Grécia: quando os desemprecários ocupam as ruas… criar PDF versão para impressão
19-Dez-2008
José SoeiroQuem ontem (17 de Dezembro) tivesse avistado a Acrópole encontraria uma novidade: duas enormes faixas que, em várias línguas, apelavam à resistência europeia e à "solidariedade com os jovens gregos, contra a precariedade generalizada por toda a Europa". Ontem era dia de acção.

As imagens de televisão que nos chegam da Grécia prestam-se às análises mais superficiais. Já tinha sido assim em momentos anteriores. A caricatura fácil de um bando de "criminosos" que não gosta da polícia é uma forma de evitar a compreensão do que de profundo existe na mobilização extraordinária que atravessa a Grécia há mais de uma semana, desde a morte do jovem Alexandro, de 16 anos, acontecimento catalisador da revolta. O centro dos acontecimentos, o bairro de Exarchia (uma espécie de Bairro Alto ateniense, com a diferença de ter ali a sede de algumas escolas), a zona mais viva da capital grega, onde se concentram estudantes e que fervilha cultural e politicamente, é apresentada na imprensa portuguesa como um local onde os "criminosos buscam refúgio seguro". Os protestos de toda a geração precária que saiu à rua tornam-se ilegíveis para os media: "agora tudo o que existe é pura raiva, a raiva de quem não tem nada a perder", afirmou um jornalista grego. A incompreensão, cá como lá, é reveladora da distância que separa uma juventude em busca de um mundo habitável e as instituições sociais e políticas que deixaram de a representar e a condenaram ao isolamento e à desesperança.

O que acontece na Grécia acontece um pouco por toda a Europa. Desde logo, o aumento do desemprego, a precarização generalizada das relações laborais, a imposição de salários baixos e da intermitência laboral (sempre entre os biscates e os períodos de desemprego) como única condição social para a "geração 500 euros" (na Grécia, 700...). Esta condição exclui os jovens do contrato social e das formas tradicionais de protecção social, empurrando-os para o trabalho temporário, informal e sem direitos. Em segundo lugar, assistimos frequentemente a uma diabolização da juventude, uma contracção dos espaços públicos de lazer e de sociabilidades, que na Grécia é reforçada por uma vigilância autoritária dos "espaços dos jovens" (Exarchia é um bom exemplo...). Por último, existe a contaminação do sistema de ensino por lógicas de mercado e de desqualificação, dificultando o acesso e o sucesso: a revisão constitucional que abria as portas à privatização da Universidade e o processo de Bolonha já tinham levado há cerca de um ano a ocupações massivas e a um extraordinário movimento estudantil naquele país.

Também em Portugal temos fenómenos semelhantes em cada um destes três domínios. Aliás, em toda a Europa, a nossa geração vive congelada pela precariedade e é a primeira que sabe que viverá pior que os seus pais. Além disso, é olhada com desconfiança pelas autoridades. A política que existe tem ignorado aquilo que mais preocupa os jovens e tem sido incapaz de responder às suas preocupações.

A Grécia teve, contudo, condições particulares para que este descontentamento e para que este ressentimento latente ganhasse expressão política e fizesse alianças sociais que lhe permitem hoje colocar em causa o poder. Tem a experiência política e organizativa importantíssima das redes de protesto estudantil que mobilizaram as escolas no ano passado. Tem um Governo autoritário que, depois de ter assistido ao assassinato de um jovem, só soube responder com mais polícia e mais repressão à indignação que se estendeu pelo país. Tem um movimento sindical que marcou uma greve geral associando-se aos protestos dos jovens, em vez de cavar a distância que tantas vezes separa (e mal) trabalhadores e estudantes, precários e estáveis, velhos e novos movimentos sociais.

A crise na Grécia é uma crise política e a resposta só pode ser uma resposta política. Essa resposta tem de vir da Esquerda. Não porque seja necessário conter a onda de radicalidade com que se exprime o descontentamento da juventude desemprecária, mas porque essa radicalidade pode ser um rastilho para uma mudança social e política mais vasta, assim saibam os seus agentes perceber bem quais os alvos da sua revolta e direccioná-la para onde dói mais a quem manda. Este movimento exige do poder um pedido de desculpas: não apenas pelo assassinato de Alexandro, mas pela política que tem dominado e que faz com que na Grécia ser jovem seja ora um crime ora uma missão impossível. Isso significa menos polícia e mais educação, mais espaço público, mais direitos no trabalho. Também em Portugal precisamos dessa mudança. As ruas têm saudades da nossa presença insubmissa.

José Soeiro

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