Bretton Woods II? criar PDF versão para impressão
15-Nov-2008
Nuno TelesEste fim-de-semana reúnem-se em Washington os líderes de vinte países mais a União Europeia com o objectivo de discutir a actual crise financeira e a melhor forma de lhe fazer frente.

Este encontro tem sido anunciado na imprensa como um Bretton Woods II, evoquando assim a histórica reunião de 1944 onde os EUA e o Reino Unido (representados por Keynes) definiram o sistema monetário internacional que imperou nos países capitalista até ao início dos anos setenta. Embora as propostas mais ousadas de Keynes - como a da criação de uma moeda referência mundial, o bangkor - tenham sido derrotadas, a repressão da esfera financeira internacional que estes acordos permitiram abriu caminho para um período de crescimento e prosperidade sem igual na história do capitalismo.

Existem alguns sinais positivos na resposta à actual crise. O facto de um conjunto importantes de países "emergentes" participarem nesta reunião mostra um multipolarismo ainda ausente das instituições internacionais. A crise e o esgotamento dos instrumentos de política monetária (injecções de liquidez, descida das taxas de juro) obrigou à reabilitação da política fiscal - veja-se o anúncio do pacote de investimento chinês de quase 15% do seu PIB. Só mesmo o governo Sócrates parece interessado em exibir o equilíbio orçamental como um objectivo maior da economia nacional. Um desígnio cujo abandono é, hoje, uma questão de tempo, dada a dimensão da crise internacional.

No entanto, a expressão Bretton Woods II é, no mínimo, exagerada para qualificar a actual reunião. As declarações dos principais líderes mundiais parecem ir ao encontro da opinião de que esta reunião não será mais do que uma tentativa de através de medidas pontuais e muito modestas manter a actual arquitectura financeira internacional, onde o dólar se afirma como quase-moeda mundial e instituições como o Banco Mundial e o FMI permanecem sob controlo dos EUA. O Público de 8 de Novembro noticiava que a tentativa de um plano mais robusto, sugerida por Sarkozy, foi contestada por alguns países da União Europeia, entre eles Portugal (representado por Luís Amado), como sendo "excessivamente limitadora e condicionadora do mercado".

Esta tentativa de encarar a crise como um mero acidente de percurso da economia mundial e deixar intactas as estruturas internacionais que conduziram à crise é a receita perfeita para o desastre. Existem já sinais do que poderá vir a acontecer, sobretudo nas economias em vias desenvolvimento. A fuga de capital dos países emergentes, ao agudizar os seus desequilíbrios externos, já originou a intervenção do FMI em alguns países, como o Paquistão ou a Hungria. A condicionalidade destas intervenções roçam o inacreditável. O FMI concede os seus empréstimos exigindo o mesmo de sempre: disciplina fiscal e reforma (leia-se privatização) dos serviços públicos como, por exemplo, a segurança social. Não só tal acção esquece a catástrofe social resultante dos seus planos de ajustamento estrutural na América do Sul e África, como vai exactamente no sentido contrário da política económica de estímulo fiscal dos países mais desenvolvidos. Bem prega frei tomás...

Nuno Teles

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