Iraque: a décima terceira hora criar PDF versão para impressão
29-Dez-2008
Immanuel WallersteinO Parlamento iraquiano votou em 27 de Novembro, por 149 votos a 35, ratificar o Status-of-Forces Agreement (SOFA, acordo do estatuto de forças) com os Estados Unidos. Quando a votação estava em curso, o vice-primeiro-ministro Barkham Salih terá dito: "Lembro-vos que as coisas no Iraque não acontecem na décima-primeira hora, mas na décima-terceira." Por outras palavras, o momento-chave ainda está para chegar.

Que aconteceu realmente? O Parlamento iraquiano tem 275 deputados. Estavam presentes na votação apenas 198. Os que votaram a favor do texto foram 149, uma pequena maioria em relação à totalidade dos deputados. Os 149 incluíram os membros dos principais partidos xiitas (o SCIRI e o Dawa, partido do primeiro-ministro), os dois partidos curdos e, o que foi crucial, membros da Frente para um Acordo Iraquiano (FAI), de base sunita.

O voto favorável da FAI foi crucial, porque o Grande Ayatollah al-Sistani tinha afirmado que não apoiaria o acordo a menos que este tivesse um "amplo" apoio, o que significava uma substancial aprovação sunita. Assim, os sunitas tiveram um grande poder de negociação com o primeiro-ministro al-Maliki, cujo futuro político dependia da votação do acordo SOFA. A FAI conseguiu duas coisas de al-Maliki. Uma é que haverá um referendo nacional sobre o acordo em Julho de 2009. O segundo é o importante apoio que al-Maliki tem dado aos chamados "conselhos de apoio" nas tribos sunitas. Quer dizer: al-Maliki está a oferecer ao mesmo tempo um suborno e uma garantia contra futuras represálias sobre as tribos sunitas que têm dado assistência às forças armadas americanas no último ano, em troca de  ajuda material.

Al-Maliki surgiu como o grande vencedor e mostrou ser um manipulador político mais hábil do que esperavam a maioria dos analistas. Vejamos o que ele conseguiu ao fazer adoptar o SOFA, um acordo que os iraquianos estão a chamar de "acordo de retirada". O seu primeiro feito foi manter os sadristas em xeque, ao cooptar a estratégia sadrista - conseguir a saída dos americanos através de um acordo com os sunitas. Tanto o SCIRI (o outro principal partido xiita) quanto os curdos estão a resmungar contra uma possível "ditadura" de al-Maliki, mas não tinham outra escolha que não fosse ratificar o acordo. Os sadristas preservaram a sua posição de espera, votando abertamente contra o pacto.

O que é o pacto? Os elementos-chave são a exigência de que as tropas dos EUA saiam de todas as cidades até Junho de 2009, e deixem totalmente o Iraque em Dezembro de 2011. Além disso, toda a acção militar dos EUA tem de ser agora coordenada antecipadamente com os iraquianos, e os Estados Unidos não podem usar o Iraque como base para atacar os vizinhos (isto é, a Síria e o Irão).

Por que Bush concordou com ele? Porque não tinha outra opção. A alternativa era as forças americanas ficarem ilegais depois de 31 de Dezembro de 2008 e entregar toda a questão a Obama. O governo dos Estados Unidos tinha tanto medo da reacção do Congresso aos detalhes do pacto que se recusou a tornar pública uma versão em língua inglesa antes da votação. Não queriam que a opinião pública discutisse o acordo antes da aprovação do parlamento iraquiano.

Os termos do pacto incluem alguma linguagem vaga, e os militares americanos dizem que contam com a sua habilidade de interpretá-la a seu favor. Diz-se que Bush conseguiu com isso um acordo melhor do que o plano de retirada de 16 meses de Obama. Mas não é verdade. De facto, é pior. A proposta de Obama era que as forças de combate americanas saíssem em 16 meses, mas não havia data para as forças de "treinamento", deixando em aberto a possibilidade do estacionamento infinito de algumas forças dos EUA. O acordo SOFA determina a saída de todas as forças em Dezembro de 2011. E foi Bush, não Obama, que assinou.

Na prática, todas as forças dos EUA partirão muito mais cedo do que Dezembro de 2011. É aqui que entra o referendo. Vai ser realizado em Julho de 2009. As forças dos EUA têm de sair das cidades em Junho de 2009. Se não saírem, o referendo não será certamente feito. Se saírem, al-Maliki ainda terá de ganhá-lo. Para isso, terá de adoptar uma linha muito dura em relação aos americanos. Qualquer ideia de que os militares dos Estados Unidos possam "interpretar" a linguagem vaga a seu favor é uma completa ilusão. De qualquer forma, pode haver complicações em relação ao referendo, já que al-Sistani divulgou reservas depois da votação do parlamento. Al-Maliki sabe que se recuar agora uma polegada em relação aos Estados Unidos, Moqtada al-Sadr estará à espera de sobreaviso.

Assim, al-Maliki tem todos os trunfos e Obama não terá nenhum. Obama vai ter de aceder graciosamente às exigências iraquianas. Elas vão ser cada vez maiores, não menores, à medida que os meses passem.

E, a propósito, os etíopes (os testa-de-ferro dos EUA na Somália) anunciaram que vão retirar as suas tropas no final de 2008. E o presidente Karzai do Afeganistão anunciou que quer uma data formal de retirada das tropas dos Estados Unidos  e da Nato do país. O sentimento geral na região parece ser de que falar duro com os Estados Unidos não só é possível, como também compensa. Aproxima-se a décima-terceira hora.

Immanuel Wallerstein

Comentário 246, 1/12/2008

Tradução de Luís Leiria

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