A crise a quem trabalha criar PDF versão para impressão
16-Out-2008
Jorge CostaSó quem pode faz a urgência. Por isso se pode cobrir as perdas do capital. Por isso não se pode enfrentar o desemprego e aumentar salários e pensões num país precarizado e empobrecido.

O regresso à normalidade vai despontando em cada discurso. Gordon Brown explica as suas parcerias público-privado (carne para o privado, osso para o público) aplicadas à banca e chamadas nacionalizações: "devolveremos os bancos ao sector privado. Não acho que o Estado possa geri-los no longo prazo". Barack Obama aconselha-se na área financeira com dois antigos secretários do Tesouro, Robert Rubin e Larry Summers, pesos-pesados do receituário neoliberal que conduziu à presente crise. Durante o crash asiático de 1997, foram eles que condicionaram as ajudas do FMI à adopção de medidas neoliberais de "ajustamento estrutural" que levaram miséria e fome a milhões de tailandeses, indonésios, etc.

Nos países centrais do capitalismo, sem medidas tão extremas, o padrão será o mesmo: a factura é para os mais fracos. Os governos organizam a limpeza das contas e a conformação da economia real aos vazios financeiros deixados pela especulação. Os trabalhadores pagam - muitos, com o seu emprego; todos, com os impostos desviados para as perdas do capital. Os donos dos bancos, em vez de serem chamados a garantir a liquidez com aumentos de capital, são convidados a guardar os milhões que receberam em dividendos ao longo de anos e anos de lucros. Para isso, o Estado torna-se fiador da banca sem sequer se assegurar que os abusos não se podem repetir. Nem a União Europeia, nem os governos nacionais europeus dão um passo para garantir mínimos de saneamento do sistema financeiro internacional - fim do segredo bancário e dos off-shores, transparência da composição dos fundos de pensões, imposições drásticas sobre as taxas de juro.

Pode ser que tenham passado, como uma breve alucinação, os dias em que a "imprensa de referência" questionava a viabilidade do capitalismo. Também pode ser que não, que a crise engula o tsunami de dinheiro público e que instale de novo o pânico. Certo é que o crash de 2008 mostrou que existem e, em caso de urgência, aparecem amplos recursos públicos. Mas só quem pode faz a urgência. Por isso se pode assegurar cobrir as perdas do capital. Por isso não se pode enfrentar o desemprego e aumentar salários e pensões num país precarizado e empobrecido. Pela parte de Sócrates, o Orçamento de Estado para 2009 é a resposta à crise: que a pague quem trabalha.
Jorge Costa

 
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