra definitiva do modelo familiar do homem sustentador sem que se avance com a mesma velocidade na conciliação e na co-responsabilidade, na consolidação de novas estruturas sociais marcadas pela diversidade e o multiculturalismo, sem que se disponha de meios educativos e de socialização que facilitem a sua assimilação, ou o aparecimento de condutas de maior mobilidade, pelo menos horizontal, em todo o mundo, sem recursos suficientes para as facilitar.

Como se sabe, a conjunção de todos esses processos conflituosos está a acontecer de forma muito problemática, gerando traumas, frustração pessoal e colectiva e grandes desigualdades, não sei se todas irreversíveis, nas nossas sociedades e em todos seus âmbitos: no espaço e no urbanismo, nas condições de socialização, nas estruturas educativas, ou de apoio familiar, no consumo... que afectam muito profundamente a vida económica.
A economia e a política

Finalmente, vem-se dando uma transformação subtil, mas profunda, das relações entre a vida económica e o poder político. Como também nos revela claramente a crise actual, a política é cada vez mais o espaço do negócio e menos o do poder representativo. Quando e quem é que se interroga sobre as preferências dos cidadãos, sobre as suas prioridades de despesas? Há algo ainda mais radicalmente contrário à verdadeira democracia que as decisões recentes dos governos e bancos centrais, mobilizando recursos bilionários sem remeter-se em nada mais que os interesses bancários e empresariais de que vão desfrutar, sem ter em conta para nada a vontade da imensa maioria dos cidadãos?

Sem dúvida alguma, neste âmbito terão de se dar passos definitivos nos próximos anos. Será necessário avançar para formas globais de governança e estender o poder decisivo dos cidadãos às questões vitais que têm que ver com a economia, se é que não queremos afundar-nos na deriva catastrófica do autoritarismo.

Trata-se, em definitivo, de espaços minados de fracturas e conflitos, uns mais abertos que outros à nossa frente, mas todos eles de inevitável importância nos próximos anos. O problema principal, com que nos deparamos no momento de lhes fazer frente, talvez seja que partimos com demasiados preconceitos de pensamento e sem estruturas de decisão adequadas à escala global. Por isso ninguém se poderá admirar, se continuarmos a tê-los em conta apenas quando nos estouram nas mãos.

Tradução Ana da Palma

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