Regulação de choque criar PDF versão para impressão
16-Out-2008
João RomãoAs respostas dos governos europeus e norte-americano à crise financeira que se instalou nos mercados globais tendem a revelar uma nova forma de regulação dos mercados, sempre em defesa dos interesses dos grandes grupos económicos e financeiros. Mesmo que a crise se prolongue, a esquerda tem que encontrar respostas para um confronto político imediato, à escala global, da Europa ou nacional.

Ainda que sejam diferentes nas metodologias - nos Estados Unidos o Estado  propõe-se adquirir os "activos tóxicos" desvalorizados que prejudicam a rentabilidade das instituições financeiras e na Europa o Estado pretende adquirir parcialmente as próprias entidades financeiras em dificuldades - o certo é que, em ambos os casos, a intenção da intervenção vai no sentido de proteger um sistema globalmente injusto a nível social e de duvidosa eficiência a nível económico.

Este sistema foi-se consolidando nas últimas duas décadas, com sucessivos processos de privatização (de serviços públicos e mecanismos de protecção social) e desregulação (dos movimentos de capitais) à escala global, acompanhados da criação de um variadíssimo leque de possibilidades de aplicação financeira em produtos cada vez mais complexos, muitas vezes através de entidades "off-shore" que escapam a qualquer tipo de controle, incluindo o fiscal.

As consequências estão hoje à vista: avultados recursos financeiros foram-se desviando da economia real para a especulação financeira, à medida dos desejos dos "investidores" globais que preferem a rentabilidade de curto prazo e a adrenalina das flutuações bolsistas à perspectiva de longo prazo que um investimento produtivo implica. Desde os anos 80, tem sido visível em todo o mundo que os salários têm perdido peso no conjunto dos rendimentos gerados, face à expansão dos rendimentos do capital (lucros, juros e rendas).

É este sistema de redistribuição "de baixo para cima", profundamente injusto e economicamente nefasto, que está a ser defendido pelas intervenções propostas pelos governos dos países da UE ou pelos Estados Unidos. A cimeira dos países da zona-euro do último fim de semana foi esclarecedora: não foi decidido rever o Pacto de Estabilidade e Crescimento (que limita os investimentos públicos em nome de um suposto controle da inflação) nem se discutiu o fim da independência do Banco Central Europeu (para que as taxas de juro passem a ser decididas pelos governos, em função de critérios de intervenção política, em vez dos critérios de rentabilidade do sector financeiro).

O confronto da esquerda com estas opções políticas pode e deve ser feito à escala da Europa mas não dispensa a discussão em cada país, em particular quando estão a ser elaborados os Orçamentos públicos para o próximo ano. A regulação do sistema não pode apenas pretender salvar a banca: tem que ser orientada para a revitalização das economias "reais", a recuperação do poder de compra das classes trabalhadoras, a dinamização da procura interna ou a defesa de quem tem menores rendimentos face aos problemas de endividamento.

A crise pode ter efeitos a longo prazo mas estes confrontos decidem-se no imediato, quando se discute o orçamento ou se decidem formas de combate à crise. Recursos, como é evidente pelas verbas disponibilizadas pelos governos para salvar as entidades bancárias, não parecem faltar. Mas estão a ser aplicados nos lugares errados e a agravar a crise social global.

 
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