Perguntas sobre a “greve dos lixos” criar PDF versão para impressão
12-Dez-2008
Bernardino ArandaA cidade de Lisboa produz cerca de 6.500 toneladas de lixo por semana. Todas as semanas alguém o recolhe da porta de nossas casas. Alguém limpa as nossas ruas. Pouca gente se lembra destes "Heróis do Trabalho" excepto no dia, claro, em que eles não vão trabalhar.

Terminou ontem em Lisboa uma greve dos trabalhadores afectos à Higiene Urbana, contra a intenção do executivo camarário em privatizar a limpeza e lavagem de ruas em duas zonas da cidade.

A questão não é nova: apesar de ter mais de 10.500 funcionários, faltam ao município de Lisboa cantoneiros de limpeza.

As tarefas em causa são duras e há muitas saídas quer para fora da câmara, quer dentro da própria câmara, para outras carreiras, aproveitando as oportunidades de mobilidade interna que vão aparecendo.

Para além disto, a CML tem um quadro envelhecido: 73,1% dos trabalhadores têm mais de 40 anos de idade e em profissões em que a capacidade física é essencial, é natural que existam muitos trabalhadores em regime de "serviços reduzidos" por motivos de saúde.

Assim, segundo o Sindicato, seria necessário contratar mais 200 trabalhadores para o serviço de limpeza da cidade ser realizado em boas condições.

O Vice-Presidente Marcos Perestrello (PS), que ainda detém o pelouro dos lixos (como é sabido, foi anunciado que esse pelouro passaria a ser do vereador do ambiente, mas a transferência de competências ainda não foi efectivada), desenhou a seguinte operação:

A CML encomenda à Agencia Baixa-Chiado (uma associação de comerciantes da Baixa em que participa também a câmara) e à Parque-Expo a limpeza da Baixa e da freguesia dos Olivais, respectivamente, transferindo os meios que tem nestas zonas para outras áreas da cidade.

Obviamente, nem a Parque-Expo nem a Associação, têm cantoneiros ao seu serviço, pelo que terão de encomendar fora os trabalhos.

Mas quanto custam estes trabalhos contratados no exterior? E quanto custa realizá-los pela própria câmara? E mesmo que custarem menos no exterior, a empresa que os vai fornecer oferecerá condições dignas de trabalho? E pagará, por exemplo, à Segurança Social? E como vai a câmara controlar a qualidade de serviço prestado? E quanto é que custará ao município fazer esse controle? E se a empresa que fornece o serviço fechar de um dia para o outro (não seria a primeira...), quantos dias demorará a câmara a reorganizar-se para assegurar o serviço que desapareceu subitamente?

Não será a limpeza urbana um serviço demasiado central à vida da cidade para o adjudicar assim a duas instituições exteriores à câmara, sem vocação para estas questões, sendo que uma delas é até quase totalmente desconhecida para todos?

Estas são as questões colocadas pela greve e a que Marcos Perestrello não soube dar resposta. Como reagirá o vereador que vai agora assumir o pelouro dos lixos?

Bernardino Aranda

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