Esquerdas convergem contra o neoliberalismo criar PDF versão para impressão
27-Dez-2008
Isabel Allegro Magalhães, Manuel Alegre e José Soeiro, à saída do comício/festa do Teatro da Trindade. Fotod e arquivo da Lusa2008 foi ao ano em que várias personalidades e sectores da esquerda portuguesa se aproximaram para procurar alternativas à governação neoliberal e ao pensamento único. A convergência começou por se fazer sentir no comício festa do Teatro da Trindade, em Junho, e continuou no Fórum Sobre Serviços Públicos e Democracia, em Dezembro. No parlamento, Manuel Alegre e outros deputados socialistas votaram ao lado do Bloco de Esquerda e do PCP em matérias tão fundamentais como o código do trabalho.  

As políticas de ataque aos serviços públicos e aos direitos dos trabalhadores protagonizadas por José Sócrates desiludiram muitos eleitores e militantes socialistas, que agora se juntam no diálogo com gente do Bloco de Esquerda, renovadores comunistas, dirigentes sindicais e outras personalidades de esquerda, rumo a uma política diferente, do lado dos mais fracos e capaz de enfrentar os poderosos.

Esta convergência, de que Manuel Alegre tem sido o rosto mais visível, começou por se materializar na organização de um comício/festa no Largo da Trindade, na base de um apelo comum contra o pensamento único e a política neoliberal.

"Novas e gritantes desigualdades, cerca de dois milhões de portugueses em risco de pobreza, aumento do desemprego e da precariedade, deficiências em serviços públicos essenciais, como na saúde e na educação. Os rendimentos dos 20 por cento que têm mais são sete vezes superiores aos dos 20 por cento que têm menos", eis algumas das razões que tornaram urgente o encontro das esquerdas. Entre as 85 personalidades que assinaram este apelo encontram-se os fundadores do Partido Socialista Carolina Tito de Morais e José Neves, o histórico militante socialista Edmundo Pedro, os deputados bloquistas Francisco Louçã, Luís Fazenda, José Soeiro e João Semedo, a autarca de Lisboa Helena Roseta, os sindicalistas Ulisses Garrido, Mariana Aiveca e Manuel Grilo, o arqueólogo Cláudio Torres, o reitor da Universidade de Lisboa, António Nóvoa, o ex-líder parlamentar do PCP Carlos Brito, o militar de Abril general Alfredo Assunção e o editor Nélson de Matos.

Apesar de Vitalino Canas, porta-voz do Partido Socialista e provedor das empresas de trabalho temporário, ter avisado os militantes socialistas para não compareceram num evento que "ou prescinde do PS, ou é feito contra o PS", a verdade é que o Teatro da Trindade foi pequeno para as mais de 800 pessoas que quiseram assistir aos discursos de Manuel Alegre, José Soeiro (jovem deputado do Bloco de Esquerda) e Isabel Alegro Magalhães (professora universitária). Muitos ficaram de fora mas puderam assistir em directo ao comício a partir de um écran gigante no espaço Chiado, mesmo atrás do Teatro da Trindade. O evento contou ainda com as intervenções musicais dos Rádio Macau, de António M Ribeiro (UHF) e dos TerraKota. A resposta a Vitalino Canas, foi dada por Alegre já depois de realizada a inciativa:"No Teatro da Trindade veio ter comigo um casal de Penafiel, socialistas que ouviram as declarações de Vitalino Canas e, segundo me disseram, meteram-se logo no carro".

Na sua intervenção, Manuel Alegre solidarizou-se com todos os pobres, desempregados e precários, lembrando especialmente aqueles que votaram no partido socialista e não mudaram ou pioraram a sua condição. Lembrou também que a "responsabilidade da esquerda é criar as condições concretas da liberdade", porque "quem é pobre nunca tem a mesma liberdade do que quem é rico".

No final, congratulou-se pela inciativa: "Agora e aqui, custe o que custar, doa a quem doer. Agora e aqui, chegou o tempo de a esquerda deixar de combater a esquerda, de a esquerda deixar de diminuir a esquerda. Agora e aqui, chegou o tempo de somar esquerda à esquerda."

O evento da Trindade irritou vários dirigentes do Partido Socialista. José Lello acusou Alegre de parasitar o PS e de ter falta de carácter e de seriedade enquanto Renato Sampaio, do PS Porto, depois de acusar Alegre de falta de respeito, virou as baterias contra o Bloco de Esquerda: "O Bloco de Esquerda é um epifenómeno, como o foi o PRD. Espero que, num futuro próximo, tenha o mesmo destino que o PRD". José Lello seria depois obrigado a corrigir as suas declarações, reconhecendo que afinal não era verdade que o grupo parlamentar do PS tivesse pago a viagem de Manuel Alegre aos Açores para apresentar um livro.

A convergência e a procura de alternativas à esquerda continuou durante o resto do ano de 2008. Manuel Alegre lançou a revista ops, na qual colaboram pessoas de diferentes origens políticas, destacando-se os temas sobre trabalho e sindicalismo e sobre educação. Aliás, estes foram dois assuntos em torno dos quais esta convergência à esquerda mais se fez sentir. No parlamento, Manuel Alegre e mais quatro deputados do PS votaram ao lado de BE e PCP contra o novo Código do Trabalho, e, mais recentemente, a favor da suspensão do modelo de avaliação de professores imposto pelo governo às escolas.

Precisamente o Trabalho e a Educação, juntamente com a Saúde e as Cidades, foram também os temas dos painéis do último encontro das esquerdas, o Fórum sobre Serviços Públicos e Democracia, realizado em Dezembro na Aula Magna. A alguns dos promotores do encontro da trindade, juntaram-se a este evento o secretário geral da CGTP Manuel Carvalho da Silva, bem como outros militantes comunistas, intelectuais, médicos e escritores. Este fórum distinguiu-se do primeiro encontro pela profundidade dos debates, orientados para a procura de propostas concretas alternativas às políticas neoliberais.

No discurso de encerramento, Manuel Alegre sublinhou que a força da esquerda é a sua pluralidade, mas também a "capacidade de construir convergências", procurando uma "perspectiva alternativa de poder". O militante histórico do Partido Socialista acusou o governo de falta de coragem para ajudar os desempregados, enquanto corre para acudir os banqueiros. As outras duas intervenções de encerramento ficaram a cargo de Ana Drago, deputada do Bloco de Esquerda, e de Maria do Rosário Gama, Presidente do Conselho Executivo da Escola Secundária Infanta Dona Maria, que acusou o governo de fazer tábua rasa do programa do partido socialista para a educação.

Leia também:

Notícia do Comício/Festa do Teatro da Trindade, aqui e aqui

Notícia do Fórum Sobre Serviços Públicos e Democracia, aqui e aqui

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