Camionistas paralisaram o país criar PDF versão para impressão
27-Dez-2008
Piquete de camionistas em Albergaria-a-Velha. Foto de Sérgio Azenha, Lusa2008 fica marcado por protestos em todo o Mundo contra o aumento do preço dos combustíveis. Em Portugal, os pescadores foram os primeiros a reagir, paralisando por alguns dias a frota pesqueira. Mas a mobilização com maior impacto foi sem dúvida a dos camionistas. Contra a vontade da grande empresa representativa do sector, milhares de camionistas revoltaram-se e montaram um bloqueio de vários dias no mês de Junho, que fez secar bombas de gasolina e obrigar o governo a negociar o que antes recusara.  

Entre 8 e 12 de Junho de 2008, o bloqueio organizado pelos camionistas levou o país à beira do caos. A decisão foi tomada no dia 7 de Junho, num plenário que juntou mais de mil transportadores de mercadorias, na Batalha, um dia depois de terem ensaiado um primeiro bloqueio na cidade do Porto. A decisão foi tomada contra a principal associação representativa do sector (ANTRAM), ultrapassada pela determinação de centenas de pequenos e médios transportadores, que exigiam compensações do governo face ao aumento dos combustíveis. Entre as exigências estava o acesso ao gasóleo profissional (taxado com imposto mais baixo), a redução das portagens à noite, o apoio ao abate de veículos, incentivos à formação profissional e a suspensão do pagamento do IVA referente a facturas que ainda não tivessem sido pagas pelos clientes.

A paralisação durou cinco dias e teve momentos de grande tensão, dada a atitude determinada dos piquetes. Ao terceiro dia um camionista que participava num piquete de greve, perto de Torres Novas, morreu na sequência de um atropelamento por um pesado. Enquanto a ANTRAM continuava a recusar apoiar a paralisação, constituia-se uma comissão que liderava os protestos e o governo via-se cada vez mais obrigado a mudar de interlocutor.

O combustível começou a faltar em vários pontos do país, e a GNR teve que escoltar vários camiões-cisterna, nomeadamente os que se dirigiam para o aeroporto da Portela. Nesta altura, as palavras do primeiro-ministro não deixavam antever nenhuma cedência: "Não poremos em causa o interesse geral por qualquer interesse específico".

No dia 10 de Junho, a greve chegou a ser desmarcada por pressão da ANTRAM sobre a comissão que estava à frente dos protestos. Mas passado algumas horas, e depois de consultados os piquetes, os camionistas voltaram ao bloqueio. No dia seguinte, e perante o agudizar da situação com cada vez maior escassez de combustíveis nos postos de revenda, a ANAREC lança o alerta: "O país pára se o bloqueio se mantiver durante um ou dois dias".

Foi então que na noite de dia 11 de Junho, num plenário que juntou os piquetes de greve, os camionistas decidiram terminar a paralisação, aceitando as medidas que o governo foi obrigado a negociar não só com a ANTRAM mas também com a comissão que liderou os protestos, aprovando um pacote para aliviar as consequências da crise dos combustíveis sobre o sector, ou seja: a aplicação de tarifas de portagens reduzidas, no período nocturno, para profissionais do sector do transporte de mercadorias; a manutenção do valor do Imposto sobre os Produtos Petrolíferos (ISP); a manutenção do imposto de camionagem aos valores de 2007 durante os três próximos orçamentos de Estado; a indexação do frete ao custo do aumento dos combustíveis.

A decisão do plenário da Batalha não foi, no entanto, consensual. Alguns transportadores em luta consideraram que foi alcançada "uma mão cheia de nada", em particular por não terem conseguido o "gasóleo profissional", taxado por imposto mais baixo. Apesar disso, a decisão de terminar o bloqueio foi acatada em todo o país.

O protesto dos camionistas teve um grande impacto, quer em termos mediáticos, quer ao nível das consequências para o país. Mas não foi a única mobilização em 2008 contra o aumento do preço dos combustíveis. Também no mês de Junho (nos dias 2 e 17) realizaram-se por todo o país buzinões de protesto. Para um dos automobilistas citado pela Agência Lusa, este governo "merece muitas buzinadelas" e "toda a gente está na miséria mas as grandes petrolíferas têm lucros fabulosos e cada vez são maiores".  Ainda antes, no final do mês de Maio e início de Junho, os armadores e pescadores portugueses paralisaram a frota pesqueira. Viveram-se igualmente momentos de grande tensão, com o peixe a escassear em alguns locais e com confrontos a registar em algumas lotas.

Entre a greve dos pescadores e a greve dos camionistas, o Bloco de Esquerda apresentou um projecto de lei para controlar o preço dos combustíveis. "O truque de vender hoje muito caro o que ontem se comprou mais barato é inaceitável", afirmou Francisco Louçã na apresentação da proposta, prevendo uma descida de 10 a 14 cêntimos por litro com a aplicação da nova fórmula de cálculo.

Dois dias depois (a 3 de Junho) a Autoridade da Concorrência revelou não ter identificado qualquer infracção à lei da concorrência na formação dos preços dos combustíveis em Portugal, uma conclusão muito criticada por partidos e sectores sociais e que viria a preceder, com quatro dias de diferença, o grande bloqueio protagonizado pelos camionistas.

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