A convergência das esquerdas criar PDF versão para impressão
29-Dez-2008

Fórum Democracia e Serviços Públicos - 14 de Dezembro de 2008 - foto de André Beja1. O contexto

2008, do Teatro da Trindade à Aula Magna tiveram aí lugar assembleias de proximidade entre socialistas descontentes, o campo do Bloco, outros grupos políticos e personalidades. Dessas assembleias tudo se disse, sobejou a especulação jornalística. Importa talvez perceber as razões por que foram possíveis. Dizer que se trataram de espaços de crítica, muito contundente, ao governo do Partido Socialista, é dizer pouco. E, no entanto, esse era o ponto de partida: a condenação das políticas liberais que têm dominado. Nesse aspecto teve o eco previsto.

Texto de Luís Fazenda

As razões profundas da aproximação na acção, no combate político, prendem-se com aquilo que há muitos anos se chama a crise estratégica do reformismo. É o factor poderoso da insatisfação de largos sectores da população e dos seus representantes políticos que se juntou à oposição de esquerda "tradicional". O fenómeno não é exclusivamente português, é bastante acentuado na união europeia. Os partidos socialistas após a 2ª guerra mundial praticaram uma política reformista a favor das classes trabalhadoras. O "estado-providência" tornou-se a Meca dos programas de reformas. A partir da década de 80 a progressiva transferência desses partidos, uns mais que outros reconheça-se, para as concepções neoliberais da burguesia conservadora transformou-os numa loja vazia para os interesses populares. Partidos de reformas que não fazem reformas, e crescentemente assumem contra-reformas no sistema do wellfare, entram em crise de identidade e estratégia, exibem duplicidade.

Esse mal-estar, produto da metamorfose liberal dos socialistas oficiais, é que provoca a contestação ideológica nas suas fileiras e eleitorado. "Já não me revejo neste partido" não é só um estado de tristeza, é o reconhecimento de um processo.

A presença do Partido Socialista no governo é, como é fácil de ver, o acelerador de todas as divergências programáticas, pois é quando o choque entre a imagem e a realidade é mais brutal. Os descontentes bem podem invocar Antero, Leon Blum, Olof Palme, isso não faz parte da cartilha ideológica de Sócrates, remetido ao pragmatismo liberal.

2. O PS não é algarismo deste número

Convenha-se que a convergência das esquerdas nada tem a ver com o "programa comum" de Mitterrand e Marchais. Esse tempo, sem o analisar agora, não volta mais. O PS não faz parte desse esquema. A não ser para aqueles que acham que vão reconverter o PS, e andam nisso há mais de 20 anos. A necessidade de convergência das esquerdas para derrotar a política neoliberal é um processo longo e acidentado de refundação das áreas políticas respectivas. Embora não exclusivamente. Os movimentos sociais podem ter aqui um papel de impulso muito marcante. A presença de destacados líderes sociais no Fórum "Democracia e Serviços Públicos" potencia esse processo.

Entenda-se que nada tem a ver com a aritmética eleitoral. Confundir isto com discussões sobre situações de coligações eleitorais ou governamentais é perceber tudo ao contrário: toda esta dinâmica funciona exactamente contra o partido do governo, e destina-se a criar a prazo uma alternativa. A quem? À política neoliberal do PS, claro.

3. Clarificações

No que toca ao Bloco de Esquerda o processo de refundação e de avanço político, de pluralismo no ideal socialista é bem conhecido. Outras áreas terão a evolução que determinem. Descontentes do PS poderão até criar organizações novas, maxime um partido, para eventualmente recuperar um espaço social-democrata.

A alternativa de poder de que fala M. Alegre não é seguramente o socialismo mas seria descabido, ainda mais na actual adversa relação de forças, subestimar possibilidades de ruptura com as políticas neoliberais de PS e PSD, o bloco central de interesses. Esse sim, seria um sinal de modernidade na Europa.

O debate do programa, aproveitando as várias eleições de percurso nos próximos anos, pode revelar convergências na orientação económica de redução drásticas das desigualdades sociais, no papel do estado e dos serviços públicos, no motor da cultura e educação. Da remodelação do modelo produtivo, à ecologia abrangente, às alterações europeias, à desvinculação do bloco militar da NATO, o tempo e as circunstâncias apontam para compromissos exigentes.

Discutamos então a alternativa antes de discutir o poder. Somos agentes desse progresso.

Luís Fazenda

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