Esquerda 32: Entrevista com José Cascalho, deputado do BE na Assembleia Regional dos Açores criar PDF versão para impressão
18-Dez-2008
José Cascalho, deputado do BE na Assembleia Regional dos AçoresNas eleições legislativas regionais dos Açores, realizadas a 19 de Outubro de 2008, o Bloco de Esquerda foi o único partido que subiu em número de votos, triplicando o resultado obtido em 2004 e elegendo dois deputados (Zuraida Soares e José Cascalho) para a Assembleia Regional. Para o jornal Esquerda 32 entrevistámos José Cascalho.
Entrevista de Carlos Santos.

Em primeiro lugar, peço-te uns dados mínimos sobre ti. Sabemos que és professor universitário...

José Cascalho (JC): A minha idade é 41 anos, nasci em Lisboa, vivo aqui na Terceira, nos Açores, com a minha família há dez/onze anos. A minha formação é engenharia e dou aulas de educação neste momento.

Estavas à espera de ser eleito?

JC: Não estava não.

Que achas dos resultados destas eleições?

JC: São resultados surpreendentes por um lado, pelo Bloco ter tido tantos votos. Mas por outro lado são um pouco assustadores, porque houve pouca participação das pessoas.

Houve uma votação inferior a 50%, isso significa é preciso fazer um trabalho político junto das pessoas, para que percebam que a política é importante para elas.

Porque achas que há essa abstenção tão grande?

JC: Não sei bem as razões da abstenção. Nos Açores a abstenção sempre foi muito elevada.

Há algum descontentamento, como é óbvio, e acho que as pessoas também estão preocupadas com a sua vida com o seu dia-a-dia e não acreditam muito que ele melhore, penso eu.

Aqui nos Açores, as pessoas vivem muito no seu mundo, no seu espaço fechado, e as relações estabelecem-se, sobretudo nas ilhas mais pequenas, entre as pessoas que estão à volta e resolvem-se os problemas desta maneira.

Os políticos, de uma maneira geral, estão muito longe das pessoas, muito afastados da realidade, acho eu.

O que achas que vai mudar com a eleição de dois deputados do Bloco de Esquerda?

JC: Vão haver questões colocadas que não o eram antes e isso é muito importante. A diversidade é muito importante...

Por exemplo...

JC: Há questões pelas quais o Bloco sempre tem lutado. Uma delas é a questão das Lajes, que é muito incómoda para a região: os direitos dos trabalhadores das Lajes não têm sido defendidos. Outra questão tem a ver com o modelo económico.

O nosso modelo económico de desenvolvimento é baseado muito na construção civil e nos subsídios e é preciso pensar no futuro, porque eventualmente os subsídios europeus vão acabar. É preciso pensar como é que a sociedade açoriana pode modificar a sua estrutura produtiva, de forma a que possa ter mais autonomia e não depender tanto dos subsídios.

Há um conjunto de coisas que é preciso repensar para que o futuro seja melhor aqui nos Açores, não quer dizer que não tenha havido evolução, não quer dizer que não hajam iniciativas interessantes do governo relativamente a certas coisas, mas é preciso pensar no futuro e numa maior sustentabilidade da região e sobretudo apostar também na questão da formação.

A formação é um aspecto muito importante, ela é muito baixa nos Açores. É preciso aumentar o número de pessoas que são licenciadas e isso implica que é preciso estabelecer um plano político, um objectivo político, que relativamente à educação tem que ser necessariamente ambicioso, numa região como esta.

Desde o dia em que foste eleito o que mudou na tua vida e na relação com as pessoas?

JC: As pessoas têm-me cumprimentado e dado os parabéns.

De uma forma geral, esperam alguma coisa do Bloco de Esquerda, esperam que seja uma voz diferente.

Há outras pessoas que esperam que eu defenda a ilha Terceira, muitos terceirenses dizem isso, para eles isso significa que a ilha não seja posta de lado ou que os serviços não fujam todos para São Miguel...

Sempre houve aqui nos Açores uma disputa sobre qual devia ser a ilha que devia ter o poder, quem devia governar e quais os serviços que deviam estar numa ilha ou noutra. Isso é uma questão muito latente aqui nos terceirenses. De uma maneira geral as pessoas têm sido muito positivas.

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