O testamento de Olmert criar PDF versão para impressão
09-Out-2008
Uri AvneryNa língua hebraica coloquial em Israel, quando alguém descobre algo que todos já sabem, dizemos: "Bom-dia, Elijahu!" Porquê Elijahu, não sei. Mas hoje bem se pode dizer: "Bom-dia, Ehud Olmert!"
Foi o que eu disse a mim mesmo, ao ler a sensacional entrevista que Ehud Olmert concedeu, na véspera do Ano Novo Judeu, ao jornal Yediot Aharonot.

No final da carreira política, depois de renunciar ao posto de primeiro-ministro, enquanto aguarda que Tzipi Livni organize um novo governo, Olmert disse coisas espantosas - não por serem espantosas, elas mesmas, mas por virem da boca de Olmert.

Para os que não tenham lido, eis o que ele disse:

  • "Temos de chegar a um acordo com os palestinianos. A essência desse acordo é que realmente temos de nos retirar de quase todos, se não de todos, os territórios ocupados. Devemos conservar em nossas mãos uma percentagem desses territórios, mas somos obrigados a dar aos palestinos percentagem similar, porque, sem isso, não haverá paz."
  • "... inclusive Jerusalém. Com soluções especiais, que já visualizo, para o Monte do Templo e os locais sagrados históricos (...) Quem pensar em conservar todo o território, que pense em manter 270 mil árabes contidos por trás de muros, dentro de um Israel soberano. Não funcionará."
  • "Fui o primeiro a querer impor a soberania de Israel sobre toda a Jerusalém. Admito. Não estava preparado para considerar todas as profundas complexidades da realidade."
  • "Quanto à Síria, precisamos, antes de mais, de uma decisão. Duvido que haja sequer um israelita sério que creia que será possível fazer a paz com a Síria, sem, no final, devolver os montes Golan."
  • "O objectivo é traçar, pela primeira vez, uma fronteira precisa entre Israel e a Palestina, uma fronteira que todo o mundo [reconhecerá]."
  • "Assumamos que nos dois próximos anos eclodirá uma guerra regional e haverá confronto directo com a Síria. Não há dúvida de que teremos de nos bater "coxa contra coxa" [alusão a Juízes 15:8, que prossegue: "e haverá grande matança".] (...) [Mas] o que acontecerá, quando vencermos? (...) Por que ir à guerra com os sírios, para obter o que podemos obter sem pagar tão alto preço?"
  • "Qual foi a grandeza de Menachem Begin? [Ele] mandou Dayan encontrar-se com Tohami [emissário de Sadat] em Marrocos, antes mesmo de ele próprio se encontrar com Sadat (...) e Dayan disse a Tohami, em nome de Begin, que estávamos dispostos a nos retirar de todo o Sinai."
  • "Arik Sharon, Bibi Netanyahu, Ehud Barak e Rabin, bendita seja a sua memória (...), cada um deles deu um passo para nos guiar na direcção certa, mas nalgum momento, nalguma encruzilhada, quando precisaríamos de uma decisão, a decisão não foi tomada."
  • "Há alguns dias, participei de uma discussão com os principais cabeças do processo de tomada de decisão. No final [disse a eles]: ouvindo-os falar, entendi por que não fizemos a paz com os palestinianos e os sírios durante os últimos 40 anos."
  • "Podemos, parece-me, dar um passo histórico nas relações entre Israel e a Palestina, e um passo histórico nas relações entre Israel e a Síria. Nos dois casos, temos de tomar a decisão que nos recusámos a encarar, olhos bem abertos, durante 40 anos."
  • "Quando você se senta na sua poltrona, deve perguntar-se: para onde aponto o meu esforço? Para construir a paz ou para ser cada vez mais forte, mais forte, mais forte, para vencer a guerra? (...) O nosso poder é imenso, suficiente para enfrentar qualquer perigo. Agora, é chegada a hora de buscar meios para usar essa infra-estrutura de poder na direcção de construir a paz, não de vencer guerras."
  • "O Irão é um imenso poder (...). Pretender que EUA e Rússia e China e Inglaterra não sabem como lidar com os iranianos, e que os israelitas saberiam, e que essa seria tarefa de Israel é exemplo de perda completa do senso de proporção."
  • "Li as declarações dos ex-generais israelitas e disse: como é possível que nada tenham aprendido e nada tenham esquecido?"

A minha primeira reacção foi, como já disse: "Bom-dia, Ehud Olmert!"

Lembrei-me de um amigo já falecido, o poeta Yebi. Há uns 32 anos, depois de dúzias de cidadãos árabes-israelitas serem assassinados numa manifestação contra a expropriação das suas terras, Yebi procurou-me triste e desesperado e gritou: temos de fazer alguma coisa. Decidimos depositar coroas de flores nos túmulos dos assassinados. Lá nos fomos, nós três: Yebi, eu e o pintor Dan Kedar, que morreu na semana passada. O nosso gesto desencadeou uma tempestade de ira contra nós, de proporções que eu jamais vira antes e nunca mais vi depois.

A partir daquele dia, cada vez que alguém em Israel dizia algo a favor da paz, Yebi gritava: "E onde estava ele (ou ela) quando levámos aquelas flores ao cemitério?"

É uma questão natural, mas irrelevante. Olmert, que durante toda a vida combateu o que nós dizíamos, começa, aparentemente, a concordar connosco. Isso é o que realmente importa. Nada de "Bom-dia, Ehud Olmert.". Hoje trata-se de "Bem-vindo, Ehud".
É verdade que dizemos há 40 anos o que Olmert disse hoje. Mas não éramos primeiro-ministro de Israel, no cargo.

É verdade, também, que muito mais gente disse exactamente o que sempre dissemos, por exemplo, os que redigiram o "Esboço de Tratado de Paz do Grupo da Paz", o documento de Nusseibeh-Ayalon ou a Iniciativa de Genebra. Mas não eram primeiro-ministro de Israel, no cargo.

Aí, afinal, está o que realmente importa.

Não esqueçamos: ao tempo em que essas ideias se cristalizavam na mente de Olmert, ele activamente favorecia o crescimento das colónias, sobretudo em Jerusalém Leste.

Por isso, surgiu em Israel uma pergunta inevitável: Olmert estará a ser sincero? Será que crê no que diz? Estará, mais uma vez, a ser oportunista, como sempre foi? Estará, como de hábito, a tentar algum tipo de manipulação?

Desta vez, tendo a acreditar nele. Pode-se dizer: a letra é boa, mas a melodia... Parece-me que, desta vez, letra e música são importantes. A coisa toda soa como o testamento de um homem demitido no final da sua carreira política. Há algo de filosófico, aí - a confissão de um homem que, por dois anos e meio, ocupou o cargo máximo, no campo das decisões políticas em Israel; absorveu lições, aprendeu e tirou conclusões.

Sempre se pode perguntar: Mas por que é que esse pessoal só chega a conclusões aproveitáveis quando estão a limpar as gavetas, quando já pouco podem fazer para implementar as boas ideias que tenham? Porque Bill Clinton só pensou em formular novas propostas para a paz Israel-Palestina nos últimos dias de mandato, depois de desperdiçar oito anos em jogos e manobras irresponsáveis? Porque Lyndon Johnson só admitiu que a Guerra do Vietname tinha sido um erro terrível desde o início, depois de o próprio Johnson ter agido de modo a provocar a morte de dezenas de milhares de norte-americanos e de milhões de vietnamitas?

A resposta superficial pode ser encontrada no carácter da vida política. Um primeiro-ministro salta de problema em problema, de crise em crise. Vive exposto a tentações e pressões externas e ao stress interno, a lutas dentro da sua coligação de poder, a intrigas de gabinete. Não tem nem o tempo nem o distanciamento necessários para tirar conclusões.

Os dois anos e meio do mandato de Olmert foram repletos de crises, da Segunda Guerra do Líbano, pela qual foi responsável, às investigações sobre corrupção que o absorveram completamente. Só agora, afinal, está a ter tempo e talvez esteja a encontrar o equilíbrio filosófico necessário para tirar conclusões.

Aí está o que realmente interessa daquela entrevista: ali fala alguém que, por dois anos e meio esteve no centro dos processos nacional e internacional de tomada de decisões, alguém que foi exposto a pressões e intenções de todo tipo, que manteve contacto pessoal com os líderes do mundo e com os líderes palestinianos. Um homem normal, nada brilhante, que jamais foi pensador profundo, nunca; um homem sempre prático, que "viu coisas, lá, que não se vêem daqui".

Olmert apresentou um Relatório da situação da Nação, sumário da realidade em Israel depois de 60 anos de existência do Estado israelita e de 120 anos da empreitada sionista.

Há, sim, imensos buracos naquele sumário. Não critica a política sionista impingida a cinco gerações de israelitas - mas ninguém, em sã consciência, poderia esperar tal crítica vinda de Olmert. Nenhuma empatia com os sentimentos, as aspirações e o sofrimento do povo palestiniano. Nenhuma menção ao problema dos refugiados (sabe-se que Olmert estaria pronto para receber de volta alguns poucos milhares de refugiados, sob o princípio da "reunião das famílias"). O sumário tampouco declara que Israel é responsável pelo crime de ampliar as colónias. É longa a lista das omissões.

A base primitiva da visão de mundo de Olmert não mudou. Vê-se claramente, num parágrafo espantoso que lá está: "Cada grão de terra, do Jordão ao mar, que tivermos de devolver, queimará os nossos corações (...) Quando se cava ali, o que se encontra? Discursos do avô de Arafat, ou do bi-tri-tetra-avô de Arafat? Não. Ali só se encontram memórias históricas do povo de Israel!"

É completo non sense. Não há um único elemento de pesquisa histórica ou arqueológica que confirme essa ideia. Olmert apenas repetia frases soltas que ouve desde a infância; apenas manifestava impressões pessoais. Alguém que creia nesse tipo de ideologia dificilmente falaria sobre demolir colónias ilegais e construir a paz.

Pois ainda assim, tudo isso considerado, o que há nesse testamento?

Há o divórcio inequívoco e final: um homem que cresceu em lar sobre o qual tremulava o lema "Toda a Israel", do grupo Irgun, separa-se daquele passado que se manifesta no mapa do Irgun: Israel, nos dois lados do Jordão. Para aquele homem, o slogan "Isso e sempre isso" converteu-se em "Qualquer coisa... menos isso".

O testamento dá completo e inequívoco apoio à divisão de Israel. Desta vez, a adesão ao princípio de "Dois Estados para dois povos" parece ser mais genuína, não só conversa nem só golpe de mão. A ideia de que se "fixem as fronteiras definitivas do Estado de Israel" é completa revolução, contra o pensamento sionista.

Olmert já dissera que o Estado de Israel estaria "acabado" se não concordasse com a divisão, por causa do "perigo demográfico". Desta vez, não invocou o velho demónio. Agora, fala como israelita que pensa sobre o futuro de Israel como Estado progressista, construtivo e pacífico.

Essas novas ideias manifestam-se não como antevisão de um futuro remoto, mas como plano para o presente. Exige uma decisão, a ser tomada imediatamente. É quase como se dissesse: Dêem-me mais alguns poucos meses, e farei. E faltou dizer que os palestinianos estão preparados para esse momento de mudança histórica.

Além disso, o testamento fixa uma posição israelita a partir da qual não há retrocesso possível nas negociações futuras.

É o testamento do primeiro-ministro actual, dirigido, obviamente, ao futuro primeiro-ministro.

Não se pode saber se Tzipi Livni está preparada para implementar esse novo plano, nem o que pensa do testamento de Olmert. Sim, ultimamente, ela tem exposto ideias assemelhadas, mas está apenas a chegar ao caldeirão que é o gabinete do primeiro-ministro. Impossível adivinhar o que fará.

Desejo-lhe, como voto de chegada, sobretudo, que, no final do mandato como primeira-ministra de Israel, Livni não se condene a apresentar-se à nação apenas para, ela também, pedir desculpas por ter deixado passar a oportunidade histórica de construir a paz entre Israel e a Palestina.

Uri Avnery, 04/10/2008, " Summing up ", na Internet, na página de Gush Shalom [Grupo de Paz] .

Tradução de Caia Fittipaldi. Publicado no blogue do Bourdoukan, adaptado para português de Portugal por Carlos Santos

 
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