Desfecho da Era do Petróleo criar PDF versão para impressão
31-Dez-2008
Petróleo, um combustível que escasseia e é susceptível à especulação - Foto de Barrybar/Flickr2008 termina com alguns recordes históricos, foi o ano em que explodiu a maior recessão das últimas décadas, em que se agravou dramaticamente a crise alimentar que deixa milhões de pessoas sem o alimento mínimo para a sua subsistência e o ano em que as tempestades decorrentes das alterações do clima se mostraram mais devastadoras, provocando os maiores custos em vidas e bens.

Texto de Alda Macedo.

A crise financeira que tinha vindo a dar os seus primeiros sinais há mais de um ano e eclodiu com toda a violência no verão passado teve na crise dos combustíveis uma das suas mais significativas demonstrações. A especulação com os preços dos combustíveis levou a um aumento em flecha do valor do barril de petróleo que chegou a atingir o valor de 147 dólares no pico do ciclo de subida. As repercussões nos transportes foram o estrondo que repercutiu a irracionalidade a que o capitalismo conduziu a dependência da economia e da vida quotidiana das pessoas decorrente de um modo de transporte dominantemente rodoviário e portanto dependente de um combustível que não só promete escassear mas também é profundamente susceptível à especulação do mercado.

Esta crise que em Junho de 2008, esteve na origem da paralisação dos transportes demonstrou a enorme fragilidade a que o modo capitalista conduziu a sociedade. Evidenciou também a extrema dependência em que todos os sectores de actividade se encontram em relação aos combustíveis fósseis que são responsáveis por 80% da energia que consumimos. Quando veículos de emergência médica e protecção civil se encontram em risco de ficar paralisados por falta de combustível obtemos a imagem da extrema dependência em que todos nos situamos face a este modo de transporte.

Por outro lado ficou comprovado que todo o trabalho e toda a actividade económica dependem em absoluto da energia. São as actividades económicas que giram à volta da energia ou por causa dela e por causa do modelo de desenvolvimento que o capitalismo favorece que não só estão na própria origem da crise mas se vêem profundamente afectadas por ela.

Os governos europeus estão prisioneiros deste triângulo: segurança alimentar, energia e recessão e rapidamente esquecem as intenções benignas de colocar a UE na vanguarda da agenda para a mitigação das alterações do clima em nome de manter os negócios do costume. Onde era preciso traçar um programa de mudança radical nas fontes de energia e na racionalização do seu uso, a resolução do Conselho Europeu de Dezembro de 2008 recua de uma forma dramática para uma estratégia defensiva que coloca a tónica apenas nas energias renováveis para produção de electricidade, desde que o negócio da electricidade se mantenha.

O relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações do Clima (IPCC) publicado no ano passado não deixa nenhuma dúvida. No melhor cenário é preciso que os países industrializados reduzam as suas emissões de gases que contribuem para o efeito de estufa (GEE) em 80% até 2050 com um período intermédio de adaptação de reduções entre 25 e 40% até 2020, por comparação com as emissões de 1999.

O relógio não pára e 2020 será daqui a uns meros 11 anos, portanto as mudanças necessárias precisam de começar desde ontem. O programa de energias renováveis constitui o cerne da estratégia da UE do triplo 20 (20% de aumento de eficiência energética; 20% de energia renovável e 20% de redução de emissões) que Sócrates tem replicado em Portugal. Ele é contudo insuficiente e as medidas aprovadas mostram que esta estratégia não vai muito além das declarações de intenção. O pacote de medidas que o Parlamento Europeu aprovou na sequência do Conselho Europeu sobre as alterações do clima, produz uma redução real de emissões em apenas 4%, até 2020, os restantes 16% decorrem de projectos de "desenvolvimento limpo" em países terceiros. Isto é fazer batota com a natureza num jogo onde não pode haver cartas viciadas sob pena de virmos a pagar um preço demasiado alto.

A produção automóvel representa uma parcela importante da economia europeia, no entanto, no momento em que é mais urgente operar uma mudança de paradigma no modo de transporte é que os governos europeus mostraram a sua incapacidade de impor as transformações necessárias a este segmento da produção.

O sector de transportes consome anualmente 1.500 milhões de toneladas de combustível e as perspectivas são de que este valor aumente constantemente ao longo dos próximos anos. A redução de emissões de GEE depende em grande medida de uma mudança profunda no sector de transportes. Esta é a mudança que o capitalismo tem incapacidade em operar. A lógica da acumulação de rendimentos é incompatível com a mudança para um modo de transporte que garanta a mobilidade de pessoas e bens de uma forma que tenha menos impacto para a sustentabilidade ambiental.

A produção de bioetanol e biodiesel que contribuem apenas para uma ínfima parte das necessidades mundiais de combustíveis geraram no início deste ano as maiores perturbações para a segurança alimentar. A produção dedicada de cereais para produção de combustíveis, associada à universalização dos OGM é a resposta capitalista à crise do petróleo mas tem impactos tremendos sobre o uso dos solos, a degradação das zonas florestais e a segurança alimentar. O caminho tem que ser situado no desenvolvimento e generalização de veículos movidos a fontes de energia renováveis, limitar zonas cada vez mais amplas dos perímetros urbanos aos transportes públicos e cicláveis, exigir uma moratória europeia a todo o novo investimento em rodovias e um plano europeu de limitação de transporte aéreo.

Estas são apenas algumas medidas dirigidas a um dos problemas mais urgentes. Não são suficientes. É preciso um programa rigoroso para o sector da electricidade que permita acabar com a produção eléctrica em centrais térmicas e nucleares. O desfecho que possa vir a ter a era do petróleo depende em muito da capacidade de impor um programa que conjugue a universalidade do direito ao conforto e à mobilidade com uma cultura de respeito pelos ecossistemas naturais. Esta conjugação só é possível através de uma agenda socialista para o clima e para a humanidade para que possamos pôr um fim à "Era do Petróleo" como uma passagem para a outra margem da vida da humanidade.

Alda Macedo

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