Dar a volta ao Bairro Alto criar PDF versão para impressão
03-Nov-2008

Tiago GillotEste foi o primeiro fim-de-semana de aplicação do "novo regime de horários para o Bairro Alto" (Despacho da Câmara aqui, via blog da Associação de Comerciantes do Bairro Alto). É mais um episódio na história, já relativamente longa, de medidas que pretendem a reconfiguração do mais importante ponto de encontro nocturno e convívio na cidade de Lisboa.

António Costa segue uma linha que não é novidade: depois de Santana Lopes apertar os horários dos bares (em obediência aos apetites de empresários de "outras noites") e encher o Bairro de câmaras de videovigilância - justificadas pelo controlo do trânsito condicionado na zona -, depois dos últimos anos nos terem trazido a presença crescente e desproporcionada da polícia nas ruas, junta-se agora o encerramento obrigatório dos bares às 2 horas da manhã, associado a outras medidas incluídas no Plano de Integrado de Intervenção no Bairro Alto - sugestivamente apelidado de "Vamos dar a volta ao Bairro Alto". "Combate ao graffiti" e "mais segurança", mas também medidas que são pouco mais de que prometer o óbvio, como tratar da iluminação e a limpeza do espaço.

É fácil perceber qual é a "volta" do Costa. No passado sábado, quem cruzasse o Bairro Alto às 3 da manhã, encontrava ruas quase desertas e grupos de polícias ao dobrar da próxima esquina. Um cenário "inseguro", afinal, que lembra zonas de excepção. Era este o efeito do "plano", logo no "dia 2" do Bairro Alto com que António Costa sonha: a "segurança" são agora os "coletes amarelos", polícias zelosos, que fecham bares e transformam aquelas ruas num palco estranho e militarizado.

A verdade é que esta iniciativa é mais um passo na erosão dos espaços de encontro e convívio que, com todas as transformações próprias da evidente mercantilização da "noite" e de tudo o resto, ainda têm um carácter "popular".

Sim, popular: porque, mesmo não ignorando que a night que tem a ganhar com a imposição clean já está naquelas ruas, é ainda ali que se encontram muitas pessoas com carteiras menos preparadas para os "consumos mínimos". Aliás, quer seja através de iniciativas semelhantes ou resultando do zelo selectivo da ASAE, assistimos à desertificação dos espaços de cultura e convívio por esse país fora. É uma nova agressividade na regra que impõe o esvaziamento de espaços que não respeitam suficientemente as novas ambições deste mercado.

Em Lisboa, basta nomear o recente e tristemente conhecido caso do Grémio Lisbonense, em que os interesses privados não autorizaram um espaço (associativo, já agora) que era de toda a gente: a Câmara deixou que o deserto Rossio, no coração da cidade, se mantenha um território interdito às pessoas que vivem e passam por Lisboa.

É preciso dizer que é disto que se trata. É preciso deslocar a discussão da falsa oposição entre moradores e frequentadores da "noite do Bairro". É preciso dizer que este novo Bairro Alto não está a ser devolvido a ninguém. Está a ser capturado por uma lógica autoritária, em vários sentidos, e por objectivos que pouco têm a ver com os moradores. Aliás, são muitas as opiniões de gente que mora no Bairro Alto contra esta medida. Talvez porque pressintam que, além de tudo o resto, são apenas um apontamento numa agenda que não os inclui nem aos seus interesses - por exemplo, melhorar as condições de habitabilidade, de noite e de dia.

Com paredes mais "limpas", mais câmaras a filmar as ruas e mais polícia ou gente transferida para fora dos bares mais cedo não se investe um cêntimo no que verdadeiramente interessa a quem lá vive. O Bairro que aí vem é o Bairro sobretudo das casas de fado, marialva e patusca, para turista ver e consumir num pacote-tradição, abrindo ainda o flanco para a especulação imobiliária que exige conquistar moradores com outras bolsas. É este o "plano". Responder-lhe tem que ser bem mais do que a sugestão do desconforto por perder "o(s) meu(s) bar(es) de sempre": tem que ser afirmação do direito a uma cidade para as pessoas. Em Lisboa e em todo o lado.

Tiago Gillot

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