Tentar 'dar uma lição ao Hamas' é errado criar PDF versão para impressão
29-Dez-2008
Bombas sobre GazaO ataque a Gaza exige, em primeiro lugar, algumas recordações históricas. As justificações dadas e os alvos escolhidos são uma repetição das mesmas concepções básicas que se provaram erradas dia após dia. Ainda assim, os israelitas continuam a tirá-las da cartola vezes sem conta, numa guerra depois da outra.

Por Tom Segev, colunista do diário israelita Haaretz


O canal 1 da televisão [israelita] emitiu uma interessante mistura no sábado de manhã: os seus correspondentes estavam em Sderot e em Ashkelon, mas as imagens eram da Faixa de Gaza. Assim, a emissão, apesar de não ter essa intenção, enviou a mensagem correcta: uma criança em Sderot é o mesmo que uma criança em Gaza, e quem quer que seja que fira o outro é mau.

Mas o ataque a Gaza não requer, antes e em primeiro lugar, uma condenação moral - exige algumas recordações históricas. As justificações dadas e os alvos escolhidos são uma repetição das mesmas concepções básicas que se provaram erradas dia após dia. Ainda assim, os israelitas continuam a tirá-las da cartola vezes sem conta, numa guerra depois da outra.

Israel está a atacar os palestinianos para "lhes dar uma lição". Esta é a concepção básica que acompanhou a acção sionista desde os primórdios: nós somos os representantes do progresso e das luzes, sofisticados racional e moralmente, enquanto os árabes são uma ralé primitiva e violenta, crianças ignorantes que devem ser educadas e receber lições de sabedoria - através do método da cenoura e do bastão, é claro, tal como o homem faz ao seu burro.

Também é suposto que o bombardeamento de Gaza "liquide o regime do Hamas", de acordo com outra concepção que tem acompanhado o movimento sionista desde os seus primórdios: de que é possível impor uma liderança "moderada" aos palestinianos, uma liderança que abandone as suas aspirações nacionais.

Como corolário, Israel sempre acreditou que causar sofrimento aos civis palestinianos iria fazer com que se rebelassem contra os seus líderes nacionais. Este pressuposto provou-se sempre errado.

Todas as guerras de Israel basearam-se também noutra concepção que nos acompanhou desde o início: de que estamos apenas a defender-nos. "Meio milhão de israelitas sob fogo", gritava a manchete da edição de domingo do [diário israelita] Yedioth Ahronoth - como se a Faixa de Gaza não tivesse sido sujeita a um cerco prolongado que destruiu as hipóteses de um geração inteira viver uma vida que valha a pena viver.

É reconhecidamente impossível viver sob a ameaça diária de mísseis, mesmo que virtualmente nenhum lugar do planeta goze hoje em dia de uma situação de terror zero. Mas o Hamas não é uma organização terrorista que mantém reféns os residentes de Gaza: é um movimento nacionalista religioso, e a maioria dos habitantes de Gaza acredita na sua proposta. Pode-se sem dúvida atacá-lo e, com as eleições parlamentares iminentes, este ataque pode até produzir algum tipo de cessar-fogo. Mas há outra verdade histórica que vale a pena lembrar neste contexto: desde a alvorada da presença sionista na Terra de Israel, nenhuma operação militar fez alguma vez avançar o diálogo com os palestinianos.

Mais perigoso de todos é o cliché de que não há ninguém com quem falar. Isso nunca foi verdade. Há até formas de falar com o Hamas, e Israel tem alguma coisa a oferecer à organização. Pôr fim ao cerco de Gaza e permitir a liberdade de movimentos entre Gaza e a Cisjordânia poderia reabilitar a vida na Faixa.

Ao mesmo tempo, vale a pena tirar a poeira dos velhos planos preparados depois da Guerra dos Seis Dias, pelos quais milhares de famílias de Gaza seriam realojadas na Cisjordânia. Estes planos nunca foram implementados, porque a Cisjordânia era candidata a ser usada para colonatos judaicos. E esta era a concepção de trabalho mais perigosa de todas.

Tradução de Luís Leiria

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