Porto, cidade que precisa de crítica e de mudança participada criar PDF versão para impressão
07-Dez-2008
Paula SequeirosElisa Ferreira tem créditos firmados com uma técnica conhecedora da realidade económica, e particularmente da realidade empresarial do Norte do País. Uma imagem de eficácia e rigor parece-lhe adequar-se-lhe plenamente. Conhece, pelo menos, um certo lado dessa realidade.

Da entrevista ao Público de domingo, 7 de Dezembro, assoma um discurso emotivo de quem se preocupa com a cidade do Porto, que percebe, cito, «não estar esmorecida» e onde há um dinamismo que procura «âncoras» para as suas energias, para uma alternativa. Por isso largaria tudo «para vir para a cidade», caso venha a ser candidata e caso venha a ser eleita. Mas tudo isso ainda está no campo das suposições, nem Elisa Ferreira nem PS disseram ainda o que vão fazer um com o outro.

As suas intervenções recentes têm-se pautado por este discurso emotivo, mas turvo politicamente. Afirmou apenas ser favorável a uma «esquerda moderada». Recordámos-nos de a ouvir num debate, há alguns meses, nos Fenianos, a propósito do Bolhão. O mesmo discurso emotivo, uma enunciação de alguns grandes problemas da cidade, a mesma aparente inocuidade política. Política são escolhas, são mudanças, são ideias, são acções. O que escolhe, o quer mudar, o que pensa, o que quer fazer Elisa Ferreira? Como e quando se poderá saber?

Qualidade e rigor técnicos não podem substituir aquilo para que não foram feitos: mais que uma casa muito bem feita, precisamos é de uma casa que nos sirva, uma casa para nós. E decididamente uma casa protegida contra os grandes interesses capitalistas, privatizantes que, como um vento gelado, tem corrido pela cidade, demolindo, escorraçando. A condução da política autárquica na cidade precisa de política que se oponha a estes interesses, que se perceba a quem pretende servir. As opções técnicas derivam sempre, no fundo, de cada opção política: mais do que para que serve? é preciso questionar a quem serve?

Na entrevista ao Público ressaltam contudo alguns aspectos preocupantes (ou não, conforme as expectativas de cada um/a) sobre que política quer para a cidade. Afirma então que «não [lhe] interessa muito o lado da crítica». Até porque Rui Rio está no poder de forma «legítima» porque foi eleito. E ainda que não quer discutir o passado. Estranha-se primeiro, conjectura-se depois: porque foi eleito é legítimo, ou é apenas legal? Aos eleitos é permitido ter um passado sem críticas, ou, precisamente porque foram eleitos, passam a estar sujeitos ao escrutínio público, que mais não é que crítica? E a prestar contas, que mais não é que sujeitar-se à crítica? E nem faltam sinais das críticas que lhe têm vindo, legitimamente, a ser feitas.

Sabemos depois que quer uma cidade aberta ao exterior, a outro futuro. E novamente deparamos com a ausência de qualquer sinal sobre esse futuro desejado. É então que nos vêm à ideia as recentes declarações na televisão onde demonstrou grande preocupação com o estado da economia na região e em particular com a situação das pequenas e médias empresas. Conhecedora que é desse tecido económico, é frequente ouvirmos-lhe a sua defesa. E que defende mais? Registámos nesse momento, como registamos de novo naquele jornal, que preocupações com o desemprego e a crescente precariedade, a degradação das condições sociais e de habitação, sobretudo para os mais pobres, o questionamento das opções dos investimentos públicos na cidade, ou da sua ausência, a par das crescentes facilidades para a habitação de luxo nos melhores pontos e com as melhores vistas, o abandono a que é votado o que é publico, desde o espaço, aos edifícios e aos serviços (a acumulação de lixo na Baixa é mais do que uma metáfora), a falta de incentivo ao transporte público e o incentivo ao privado, o estado de quase perseguição às actividades culturais independentes, o estatuto de normalidade para a publicidade ostensiva e enganosa do executivo camarário, as tentativas de silenciamento de ideias contrárias (que vai até ao arranque de cartazes eleitorais), as transacções imobiliárias nunca publicamente fundamentadas (Aleixo, Parque da Cidade, Prelada), não têm feito parte do seu discurso. Farão algum dia?

Se alguma coisa a cidade precisa é precisamente de crítica e o momento pré-eleitoral deveria ser um óptimo pretexto para o fazermos de forma clara e reflectida. Isso sim é que é «motivador, [...] mobilizador das forças que existem na cidade» para que a mudança seja amplamente participada. E com a emoção toda a que temos direito, como legítima reacção às agressões constantes a que a cidade (as pessoas que nela vivem e as coisas que ela tem como concretização do seu passado e da sua vivência quotidiana) tem sido sujeita pelas políticas de direita autoritária, cortantemente anti-sociais de Rui Rio. Para isso precisamos, todos os dias, de fazer contas com o passado, de forma não basicamente revanchista - nisso especializou-se precisamente essa figura - mas duma cidade boa para viver, com a justiça social que faz falta. Tanta falta que faz!

A «abertura» que precisamos não é a do mercado, é a da crítica, é a das ideias que precisamos semear e colher, é a dos actos de cidadania participativa de que não podemos abdicar: a cidade discute-se, critica-se e projecta-se, faz-se politicamente e é preciso saber-se para quem e com quem. 

A «esquerda moderada», da terceira via, a que se refere Elisa Ferreira, já mostrou para quem é moderada e para quem é negligente. O futuro que precisamos, a tal casa, a tal cidade, estará certamente ao longo duma outra via, assim se saiba e se queira abrir esse caminho.

Paula Sequeiros

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