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04-Dez-2008
Dólares recém-impressos. Foto de noii's, FlickRPara combater a crise, os Estados Unidos optaram pela via imperial de emitir dinheiro, o que em última instância descarregará o seu custo sobre as costas do resto do mundo. Quer dizer: os Estados Unidos voltarão a actuar, como nos anos 80, sem pensar em nada mais que no seu próprio interesse estratégico e seja qual for o custo que isso implique para os demais.

Por Juan Torres López, do blog do autor

A declaração final da reunião do G-20 ampliado em Washington não deixava muitas dúvidas. Os países mais poderosos do planeta manifestavam implicitamente a sua impotência, ao ser incapazes de anunciar medidas imediatas para fazer frente à crise financeira. Como pus em relevo num comentário sobre a declaração (Muitos princípios reiterados, muito pouca vontade de mudança) a única coisa que resultava clara da leitura do comunicado final era que as grandes potências se autorizavam umas às outras a saltar por cima das limitações orçamentais que se tinham auto-imposto desde há vários anos.

Em virtude disso, os diferentes países começaram a anunciar planos milionários de intervenção urgente com o objectivo de enfrentar a recessão, ou mesmo a depressão, que alguns deles já começam a sentir.

O Presidente do Governo espanhol fê-lo logo em seguida, mais tarde foram os Estados Unidos a anunciar uma injecção de 800.000 milhões de dólares, e a Comissão Europeia acaba de propor outra de 200.000 milhões de euros. Este recurso é inevitável mas, mesmo quando se recorre a ele já em última instância, não se vai conseguir que seja plenamente bem sucedido.

A novidade do plano dos Estados Unidos é que se financia utilizando directamente a máquina de fazer dinheiro, ou seja, sem recorrer à dívida, como no plano anterior. Isto é algo que os Estados Unidos podem fazer sem demasiados problemas, graças ao facto de a sua moeda continuar a ser utilizada na maior parte das trocas a nível internacional, mas sem dúvida vai debilitá-la ainda mais no futuro imediato. Em linhas gerais, portanto, o plano trará mais problemas do que aqueles que possa resolver. E isso, além do mais, sem que se trate de um plano com garantias suficientes de conseguir o que se propõe, pois não haverá forma de conseguir garantir que a injecção desses recursos se repercuta por um incremento efectivo da actividade, dado que se aplica a uma economia envolvida por uma espécie de sistema financeiro esponja, que absorve tudo e não deixa sair nada.

O plano europeu, por seu lado, volta a mostrar a debilidade da União, uma vez mais incapaz de encontrar uma resposta comum que vá mais longe do que dizer aos diversos países: que cada um actue por sua conta. Em suma, consiste em dizer aos países membros que, ante a situação que se avizinha, têm mãos livres para utilizar os recursos orçamentais que cada um possa mobilizar por sua conta. É pelo menos algo que permitirá pôr em marcha medidas paliativas, mas que pode deixar abertos flancos muito perigosos pelas periferias.

Em ambos os casos, como também no espanhol, logo que venha a concretizar-se a actuação governamental, tratar-se-á de uma ajuda muito importante à actividade económica, embora incompleta, porque deixa por resolver duas grandes questões. A primeira, o problema financeiro que continua a estar na base da crise. De momento, não se sabe muito do que vai ser posto em marcha neste campo dos já de si limitados acordos de Washington, não obstante a situação estar longe de ser resolvida. Já foi necessário intervir no Citigroup, e de modo nenhum pode descartar-se que se agrave a situação de outras entidades financeiras, posto que o processo de descapitalização gerado pela irresponsabilidade bancária dos últimos anos nem parou nem está resolvido.

A Europa parece demasiado confiante que o problema financeiro é um problema originalmente gerado nos Estados Unidos e que só o sofre na sua carne como efeito indirecto. Mas temo que isso possa ser muito arriscado se se toma em consideração que também aqui há grandes doses de risco acumulado e ameaças sérias, por muito dissimuladas que estejam no espaço opaco em que se movem as finanças europeias.

Alguns analistas assinalam sintomas de debilidade mais graves que o desejável na Inglaterra e na Espanha e, por isso, seria muito conveniente que a União Europeia se adiantasse e iniciasse quanto antes o caminho da nova regulação financeira, estabelecendo metas e tomando medidas desde o início, e não quando os problemas rebentarem.

A segunda limitação destes planos é que, embora congreguem a mobilização de recursos multimilionários, praticamente não discriminam nem oferecem uma gama de incentivos suficientes para ir modificando um modelo produtivo que se manifestou igualmente problemático.

Os Estados Unidos optaram pela via imperial de emitir dinheiro, o que em última instância descarregará o seu custo sobre as costas do resto do mundo. Quer dizer, pela via imperial que um dia impôs Paul Volcker à frente da Reserva Federal, precisamente, aquele que voltou a ser chamado por Obama para presidir uma comissão de peritos para a reactivação económica. Uma decisão que é um autentico aviso à navegação e que traz consigo uma mensagem muito significativa e nada casual: os Estados Unidos voltarão a actuar, como nos anos oitenta com Volcker, sem pensar em nada mais que no seu próprio interesse estratégico e seja qual for o custo que isso implique para os demais.

Ora bem: sem resolver os problemas de base que originaram a crise, o caudal enorme de recursos que se está a injectar poderá minorar em alguma medida os seus efeitos mais dramáticos, mas não vai poder evitar que a crise se estenda. É patético observar como os governos, que já puderam comprovar o escasso efeito das injecções de liquidez dos bancos centrais, tentam agora fazer o mesmo com recursos orçamentais, sem abordar as causas, sem modificar o sistema bancário, sem mudar de horizontes. Sem transformar nada.

A banca internacional converteu a economia mundial num saco sem fundo e por isso será inútil resolver os seus problemas simplesmente deitando-lhe dinheiro dentro. Há que começar a remendar quanto antes.

Tradução de José Pedro Fernandes

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