A grande recessão e o risco da deflação criar PDF versão para impressão
26-Dez-2008

Crise por Koshyk/FlickrO recentemente galardoado com o Prémio Nobel da Economia, Paul Krugman, tem uma carreira curiosa. Tendo escrito os seus principais contributos para a teoria económica há cerca de vinte anos, Krugman dedicou-se desde então à divulgação e ao debate das teorias económicas e, sobretudo, das opções dos governos do seu país, os Estados Unidos. Feroz crítico da economia especulativa de George Bush (e que tinha sido iniciada por Bill Clinton), já em 2005 Krugman tinha deixado o alerta: "A economia americana depende das pessoas venderem casas umas às outras, sendo as dívidas pagas com dinheiro emprestado pelos chineses".

Texto de Francisco Louçã

Krugman tornou-se por isso o (provavelmente único) beneficiário do crash bolsista de 2007 a 2008 e da recessão que se lhe segue: tendo visto os seus prognósticos mais sombrios confirmados pela crise, o Prémio Nobel foi-lhe atribuído mais pela crítica do que pelo contributo teórico (aliás bastante convencional dentro dos quadros da economia ortodoxa). E tinha sem dúvida razão: a expansão da economia americana, que é ainda a economia dominante no mundo, foi alimentada ao longo dos últimos anos pelo endividamento.

No gráfico 1 destaca-se esta evolução. Como se vê, a dívida das famílias quase triplica, a dívida da economia não-financeira duplica e a dívida do sector financeiro multiplica-se por dez desde 1960. A espiral do endividamento suportou o consumo e o nível de vida nos EUA e tornou-se agora o detonador da crise.

Gráfico 1. Dívida privada (em % do PIB dos EUA)

Dívida privada em % do PIB dos Estados Unidos

Esta espiral de endividamento permitiu uma enorme acumulação de capital fictício e, portanto, beneficiou directamente o sector financeiro, que construiu novos impérios. O Gráfico 2 revela a extensão desta mudança, ainda para o caso dos EUA.

Como se verifica, a evolução dos lucros ultrapassa e em muito o crescimento do produto. Mas o que mais impressiona é como dispararam os lucros do sector financeiro, sugando parte importante do valor produzido na economia (e criando valor fictício, sem contrapartida em bens, serviços ou informação e conhecimento produzidos).

Gráfico 2. Evolução dos lucros no sector financeiro e não-financeiro (em % do PIB dos EUA, 1970 = 100)

Evolução dos lucros em % do PIB dos Estados Unidos

F: Economic Report of the President, 2008.

Esta espiral especulativa não podia durar. E, de facto, começou a tremer quando se verificou que o crédito subprime, isto é o crédito hipotecário a pessoas pobres, não podia ser pago. Em consequência, começou um efeito dominó devastador, visto que parte dos "derivados" se baseava em activos sem valor real e portanto incobráveis. Assim, descobriu-se que as instituições financeiras vendiam gato por lebre. A primeira a cair foi o Banco Lehmann Brothers, o quarto maior banco de investimento no mundo. E depois foram nacionalizados 60 bancos, porque os governos da União Europeia e os EUA se concertaram para financiar a fundo perdido os prejuízos e tentar salvar o capital financeiro.

Mas há duas características importantes desta crise que não têm resposta nestes desesperados planos de salvamento.

A primeira é a sobreprodução. Esta é uma crise típica de sobreprodução, como se verifica claramente no exemplo da indústria automóvel. Mas só há sobreprodução porque se conjugam duas decisões estratégicas erradas: produzir demasiados bens supérfluos e, sobretudo, reduzir o valor do salário para aumentar a taxa de lucro. A diminuição da procura efectiva, isto é do poder de compra dos trabalhadores, por via do aumento do desemprego estrutural, das deslocalizações e da austeridade, tem agora o reverso da medalha. No Gráfico 3 mostro como se foram reduzindo os salários como parte do rendimento nacional e do PIB dos EUA. O mesmo se passou no mundo inteiro.

Gráfico 3. Salários em % do PIB dos EUA

Salários em % do PIB dos Estados Unidos

F: Economic Report of the President, 2008

A consequência é a crise de sobreprodução e de falta de procura efectiva. Ora, a recessão - de que a fagulha inicial foi o crash das Bolsas, mas que se desenvolve por causa da sobreprodução - agrava ainda mais estas dificuldades, porque vai provocar um grande aumento do desemprego. Os mais pobres ficam mais pobres, os mais vulneráveis ficam mais vulneráveis.

A tentativa do Governo Sócrates de contrabandear no Código do Trabalho a extensão do período experimental para 6 meses, acabando assim com os contratos a prazo para criar uma figura de exploração ainda mais barata e com menos direitos, é uma expressão grave destas ameaças.

Mas existe ainda uma segunda ameaça, que é a deflação. Com a recessão, e trata-se de uma recessão somente comparável à mais grave de sempre, a de 1929, o risco actual é a deflação, isto é a redução dos preços em níveis absolutos. Essa situação implica dois dramas: o primeiro é o desemprego, porque muito mais empresas fecharão se assim for; e o segundo é o sobreendividamento das pessoas. Quem está endividado é a vítima mais atingida pela deflação, visto que os juros nunca são negativos e, se os preços baixam (e os salários também) o diferencial em relação ao juro vai aumentar.

A deflação é uma tragédia raramente conhecida nas economias capitalistas desenvolvidas. Houve um episódio desse tipo no Japão nos anos 90 do século passado e a recessão durou uma década. Se a recessão actual provocar deflação, estaremos perante uma crise social como nunca conhecemos nas nossas vidas.

Francisco Louçã

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