Memórias de tempos idos criar PDF versão para impressão
24-Out-2006

violante_saramagomatos.jpgO assalto da polícia ao Teatro Rivoli lembrou-me tempos idos. Seis horas da manhã. Intervenção à socapa. Cobarde. Que à luz do dia, provoca a revolta. E o caçador pode, no mínimo, ter que ouvir a indignação dos que não concordam, a revolta dos que querem resistir.
Não vou julgar a ocupação do Teatro. Não sei se foi, ou não, a melhor forma de luta contra a privatização daquele espaço de cultura. Mas sei que quando a razão existe não precisa de aparecer escondida na noite. Se assim não é, é porque o poder, sabendo-se sem razão, escolhe a hora tardia para atacar.

Não é estranho que as autoridades, todas, das autárquicas ás governativas, tenham optado pelo silêncio mais absoluto sobre o que se passou? Francamente, para mim não é. Que outra coisa, se não um deserto de palavras, era de esperar da acção de uma câmara e de um governo que consertaram a invasão do teatro para, eufesmisticamente, acabar com a ocupação selvagem?

O que mais me preocupa é que o país, a maioria do país, acha tudo natural. Dir-se-á que tem mais com que se preocupar e que o Rivoli, os artistas, a cultura, não fazem parte das suas prioridades. Mas será por isso que não reage? Acho que não. Tenho a terrível sensação que foi ficando apático, embalando num socrático canto de sereia a caminho do suicídio consentido.

As piores medidas tomadas desde Abril de 1974 contra direitos duramente conquistados são as de agora. Nunca, nem com os piores governos da direita, se tinha ido tão longe. Professores e função pública - actuais grandes inimigos de estimação e pais de todos os males - são o bombo da festa. É zurzir, vilanagem. Que quanto aos ataques aos trabalhadores do sector privado- já cá temos o abençoado Código de Trabalho. Sobem os impostos, aumenta o desemprego, encarecem os medicamentos, os salários compram cada vez menos, a saúde - de tendencialmente gratuita, passa a obrigatoriamente paga, o ensino está um caos, a justiça é um deus nos acuda.

Mas para tudo isto, não há nada como uma boa explicação do primeiro-ministro. Aliás, de cada vez eu o vejo ou ouço, fico à espera do que vem aí. E a electricidade? Porque é que fica a sensação de armadilha? Diz o governo para a ERSE: Prepara o terreno, que temos que subir a luzita! Diz a ERSE para o governo: Já sei! Diz o país: Malandros da ERSE! Se não fosse o governo, lá íamos pagar mais caro; ainda bem que o ministro não deixou que o aumento fosse tão grande. Sempre são 9 pontos a menos! E toca a pagar o que o governo queria. Alegres e contentes, que o governo é verdadeiramente porreiro.

Nunca vi coisa assim. Palavra que nunca vi máquina de propaganda tão bem montada. Nem governo que tão eficaz seja na gestão da sua imagem e que, por isso mesmo, durante todo este tempo tem sabido tão bem levar água ao seu moinho. As recentes manifestações de rua são a mancha no cenário de perfeição em que o poder nos quer fazer acreditar.

Eu espero que sejam o sinal de alerta para acordar que é preciso e para a indignação que não pode continuar adormecida. Estão a ficar demasiado vivas as memórias de tempos idos.

Violante Saramago Matos

 
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