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10-Nov-2008
Alice BritoMichel Foulcaut ao pisar o chão de Paris em Maio 68, referindo-se aos manifestantes que então habitavam as ruas, declarou: "eles não fazem a revolução. Eles são a própria revolução."
Quarenta anos depois, podemos parafrasear Foulcaut, quando o olhar se acende sobre a marcha poderosa de 120.000 professores nas ruas de Lisboa: Eles não fazem a educação. Eles são a própria educação.
Os professores.

É pela mão dos professores que a humanidade aprende a ler as letras e o mundo; aprende o conceito de número em matemática e o nome das estrelas no céu; aprende a gramática da ciência e atinge o coração da poesia; aprende o princípio de Arquimedes e olha com reverência Galileu.

É pela mão dos professores que se aprende que a vida é muito mais que a sobrevivência e que é no passado que se inscreve o futuro, que os povos hão-de moldar com o barro das mãos e o afecto da inteligência.

É pela mão dos professores que a cidadania se interioriza ou será uma palavra inerte, na página inconsequente de um dicionário a aboborar numa qualquer estante.

Lisboa, 8 de Novembro.

Cento e vinte mil professores de todas as cores tamanhos e feitios vieram falar da mágoa da humilhação e dos dias escuros com que se quer vestir esta profissão solar, de contornos únicos, a desaguar ali, na periferia das coisas mágicas, quando o acto de ensinar se transforma em conhecimento adquirido e o aluno noutra pessoa mais capaz, mais sábia, dando o salto de aprendiz para criador.

Cento e vinte mil professores, vindos dos quatro cantos deste país golpeado por eternas crises e défices infindáveis, vieram mostrar-se, afirmar-se, na maior manifestação, que alguma vez, qualquer grupo profissional foi capaz de produzir.

E também nisso ensinaram.

Ensinaram que quando se atinge o limite da cólera contra quem reiteradamente menoriza, apouca, enxovalha e vilipendia, não há outra solução, senão o combate frontal e unido, o combate para o que der e vier;

Ensinaram que a desobediência é legítima quando a ordem é ilegítima porque desconforme à vontade, dignidade e verticalidade da maioria.

Ensinaram que quando se humilha, ou se desautoriza a profissão docente, se nega o chão firme às gerações que frequentam a escola. Porque ela, a escola pública, é o terreno onde se lançam as âncoras do saber e atracam os afectos que constroem a identidade. É nela, na escola pública, e só nela, que é possível lançar as bases de uma cultura cidadã.

Alice Brito

 
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