Quando a História ri criar PDF versão para impressão
21-Out-2008
Alice Brito No dia 4 de Dezembro de 1989, na portentosa cidade de Berlim, então oriental, milhares de manifestantes decidiram tomar de assalto a sede da Stasi.

Com a determinação imperativa de quem já chegou ao limite do armazenamento da raiva, as multidões encaminharam-se ligeiras, em urgência ocupante, para o edifício onde se albergava uma das mais demenciais polícias políticas que a humanidade conheceu.

Estava muito frio, mas aquele magote de gente não tinha frio.

A cidade irada e ressentida dava as mãos nas Praças e Avenidas e nas brasas ardentes dos seus olhos, antevia-se já o fim do cerco murado e absurdo, construído bem no meio do seu lombo urbano.

A convocação para a sede da Stasi foi lançada para o ar e, alada, percorreu aquele mar humano, mar insurrecto, sincero e solto, que para lá se foi encaminhando com a velocidade própria das constelações felizes.

Quando os manifestantes aí chegaram, à porta, os guardas pediram a identificação aos primeiros ocupantes.

Estes, habituados à indignidade da obediência cega, identificaram-se como habitualmente.

A seguir entraram, ocuparam o edifício e depois prenderam os guardas.

A História tem destas coisas.

Zomba dos poderes cessantes com um sarcasmo que arrepia, quando estes, incautos, prosseguem a via sacra da autoridade.

Ri-se das suas palavras, dos seus trejeitos, das suas pausas e respirações, dos silêncios, dos pactos, das cimeiras e dos discursos.

A História pode ser voraz e irromper como um fluxo de água solta pela vida adentro de todos e cada um de nós.

A voracidade de alguns momentos da história! Às vezes levamos em cima com a modorra de dezenas de anos viscosos, mornos e pardos. Outras vezes, quando lhe dá forte, aí está ela veloz, a correr como um galgo.

Vem tudo isto, a propósito, do encontro entre Bush, Sarkozy e o nosso inexcedível Durão Barroso.

Nesse encontro, estes personagens peremptórios e eloquentes, acordaram na realização de uma série de cimeiras que respondam às dificuldades da economia mundial.

Em posterior comunicado vieram, sonsos, dizer que as reuniões interestatais planificadas, serviriam para poder "assegurar que uma crise como esta não se volta a repetir".

Tal como os guardas da Stasi que pediram a identificação àqueles que a seguir os iam prender, como se nada se passasse à sua volta, estas criaturas, no meio do caos, traçam planos, fazem cimeiras, asseguram o impossível, como se administrativamente conseguissem caçar uma fera ferida.

Esquecem-se que com a História não se brinca.

Alice Brito

 
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