A Polícia do Partido criar PDF versão para impressão
25-Set-2008
Amy GoodmanTerminaram as convenções nacionais do Partido Democrático e do Partido Republicano dos EUA, mas continua a controvérsia acerca dos princípios que as nortearam e da forma como foram conduzidas. Detenções maciças de manifestantes pacíficos, excesso de violência policial, um desrespeito generalizado pela Declaração dos Direitos dos Cidadãos, e perseguição e detenção de jornalistas mancharam aquilo que deveriam ter sido momentos de celebração da democracia.


Os comités organizadores, entidades legais que organizam e subvencionam as convenções, funcionam como um grande "saco azul", livre das restrições de financiamento das campanhas. Dezenas de grandes corporações (e um par de sindicatos), impedidos de atribuir fundos ilimitados aos partidos políticos, puderam dar o que quiseram aos comités organizadores de Denver e St. Paul, no Minnesota.

Segundo um artigo recente da revista National Underwriter, "Tanto o Comité Nacional Republicano como o Comité Nacional Democrático se recusaram a fazer comentários sobre as suas decisões relativas à aquisição de seguros de campanha, ou sequer revelar quem estava a fazer a segurança das respectivas convenções." Bruce Nestor, presidente da secção da Ordem dos Advogados do Minnesota, e que organizou dezenas de observadores legais em volta das Torres Gémeas para proteger os direitos legais dos cidadãos, disse-me, "St. Paul até negociou uma cláusula especial segundo a qual será o comité organizador a cobrir os primeiros 10 milhões de dólares em responsabilidade civil com acções judiciais decorrentes da convenção. A cidade orgulha-se muito deste acordo. Foi a primeira vez que foi negociado entre uma cidade e o respectivo comité organizador. Basicamente significa que nós (a cidade) podemos cometer ilegalidades e não pagar." Segundo o Minnesota Independent, mais de 40 jornalistas foram presos ou detidos durante a Covenção Nacional Republicana.

Como o que aconteceu com Nicole Salazar, produtora de "Democracy Now", quando captava em vídeo as manifestações no centro da cidade de St. Paul. Foi violentamente atirada ao chão, com o nariz a sangrar e o joelho ou a bota de um homem espetados nas costas, enquanto outra pessoa lhe puxava por uma perna. O colega dela, o também produtor Sharif Abdel Kouddous, foi atirado contra uma parede e pontapeado no peito e nas costas. A polícia devia ter intervindo e preso os atacantes. Só que desta vez os agressores eram polícias. E prenderam as suas vítimas. Chegada ao local, tentei fazer com que libertassem os meus colegas, uma vez que éramos todos jornalistas acreditados; a polícia prendeu-me também. E não fomos os únicos.

Enquanto os presidentes das câmaras e a polícia de St. Paul e Minnesota davam palmadinhas nas costas uns dos outros a felicitarem-se por um trabalho bem feito, o grupo sem fins lucrativos FreePress, o chefe da delegação local da Associação de Jornalistas e outros advogados e repórteres entregaram mais de 50 mil assinaturas no gabinete do Presidente da Câmara exigindo que as acusações contra os jornalistas fossem retiradas. Fomos recebidos por Ann Mulholland, vice-presidente da Câmara de St. Paul. Denis Moynihan, administrador-delegado da Free Speech TV, perguntou se a indemnização paga à cidade pelo comité organizador não era "o mesmo que dar 10 milhões de dólares à polícia para violar direitos civis?" Mulholland contrapôs, "Temos muito orgulho nisso ... os 10 milhões foram essenciais para a cidade. Sem eles não teríamos conseguido receber a convenção."

As convenções dos dois partidos principais transformaram-se em dilatados e dispendiosos espectáculos de publicidade para os candidatos presidenciais. Faz sentido que Democratas e Republicanos queiram controlar a mensagem passada. Mas a democracia não é um anúncio publicitário, nem é do domínio de apenas dois partidos. Em Denver e St. Paul, as pessoas estiveram envolvidas num vasto diálogo cívico, reuniões públicas, marchas, protestos, concertos - na verdade houve mais democracia do lado de fora das salas onde se realizou a convenção do que do lado de dentro. Os nomes dos locais onde se realizaram as convenções falam por si: Pepsi Center, em Denver, Xcel Energy Center, em St. Paul. A Xcel, que faz campanha pelo nuclear, doou 1 milhão de euros a cada uma das convenções. Os dois principais candidatos presidenciais apoiam a viabilidade do recurso à energia nuclear.

Em Denver, e especialmente em St. Paul, a oposição foi esmagada por um grande aparato de forças paramilitares, sob as ordens dos Serviços Secretos Norte-Americanos, com jurisdição sobre os "Eventos Especiais de Segurança Nacional", categoria em que foram incluídas as convenções. As grandes corporações pagam milhões aos comités organizadores, ganhando assim acesso exclusivo a legisladores e candidatos. Os comités organizadores, por seu lado, soltam a polícia sobre o público, cobrindo violações dos direitos civis tais como ofensas corporais, detenções ilegais e dispendiosos processos civis durante anos. Mais do que um buraco que tem de ser fechado nas regras de financiamento de campanha eleitoral, isto é uma vergonha nacional.

Durante a semana da convenção, uma das 25 cópias impressas da Declaração da Independência esteve em exposição no edifício da Câmara Municipal de St. Paul - a pouca distância do local onde as multidões levaram com gás pimenta, bastonadas, gás lacrimogéneo e foram atacadas pela polícia com granadas anti-motim.

Enquanto o pó assenta, será bom recordar as palavras de Benjamin Franklin, um dos signatários da Declaração:

"Os que estão dispostos a abrir mão das liberdades essenciais para ganhar um pouco de segurança temporária, não merecem nem liberdade nem segurança."

Amy Goodman

Traduzido por Maria José Simas

 
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