Movimento Altermundialista – Segundo Acto? criar PDF versão para impressão
07-Dez-2008
Nuno TelesÉ sabido que a rede de movimentos sociais, que se constituiu aquando da contestação em Seattle em 1999 e cuja mobilização culminou com os fóruns sociais de Porto Alegre, quase que desapareceu depois de 2001. É difícil sublinhar, de entre toda uma miríade de possíveis razões, quais as mais relevantes no enfranquecimento do movimento. Contudo, uma coisa é certa. O movimento altermundialista deixou todo um património de propostas e práticas na luta por um mundo mais justo e solidário.

São muitos os exemplos: a mudança de paradigma na produção agrícola proposta por organizações como a Via Campesina, a regulação dos mercados financeiros globais defendida pelas diferentes ATTACs, a reconversão ecológica das economias exigida pelos movimentos ambientalistas ou a luta por um mínimo internacional de direitos e segurança no trabalho do movimento sindical. O que estas propostas tem hoje em comum é a sua incrível pertinência face à recente instabilidade e crise dos mercados internacionais.

As diferentes crises (financeira, ecológica, alimentar), signatárias de um atestado de óbito do neoliberalismo, permitem uma nova articulação e promoção das diferentes agendas dos diversos movimentos. A profunda crise financeira internacional, cujos efeitos só agora começam a afectar a economia real, é aqui central. Partindo da inépcia dos principais governos mundiais em responder à crise, o movimento altermundialista deve não só propor um novo sistema financeiro internacional, definido pela repressão da dimensão especulativa dos mercados financeiros, mas também por propor a defesa e expansão dos serviços públicos que, pouco a pouco, foram caindo nas garras dos mercados financeiros. Por outro lado, o aumento do desemprego e os assustadores riscos de deflação exigem um novo quadro de intervenção pública na economia real.

Existem já boas propostas neste sentido. O "New Deal Verde"1, avançado pelos sectores mais progressistas norte-americanos, propõe um ambicioso programa de dinamização económica, criador de emprego, que reconverta uma economia ecologicamente insustentável numa economia ao serviço do bem comum.

Finalmente, é de sublinhar os efeitos assimétricos que actual crise produz nos diferentes países. Um quadro de crescentes tensões internacionais impõem assim uma mobilização popular que defenda a redefinição das relações de comércio e investimento globais.

É notória a incapacidade dos governos de elaborarem um programa coerente de resposta e alternativa à presente crise da arquitectura neoliberal. Os falhanços da reunião do G-20 em Washington e do Plano "Barroso" de recuperação europeu são sintomáticos do esgotamento do modelo. Esta é, pois, uma oportunidade histórica de reavivar um dos movimentos políticos mais promissores dos últimos anos. A mobilização já começou. Dia 2 de Abril de 2009 o G-20 reunir-se-á em Londres. Esperam-se milhares de pessoas, vindas dos quatro cantos do mundo, para os "receber" nas ruas. Portugal não pode ficar de fora, sob o pretexto do animado ciclo eleitoral do próximo ano. O esforço colectivo de reflexão e acção internacional será, com certeza, recompensado por uma maior robustez de intervenção na arena nacional na busca de amplas coligações sociais que forcem a uma inversão das actuais políticas.

Nuno Teles, economista, co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas

1 Disponivel aqui: http://www.peri.umass.edu/green_recovery/

 
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