A brutal realidade dos recibos verdes criar PDF versão para impressão
02-Dez-2008
Tiago GillotUm testemunho, recentemente divulgado no blog do movimento FERVE (Fartos/as d'Estes Recibos Verdes), relata a dura história de uma mulher que, depois de estar a trabalhar há mais de dez anos no mesmo atelier, sob a mesma hierarquia e com as mesmas funções, nunca conseguiu mais do que um recibo verde ao fim de cada mês.

Um recibo verde falso, falsíssimo, como na esmagadora maioria dos casos. Agora, enquanto enfrenta um cancro na mama, tem que lutar também contra as injustiças e ilegalidades que dominam as relações laborais. "Vivo neste momento da caridade", diz esta arquitecta. "Para que não seja despedida tenho ido trabalhar quando na verdade só me apetece ficar em casa a descansar e a enjoar...".

É esta a brutal realidade dos recibos verdes e a demonstração de que correspondem quase sempre à violência nas relações laborais. Gente que trabalha sem direitos, pau para toda a obra, sujeita às flexíveis conveniências e horários ditados pelos patrões e quase sempre muito mal paga. Além de tudo o resto, no momento da doença, por mais grave que seja, estas pessoas têm que escolher entre a recuperação e o salário. São os "Super-Verdinhos", como ironizou a Cristina Andrade em crónica recente aqui no Esquerda.

Só conhecemos esta história porque esta mulher ousou divulgá-la, mesmo que forçada ao anonimato. Ela ilustra o escândalo da generalização das formas de contratação precárias e das suas cruéis consequências. Não se trata, infelizmente, duma excepção: na arquitectura, como em muitas outras áreas, a ilegalidade é a regra. Uma breve passagem pelas "ofertas" e "procuras" da "Bolsa de Emprego" no sítio da Ordem dos Arquitectos, permite-nos perceber que o estágio é já uma perspectiva optimista para estas pessoas. Assim, sem rodeios, divulgado pela Ordem profissional.

Esta é uma conivência instalada. Infelizmente, casos como o desta mulher são demasiado fáceis de encontrar. Os patrões contam com a força da impunidade: mesmo com inspectores a menos, não seria difícil à Autoridade para as Condições do Trabalho tropeçar diariamente em situações como esta. Apetece dizer que bastaria correr uma lista aleatória de empresas, para a maioria dos ramos de actividade.

Infelizmente, é fácil prever que os próximos anos nos tragam a vulgarização de testemunhos semelhantes, apesar da retórica de "combate à precariedade" ensaiada pelo Governo a propósito da revisão do Código do Trabalho: a precariedade é a imposição dos patrões, consentida e promovida por Sócrates e todos os Governos gestores da situação na Europa. São as novas formas de exploração, baseadas na chantagem do desemprego e sustentadas no recuo do movimento dos trabalhadores e trabalhadoras: a ofensiva flexi vende "autonomia" e "liberdade", mas oferece pouco mais do que miséria e precariedade.

Teremos que achar normal não ter direito à recuperação no momento da doença, pondo em causa a saúde e, como neste triste caso, até a sobrevivência? Teremos que aceitar trabalhar sem contrato, sem protecção na doença, sem horários, sem escolher férias (e às vezes sem as gozar)? Teremos que passar a vida a estagiar, a "prestar serviços", sempre a prazo, com ou sem contrato?

A resposta é não. Não temos que viver assim, porque a precariedade não é inevitável: a precariedade é o roubo que nos fazem enquanto não formos capazes de dar a volta às nossas vidas. É esta a urgência e o desafio de uma esquerda atenta e lutadora, de um sindicalismo de combate, dos movimentos de precários e precárias e de todas as pessoas e sectores que não aceitam a sobre-exploração do trabalho.

Tiago Gillot

{easycomments}

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.