Os desvairados heróis do «refundado capitalismo» criar PDF versão para impressão
19-Out-2008
João Teixeira LopesAssenta a poeira e vem ao de cima a «alma» dos líderes europeus. Bastaram uns dias e já só falam em garantias bancárias e estabilização do sistema financeiro. A crise é devolvida à sua esfera inicial: o casino. Da economia real, o mesmo de sempre: aumentará o desemprego, repensar-se-ão os sistemas de protecção social e serão drásticos os cortes sociais.

Sócrates, o mesmo que, numa espécie de revoada ideológica, ressuscitou o papel interventivo do Estado e a crítica retórica ao neoliberalismo, propõe agora nova onda de privatizações. E em que sectores? Precisamente naqueles que se revelaram estratégicos: transportes e energia. Ou seja: TAP, ANA e GALP. Nem uma palavra sobre os dividendos dos bancos ou da responsabilização dos accionistas e gestores. O estado mínimo vai ainda encolher mais.

Um pouco por toda a Europa ressuscita-se, num ápice, a ideia da refundação do capitalismo e da sua superestrutura de organismos internacionais. Dias atrás, a «virada» ideológica parecia apontar para um ataque aos pressupostos sistémicos do capitalismo - aqueles que, por acordo tácito, nunca são discutidos nas esferas públicas da hegemonia. Não era nada: apenas um pouco de excitação.

Pior, ainda, é o ressuscitar das simbologias autoritárias e redentoras: os homens do leme da Europa, até há bem pouco tempo pálidas estrelas num firmamento de mediocridade, tornam-se, doravante, verdadeiros heróis da estabilidade, sensatez e visão estratégica. Berlusconi, imagine-se, é visto como um ícone de sagesse e solidez. Não espantará, pois, se a crise na economia real, que já é uma crise social de enormes proporções, servir de legitimação a um novo ataque nos Direitos, Liberdades e Garantias. A democracia nunca lhes assentou muito bem...

João Teixeira Lopes

 
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