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01-Nov-2008

João Teixeira LopesUma ocasional companheira de autocarro, membro da secção de direitos humanos da ordem dos advogados do estado de Rio de Janeiro, contou-me que, da análise efectuada pela instituição, pelo menos 1400 pessoas foram executadas extra-judicialmente pela polícia, exército ou esquadrões da morte paramilitares. Ora, nas recentes eleições municipais, o prefeito que ganhou na cidade do Rio, fortemente apoiado pelo governador do estado, obteve também o suporte do Presidente Lula, apesar de ambos se terem recentemente degladiado a propósito do escândalo de corrupção «mensalão», no qual o PT e os círculos do Presidente estiveram fortemente envolvidos. Impossível deixar de questionar: como é possível a um político com o passado de Lula acumular tanta degenerescência, tanta corrupção, tanta colagem à direita e mesmo à extrema-direita? E, já agora, como é possível, ainda, que certos sectores da esquerda portuguesa e europeia continuem a defender o populismo, oportunismo e opções de direita de Lula e do PT?

Fala-se muito na «bolsa família», uma espécie de rendimento mínimo que permite aos mais pobres dos pobres não morrer de fome. Vários estudos têm mostrado com clarividência que reduziu a pobreza absoluta, o que em si é sempre positiva. Mas em nada alterou a estrutura da distribuição de rendimento. Aliás, criou-se no Brasil um processo de integração social das massas populares através do consumo. Não se pense que o seu poder aquisitivo aumentou; simplesmente facilitaram-se ao máximo os mecanismos de concessão do pequeno crédito. A estratégia é bem conhecida e acontece igualmente em Portugal: perante a precariedade, o desemprego e a pobreza permite-se a entrada dos desfavorecidos na esfera do consumo, reduzindo-se, assim, o volume de energias potencialmente reivindicativas e criando a ilusão de mobilidade social. Mas, no final, as famílias acabam profundamente endividadas e os bancos correm para os braços do Estado em busca de garantias adicionais de liquidez...

Além do mais, tarda em verificar-se a integração que poderia ter efeitos realmente positivos: a esfera dos serviços públicos permanece altamente inacessível e incipiente, em particular na saúde e na habitação.

Os brasileiros gostam de se imaginar como uma imensa comunidade colorida e integrada. Ao contrário dos Estados Unidos, as questões raciais e étnicas estão substancialmente ausentes do debate público. Crescem, entretanto, os muros das cidades, as grades nos prédios, os exércitos privados dos condomínios, as ruas bloqueadas aos pobres e negros.

Teresa Caldeira, antropóloga, fala de uma sociedade disjuntiva: enquanto que a democracia política se aprofundou, bem mais do que as elites mais retrógradas alguma vez desejariam, em particular pela emergência activa e pujante de novos movimentos sociais, dando, pela primeira vez na história do Brasil, voz e dignidade a tantos e tantas, a segregação aumenta e a ideologia do medo das «classes perigosas» contagia os ricos, as classes médias e é incorporada pelos próprios pobres, que se dividem entre si (vendo nuns ou noutros os «maus» vizinhos, os «criminosos»...).

Sem qualquer desejo de comparar o que é singular, encontro sem dificuldade muitos destes sinais em Portugal e na Europa. Tanto mar?

João Teixeira Lopes

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