Os pastores de lobos criar PDF versão para impressão
07-Dez-2008
Alice Brito

Na nossa memória construída está lá, num cantinho a visitar muito de vez em quando, o imaginário bucólico do pastor que serenamente apascenta os seus rebanhos, quer em planícies fugidas aos esbulhos urbanísticos, quer em serranias agrestes repletas de atribulações e cansaços geográficos. Imaginamos o som do gado a balir, a orquestra dos chocalhos a quebrar o silêncio campesino edificado em zumbidos alados de insectos, e talvez, com um pouco mais de imaginação, possamos também ouvir o som da flauta pastoril a oferecer-se em música que acalma com toda a probabilidade o coração, cada vez mais urbano e célere.

É este o nosso formato mental da figura do pastor.

Mas há os outros. Os pastores de lobos, ou melhor dizendo, de alcateias.

Como se sabe, os lobos são animais muito resistentes e sagazes que atacam em pequenos grupos familiares.

Os pastores de lobos têm por função organizar o meio circundante para a caçada, que deve ser feita em várias frentes e de forma permanente e ininterrupta, porque o apetite predador lupino é absolutamente insaciável.

Do alto dos seus cargos, vigilantes e implacáveis, defendem as alcateias em qualquer situação, mesmo naquelas em que a lobaria se embriaga, se lambuza de negociatas, se empanturra de guloseimas fáceis e coloridas com uma velocidade e desmando que ninguém tem mão nela, na alcateia, que fica depois transtornada e doente, tal foi a fúria de investimento, a gula emporcalhada em que se afundou.

Nessas alturas os pastores de lobos, enérgicos e competentes, dão-lhes mansamente a mão para a convalescença. Abrem inquéritos, fazem discursos sonantes, nacionalizam tocas completamente arruinadas, pedem solidariedades várias e multiformes, olham-nos nos olhos, e com a compreensão que só a cumplicidade empresta, ouvem-nos em confidências de confessionário, garantindo-lhes a impunidade patrícia para que no devido tempo, na primeira esquina de um qualquer mercado, a loucura prossiga, perpetuando-se.

Da flauta dos pastores de lobos não desliza a música suave das avenas campestres. Dela sai a metralha vibrante das desculpas lorpas, a retórica do bem comum alicerçada em verborreias mal paridas, dada a evidência dos crimes sem castigo.

E enquanto a procissão vai passando, como sempre tem passado, e o compasso do tempo vai tocando o seu solfejo, os lobos e os seus pastores empanzinados de poderes sólidos, não percepcionam a possibilidade de o cansaço dos rebanhos mansos se transmutar em raiva determinada. A música poderá então ser outra.

Alice Brito

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