Lisboa mais exigente criar PDF versão para impressão
02-Nov-2008
Pedro SoaresO Governo alargou escandalosamente e sem concurso público, até 2042, a concessão do terminal portuário de Alcântara à empresa Liscont/Mota-Engil. No mesmo decreto-lei, aprovou a triplicação da capacidade daquela infra-estrutura para receber contentores, a extensão do cais para nascente e o aumento do terrapleno junto à Doca do Espanhol. Os cruzeiros vão ter de migrar para Santa Apolónia. O espaço é pouco para tanto contentor.

É isto que está no referido diploma e não vale a pena dourar a pílula. Significa uma imensidão de caixotes de aço no cais de Alcântara e o esvaziar da expectativa de aproximação da cidade ao Tejo naquela zona. Há alternativas e são conhecidas. A petição "Lisboa é das pessoas, mais contentores não!", lançada há dias por um grupo de cidadãos, dirige-se à Assembleia da República e reclama a revogação daquela deliberação do Governo. Com toda a razão e pertinência.

Porém, há quem queira desmobilizar esta Lisboa mais exigente. Diz-se que o número de contentores não vai aumentar no cais de Alcântara. Afirma-se que o túnel ferroviário a construir permitirá drenar todo o crescimento que decorre da triplicação da capacidade de operação portuária. Pois bem, mas se assim fosse, para que serviria o aumento do cais em mais 500 metros? Alguém acredita que se investe no crescimento da capacidade do terminal na perspectiva de vir a ficar vazio?

É a própria Liscont/Mota-Engil que vem responder à questão e anunciar que o investimento em Alcântara contempla "o aumento da capacidade de parqueamento no terminal". Só por ingenuidade ou má fé é que nos poderão querer convencer do contrário e que é preciso esperar para depois ver. É muito estranho não ter sido essa a atitude pedida aos lisboetas quando da polémica sobre o elevador da Mouraria ou quando do túnel do Marquês. Porque o que é obviamente avisado e correcto é conhecer todos os dados antes de a obra ser aprovada. O contrário significa negligência ou contemporização com interesses de conveniência.

As certezas que já existem sobre este projecto "Nova Alcântara" tornam a situação ainda mais grave do que os exemplos anteriores: o projecto não fazia parte de qualquer programa eleitoral, mais uma vez a Administração do Porto de Lisboa e o Governo não quiseram expor as suas opções sobre a cidade a debate público, os cidadãos de Lisboa foram confrontados com um facto consumado, que tem a ver com a sua cidade, por decreto-lei e os órgãos autárquicos não foram sequer consultados sobre a matéria.

De novo e apesar das promessas, a frente ribeirinha, espaço nobre da cidade, foi tratada miseravelmente. Apesar de serem os interesses de Lisboa e dos lisboetas que, em primeiro plano, estão em causa, também a Câmara se deixou governamentalizar e demitiu-se de ser a procuradora da cidade. Aos cidadãos compete-lhes exercer os seus direitos e fazer esta batalha por Lisboa.

Pedro Soares

 
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