A assinatura - Em memória de Anna Politkovskaia criar PDF versão para impressão
22-Nov-2008
Alice BritoNo dia sete de Outubro de 2006 foi assassinada na cidade de Moscovo a jornalista Anna Politkovskaia, conhecida e premiada pela sua coragem na denúncia das violações dos direitos humanos na Rússia de Putin e na Chechénia de Kadyrov.

Moscovo, a Chicago dos anos trinta, escrita em cirílico.

Naquele dia 7 de Outubro, Anna vinha tranquilamente do supermercado carregando sacos com compras.

À porta de casa três balas atravessaram-lhe o peito indefeso e finalmente uma quarta bala foi lançada sobre o rosto da jornalista, onde se lia, já em declínio, um alarme que se escoava em golfadas urgentes de sangue sobre o chão, onde o corpo inapelável caiu com o barulho e desamparo próprios das coisas mortas.

Dizem que o quarto tiro, o tiro que lhe desfez a cara, é a assinatura de quem perpetrou o crime - a máfia russa em perfeita coexistência amigável e solidária, ou mais do que isso, em osmose indolente e protegida com a polícia de Putin.

Este remeter-se-ia, aliás a quatro longos dias de silêncio, antes de declinar um discurso de pesar técnico, quatro dias em que todo o planeta se indignava e chorava a brutalidade gratuita da morte obscena desta admirável mulher.

Após quatro dias de denso silêncio espesso, numa Rússia que não conseguia metabolizar mais este assassinato, e estupefacta fazia a aritmética sinistra do crime, até chegar ao número vinte e um, o número de jornalistas assassinados desde o ano 2000, Putin falou, classificando o trabalho da jornalista como insignificante.

A Moscovo mongol e depois tártara, a Moscovo czarista e depois vermelha, a dilacerada Moscovo estalinista e a desditosa Moscovo de Putin, toda a cidade desesperada e raivosa, saltou um longo grito de dor e saiu à rua, exactamente no dia a seguir à morte, num massivo latido de mágoa aflita, exigindo liberdade de imprensa e jurando não esquecer o desaparecimento daquela que era considerada a consciência da Rússia.

Moscovo derramou pelos bairros e pelas praças, pelas ruas e cafés, pelos teatros e fábricas e escolas, a condenação feroz da ditadura, rememorando o outro atentado de que Anna havia sido vítima, quando a bordo de um avião lhe serviram uma chávena de chá envenenado.

As provas desse atentado foram destruídas por "inadvertência", tradução russa de impunidade, cumplicidade e escândalo.

Anna lutou contra a chávena venenosa e sobreviveu. Ninguém soube ou ninguém quis saber, que mão pôs o veneno naquele chá, tal como agora ninguém sabe ou não quer saber que dedos premiram o gatilho matador.

Anna ia aos locais e colhia os depoimentos das vítimas, reproduzindo-os a nu, sem anestesia nem adorno, ali onde as palavras sangram e os olhos procuram em vão uma porta de saída, face às descrições de torturas que jamais cicatrizarão na memória dos que as sofreram.

Anna falava com as mães dos desaparecidos da tchétchenia, daqueles que não voltaram um dia, um dia como os outros, em que a mesa estava posta à sua espera.

Anna não roçava o olhar breve sobre as violações dos direitos humanos.

Anna mergulhava os olhos, os dedos e as teclas, nas crueldades mais abjectas que o ser humano consegue executar, e sem pejo nem medo, ou com muito medo e maior coragem, publicitava-as na esperança de que os criminosos fossem algum dia condenados, e às vítimas fosse entregue a parcela de justiça a que teriam direito.

Começou na passada segunda-feira o julgamento do assassinato de Anna Politkovskaia. Sem arguidos. Não foram encontrados nem mandantes nem mandados. À porta fechada, longe da imprensa.

Alice Brito

 
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