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03-Dez-2008
Natasha NunesA história do BPP é indecorosa. Importa ter em mente que o namoro, noivado e casamento entre Vítor Constâncio e o governo Sócrates tem sido fecundo. Aliás, fecundíssimo. Não há memória de intervenção pública do governador do Banco de Portugal que não seja consonante e concertada com as conveniências do governo PS. E não há, neste âmbito, medida do governo PS que não ampare e acarinhe os interesses das grandes dinastias financeiras.

Não é o bem estar da sociedade o que preocupa Sócrates. Nem são os mais de 2 milhões de pessoas vítimas de pobreza o que lhe tira o sono. O desassossego de Sócrates brota quando não pode fazer grande coisa para auxiliar a manutenção e a ampliação dos detentores das venerandas fortunas. Excluir a hipótese da criação de um imposto sobre os altos rendimentos ou recusar a ideia de uma estratégia de desmantelamento do off-shore da Madeira, para Sócrates é coisa fácil. O complicado mesmo é quando se tem que explicar aos portugueses porque é que o Estado tem que avançar para salvar da falência um banco desinteressante e marginal como o BPP.

Aqui começam os esquemas. Primeiro o Banco de Portugal vem dizer que não salva nada, que um plano de resgate de 750 milhões de euros é um desvario. Depois vem falar na possibilidade de avançar com uma soma de 45 milhões de euros. Então vêem as mentiras: não será o Estado a assistir directamente; serão outros bancos a sobrevir; esses outros bancos, um tanto ou quanto por acaso, sabem que se o filme der para o torto, porque afinal essa patranha de se meterem com activos que não valem grande coisa afectos a um banco descredibilizado pode ser perigoso mais lá para diante; então aí, convém que essas instituições que agora saltam de vontade para prestar um apoio financeiro de 450 milhões de euros ao BPP tenham um ombro amigo a quem recorrer.

Teixeira dos Santos deixou escapar que, perante uma eventual falência do BPP, não existe risco de contaminação do sistema financeiro nacional. Então salvá-lo serve para quê? Não serve para nada senão para que Sócrates possa acobertar os seus amigos. Para que Sócrates possa "passar-lhes a mão pelo pêlo" o grosso dos contribuintes sairá, mesmo que implicitamente, a perder. Porque, para o Primeiro-ministro, fazer suas as palavras de Keynes durante um debate no Parlamento até pode ser um exercício de demagogia engraçado, mas isso de accionar mecanismos que fomentem uma maior redistribuição da riqueza não interessa nada. O problema é que não pode haver progresso social nem socialismo algum sem isso. Por isso é que o socialismo de Sócrates não vale nada.

Natasha Nunes

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