Estados Unidos: um capítulo novo? criar PDF versão para impressão
26-Dez-2008

Presidente Obama e Hillary Clinton, nomeada secretária de Estado - 1 Dezembro 2008O neo-conservadorismo épico tinha morrido nas areias do Iraque e o neo-liberalismo do trickle-down tinha ruído nas lamas de New Orleans. O que aconteceu económica e politicamente nos Estados Unidos em 2008 foi apenas o início da escrita do capítulo seguinte de uma narrativa anunciada desde então.

Texto de José Manuel Pureza

O défice orçamental norte-americano atinge hoje a cifra de 455 mil milhões de dólares. Os 700 mil milhões entretanto disponibilizados pelo Tesouro para a compra dos créditos imobiliários mal parados mostram como paira nesta viragem de ano a tentativa de que aquele próximo capítulo venha a ser de continuidade e não de ruptura. O que o Tesouro comprou - optando por financiar os alimentadores do crédito e não os seus reféns - foi acima de tudo a manutenção mais ou menos incólume de um sistema arruinado. Na verdade, a crise do subprime foi apenas a evidência de insustentabilidade de um capitalismo cada vez mais entregue à supremacia do virtual sobre a realidade, sendo que esse virtual, na voragem de se afirmar, não hesita em apresentar-se carregado de vírus. A moribunda Administração Bush desistiu de opor anti-vírus eficazes às práticas de crédito de risco e a todas as demais que criam a ilusão do business as usual (da camuflagem de contas à sofisticação dos offshores. Pelo contrário, ensaiou, como dela se esperava, uma fuga para a frente - mudam os croupiers mas o casino must go on.

A América política de 2008 foi Obama. E, com Obama, foi o estertor do conservadorismo primário a que Palin deu expressão. Mas atenção: o conservadorismo da chamada "excepcionalidade americana" não se evaporou. E a dimensão da votação em McCain aí esteve para o provar, se era preciso. Obama é politicamente o rosto da falência popular de um reaganismo fora de tempo. Que a palavra ‘mudança' tenha sido premiada eleitoralmente é bem significativo. O próximo capítulo será escrito por uma equipa que assume a ‘experiência' como prioridade. Daí Clinton, daí Gates. Não são bons indícios para quem criou a expectativa de um corte na substância e não apenas no estilo. O já anunciado em relação ao Afeganistão e à Palestina confirma a escassez de bons augúrios. Mas talvez os combates por uma política fiscal decente e pela universalidade e qualidade de serviços públicos essenciais possam sair legitimados do novo ambiente político norte-americano. Veremos. O fim da história ainda vem longe.

José Manuel Pureza

{easycomments}

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
tit_todosdosiers.png
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.