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26-Nov-2008
Miguel Portas

Por me encontrar no Cairo, em delegação do Parlamento Europeu, não pude estar presente na assembleia do concelho de Lisboa do Bloco de Esquerda, que decorre enquanto escrevo.

I. O incómodo

Se estivesse presente, votaria favoravelmente o fim do entendimento com José Sá Fernandes. Trata-se da formalização de uma situação de facto que não se apresenta reversível.

As últimas dúvidas dissiparam-se no "Prós e Contras" sobre a operação de Alcântara. Não, o problema não foi ver Sá Fernandes com a secretária de Estado. Isso incomoda, mas se os argumentos fossem justos, do mal o menos. O problema é que ele esteve do "lado errado" sem os argumentos certos.

O que de facto me incomodou foi não ter reconhecido o meu vereador. Tenho a certeza de que há dois ou três anos o Zé estaria do outro lado da barricada, demolindo qualquer Sá Fernandes que apresentasse os argumentos que ele apresentou. Foi esta a certeza que, definitivamente, me incomodou.

II. Por dentro e por fora

Naquele debate o dossier era concreto. A posição de Sá Fernandes foi insustentável porque o negócio concluído não apenas dispensou a figura do concurso, como a sua concretização incorpora escolhas sobre cargas e formas de escoamento cujos impactos no vale de Alcântara estão por avaliar. O meu vereador não podia, em consciência, avalizar uma operação nestas circunstâncias e no entanto foi isso mesmo que ele fez, aliás, desastradamente. O episódio coloca uma questão de natureza simbólica e outra, bem mais profunda, de ordem cultural.

A simbólica: Sá Fernandes construiu a sua imagem de provedor na defesa dos direitos dos cidadãos e na exigência ambiental. Por causa dela foi, por mais de uma vez, muito impopular. O que simbolicamente ruiu naquele debate foi esta última dimensão. Um símbolo demora décadas a construir, mas basta uma noite para que ele possa ruir e foi isso que aconteceu.

A cultural: sei, por experiência, que existe sempre uma tensão entre a política que se faz "correndo por fora" e a que se aprende quando "se está por dentro". Essa tensão é de cultura, de informação e de poder.
Para que não sobrem dúvidas, penso que uma esquerda transformadora precisa dessa tensão. Quando a conquista do poder é o único ou o principal objectivo de uma força política, o instrumento acaba por se confundir com a própria finalidade. O PS é o que é por isso e os PC's no poder acabaram como acabaram, também por isso. Por outro lado, quem pense que "correr por fora" é uma vocação e não uma circunstância ou uma necessidade, auto-condena-se à ignorância e à propaganda.

Difícil é articular as duas dimensões. Compreendo que José Sá Fernandes quisesse mostrar que também era capaz de ser útil á cidade, "fazendo". Compreendo também que certas ideias que se têm quando se não conhecem as mecânicas da administração pública e a discussão aturada dos prós e contras de cada decisão, levem uma pessoa a rever ideias feitas. Só não aprende quem pensa que não precisa de aprender. Até aqui tudo bem. Mais: ainda bem. O problema é que não foi esta tensão que Sá Fernandes revelou naquele debate. O que ali se descobriu foi a sua apropriação pela "cultura do poder", a política que se resume à "política do possível", vista de cima. Sem esta mutação cultural não teria caído o símbolo.

III: Das boas e das más lições
É importante aprender com as experiências que chegam ao fim.

O bloco não errou por se ter aliado a José Sá Fernandes.

O bloco também não errou por ter trabalhado com independentes. O distanciamento entre um vereador e o partido por quem se apresentou podia ter ocorrido com um vereador militante.

Finalmente, o bloco não falhou por ter subscrito um compromisso sobre aspectos capitais para a cidade. Foi essa a orientação da campanha e a consequência em política deve perseguir-se.

Como a própria resolução regista, o balanço do acordo comporta elementos muito positivos - em particular a integração no quadro de 700 trabalhadores com funções permanentes no município, um gesto inédito na administração pública e local - outros cujo saldo é ainda incerto e, finalmente, outros que se afastaram do que se tinha contratualizado. Uma melhor sintonia entre o vereador e o bloco, maior capacidade de iniciativa autónoma e uma relação mais politicamente mais tensa com o partido maioritário, poderiam ter levado mais longe as mudanças que a própria cidade exige.

IV. Concluindo

É bom que na fase das lições, não se desaprenda. Acerto e erro fazem parte do crescimento. Também é bom que não se cristalizem os anátemas. Nenhuma separação é fácil, mas nem todos os divórcios têm que ser litigiosos. O José Sá Fernandes optou pelo possibilismo e por vestir a camisola e as dores do partido maioritário na câmara. Era inevitável essa evolução? Não sei. Terá o bloco feito tudo o que podia para a evitar? É matéria de reflexão sobre a qual os que acompanharam mais de perto este ano e meio de experiência terão melhor opinião do que eu.

Apenas sei que a manutenção de um equívoco não serve a ninguém. O artigo que hoje o José Sá Fernandes publicou no Público mostra como pode ser grande a diferença entre um copo meio cheio e um copo meio vazio. Sugiro que ele seja cotejado com a opinião que o Heitor Sousa apresenta sobre as pistas cicláveis, no esquerda.net. Ele ajuda a perceber porque é que a prestação televisiva, ou a operação skoda na Praça das Flores ou a presença na conferência de imprensa de desagravo a Ana Sara Brito, não foram momentos infelizes, mas parte de uma mutação de cultura política. Acontece e recuso quaisquer julgamentos no estilo "ele vendeu-se". Apenas tiro ilações de ordem política. Hoje, é separados que estaremos melhor.

Miguel Porta, artigo publicado no blogue Sem Muros

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