A batalha de Lisboa criar PDF versão para impressão
23-Out-2008
Pedro Soares A frente ribeirinha está a ser atacada, como seria de prever. Densificação desmesurada no Parque das Nações, novas urbanizações frente ao rio em Chelas e Braço de Prata, constrangimentos impostos pela ponte Chelas-Barreiro, sobretudo pelos impactes da travessia rodoviária, terminal em Santa Apolónia, construções no Cais do Sodré, Belém e Pedrouços, ampliação do cais para contentores em Alcântara e tudo o mais que por aí há-de vir.

A dois meses da tradicional época de todos os balanços e previsões, tudo indica que a grande batalha que Lisboa vai ter de enfrentar, durante o próximo ano, será a da luta pelo direito à sua frente ribeirinha. Não se trata apenas daquela estreita faixa de contacto da cidade com o estuário, em parte conquistada ao rio com os aterros. É muito mais do que isso (e já não seria pouco...), porque se estende para lá do espaço canal das vias rodo e ferroviária que se desenvolvem ao longo do plano de água e vai no sentido do início das colinas da cidade. É impossível desligar a frente ribeirinha daquela extraordinária malha urbana que se dirige para o rio, bem como de todo o seu sistema de vistas.

É tudo isso que continua em causa. O Plano Director Municipal certamente que teria algum papel na definição da relação da cidade com o rio, mas permanece em processo de revisão, fechado e sem a participação dos cidadãos. Sabe-se, também, que o município deverá estar a elaborar planos para a frente ribeirinha, no âmbito do alindamento previsto para as comemorações do centenário da República. Porém, a Câmara já aprovou a construção das instalações da Fundação Champalimaud, precisamente na parte ribeirinha de Pedrouços, sem plano e com suspensão do PDM, mas adiantou-se trabalho.

Agora veio o Governo com o projecto Nova Alcântara. Desta vez parece que foi a Câmara a apanhar com tudo já decidido. O facto é que foi decretada a revisão do contrato com a entidade que explora o terminal de contentores em Alcântara, conferindo-lhe, com muito pouca transparência, o prolongamento da concessão até 2042, o aumento da capacidade de movimentação de contentores e a extensão do cais para nascente em aproximadamente 500 metros, bem como do terrapleno situado entre o novo cais e o actual, em cerca de 55 mil metros quadrados.

Não menos grave é que o terminal de cruzeiros vai ter de passar para Santa Apolónia e, em Alcântara, vai surgir uma verdadeira cortina de ferro de 15 metros de altura, com contentores empilhados ao longo de quilómetro e meio de frente de rio. Um muro de contentores frente a Alcântara e uma parede de edifícios flutuantes com 7 ou 8 andares, em cima de Alfama. Parece incrível, mas pode vir a ser verdade.

A frente ribeirinha está a ser atacada, como seria de prever. Densificação desmesurada no Parque das Nações, novas urbanizações frente ao rio em Chelas e Braço de Prata, constrangimentos impostos pela ponte Chelas-Barreiro, sobretudo pelos impactes da travessia rodoviária, terminal em Santa Apolónia, construções no Cais do Sodré, Belém e Pedrouços, ampliação do cais para contentores em Alcântara e tudo o mais que por aí há-de vir.

Os lisboetas são arredados de intervir em todo este processo que lhes rouba o rio. A Câmara está a deixar perder a frente ribeirinha e titubeia entre compromissos com o Governo e com privados. O seu presidente não se decide a dar um murro na mesa. Esta vai ter de ser a batalha de Lisboa.

Pedro Soares

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.