20 mil milhões e um caceteiro criar PDF versão para impressão
20-Out-2008
bruno_maia.jpg20 mil milhões de euros é o preço para fazer desaparecer todos os liberais deste país. Ninguém é liberal, Ricardo Salgado não é liberal, Nuno Melo não é liberal, Van Zeller não é liberal... Afinal, 20 mil milhões de euros depois, os liberais eram uma ilusão, uma miragem que durante muitos anos pregou o mercado livre e selvagem e andou a gritar ao país que o problema da nossa economia era... o Estado. 20 mil milhões de euros depois, o Estado afinal serve para alguma coisa...

Esta semana o parlamento discutiu o orçamento de Estado e aprovou o fundo de dinheiros públicos que assegura a manutenção das operações bancárias. Não nos iludamos, a discussão é simples: os liberais defendem a retirada do Estado de muitos sectores económicos - quiseram a privatização da Galp, clamaram pela privatização da PT e da CGD. Mais, defenderam nos últimos anos que os sectores sociais em crise de sub-financiamento deveriam entrar no mercado de valores - as Universidades adquiriram novo estatuto e passaram a aceitar capital privado, a insustentabilidade da Segurança Social só se resolverá com a privatização da sua estrutura central, o SNS deverá dar lugar a sub-sistemas privados de assistência e os serviços públicos, no geral, só se podem tornar competentes e competitivos se foram espoliados. Esta é a realidade da ideologia liberal, os dinheiros públicos não devem servir para financiar os bens públicos, não podem servir para garantir as instituições e os serviços essenciais dos cidadãos! Mas 20 mil milhões de euros depois o neoliberalismo assume finalmente para que servem os dinheiros públicos: para corrigir os erros especulativos dos grandes investidores. É assim: simples e cru! Que se lixem as necessidades básicas da população, o importante é injectar dinheiro nas grandes transacções para assegurar o funcionamento do mercado especulativo. O neoliberalismo não é mais do que isto: uma ideologia utilitária do Estado, predadora dos dinheiros públicos, alienante dos impostos de quem produz valor real com o seu trabalho.

Mas esta ideologia até poderia ser inócua, caso não se reflectisse na decisão política. O que não acontece - o Estado alienou mesmo parte da Galp e prepara-se agora para alienar mais um pouco, os sub-sistemas de saúde crescem à medida que diminui a capacidade dos serviços de saúde atenderam a toda a população, as Universidades já aprovaram o RJIES, o orçamento de Estado não reverte o sub-financiamento de grande parte das instituições públicas (a Universidade de Lisboa corre o risco de fechar em virtude de um défice de 6 milhões de euros para despesas correntes). À privatização do que é público, o liberalismo contrapõe a socialização dos prejuízos do que é privado. Não nos iludimos, sabemos que para o liberalismo o Estado só faz sentido em tempos de crise e para o que é privado!

Sócrates empoleira-se no controle da despesa pública para justificar as linhas de orientação económica que seguiu neste mandato. Esta semana demonstrou para que serviu esse controle: para corrigir os erros no mercado de valores! Numa crise de sobre-produção do capitalismo, o Governo "oferece" 20 mil milhões de euros públicos à banca para garantir o seu funcionamento, sem contrapartidas nenhumas por parte dos bancos e sem garantias nenhumas sobre a utilização desse dinheiro. Com isto, Sócrates nega a possibilidade de investir nos cidadãos, aumentando o poder de consumo destes, para que este iguale a produção actual, através da criação de emprego e da descida das taxas de juro. Para além de ignorar as dificuldades concretas das pessoas, a estratégia aprovada esta semana é irresponsável porque não assegura nada quanto ao futuro da crise e porque colide com o próprio controlo da despesa pública (tão suada por Sócrates), comprometendo o controlo do défice público para os próximos anos.

O neoliberalismo não é só a ideologia dominante no pós-queda do muro de Berlim - é a prática política indecente e irresponsável dos governos europeus e americanos nas últimas décadas e a grande culpada da selvajaria do mercado e da situação que vivemos.

Mas no meio de um debate nacional em que se discutem desde soluções mais pragmáticas para combater a financeirização da economia e a sua crise até ao debate ideológico sobre a autonomia do mercado e o papel do Estado na sua regulação, eis que surge a grande solução do CDS/PP: acabar com o Rendimento Social de Inserção (RSI)! Para o CDS/PP, as fraudes na atribuição do RSI são uma prioridade - o Estado deve investir no controle deste subsídio. Para Paulo Portas, os 7 administradores do BCP, autores de uma fraude gigantesca e que acumularam milhões de euros em sequência disso, nada lhe diz. Só lhe interessa a pobre carteira com escassos euros de quem vive com esse pouco para conservar alguma dignidade na sua vida. Esses é que são os grandes gananciosos do Estado, os ladrões dos fundos de pensões e dos PPR, os responsáveis pela crise. Aquilo que Paulo Portas diz e defende não tem outra caracterização: é demagógico e extremamente populista, é política caceteira! Nada a dizer sobre as off-shores e a lavagem de dinheiros do crime, nada a dizer sobre falências fraudulentas, nenhuma consideração sobre a irresponsabilidade dos grandes especuladores na presente crise. Só grandes discursos sobre o RSI e os "maus pobres" que retiram indevidamente o dinheiro ao Estado. Paulo Portas não sabe quantos usam abusivamente do RSI, não conhece os números e o nível de dificuldade em que vivem muitos portugueses que a ele recorrem e ignora que cerca de 20% da população viva na pobreza. Mas de uma coisa sabe: estupidez, irrealismo, irresponsabilidade, extremismo e populismo! Só o facto de o PP estar permanentemente a descer nas sondagens e em risco de se extinguir pode explicar argumento tão desesperado e inusitado. Paulo Portas ganhou o prémio para "caceteiro da semana". Já sabemos que são precisos 20 mil milhões de euros para fazer desaparecer todos os liberais da face da terra! Só precisamos de descobrir quanto é preciso pagar para nos livrarmos de tamanha cegueira!

Bruno Maia

 
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