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06-Jan-2009
Um hospital em Gaza (29/12/08) - foto de Amir Farshad Ebrahimi, disponível no  FlickrEsta guerra é como um graffiti no muro: Israel está a perder a oportunidade histórica de fazer a paz com o nacionalismo árabe secular. Amanhã talvez seja obrigado a enfrentar um mundo uniformemente árabe fundamentalista, o Hamas multiplicado por mil.

Texto de Uri Avnery, traduzido e publicado por Carta Maior.
Saiba mais consultando o Dossier Massacre de Gaza

Pouco depois da meia-noite, o canal árabe Al- Jazeera exibia matéria sobre os eventos em Gaza. De repente, a câmara apontou para o céu escuro. Tela negra. Não se via coisa alguma. Mas ouvia-se o ruído dos aviões, assustador, um rugido apavorante.

Impossível não pensar nas dezenas de milhares de crianças de Gaza que ouviam aquele ruído naquele momento, encolhidas, paralisadas de medo, à espera da explosão das bombas.

"Israel tem de defender-se contra os rockets que aterrorizam as cidades do sul do país", explicou o porta-voz israelita. "Os palestinianos têm de reagir contra o assassinato de seus combatentes na Faixa de Gaza", declarou o porta-voz do Hamas.

De facto, não se pode dizer que o cessar-fogo foi rompido, porque nem chegou a haver cessar-fogo, para começar. A principal exigência, para que haja qualquer cessar-fogo na Faixa de Gaza é que se abra a passagem nos postos de fronteira. Não há vida possível em Gaza sem um fluxo regular de abastecimentos. E os postos não foram abertos, senão apenas por algumas horas, esporadicamente. O bloqueio por terra, mar e ar contra 1,5 milhão de seres humanos é acto de guerra, tanto quanto lançar bombas ou lançar rockets. O bloqueio paralisa a vida na Faixa de Gaza: extingue fontes de trabalho e emprego, limita oportunidades onde já praticamente não há oportunidade alguma, leva centenas de milhares de pessoas à fome, impede que os hospitais funcionem, corta o abastecimento de electricidade e água.

Os que decidiram fechar os postos de passagem, seja qual tenha sido o pretexto, sabem que nunca haveria e não houve efectivo cessar-fogo, nessas condições.

Isso é o principal. Depois, vieram as provocações menores, planeadas para obrigar o Hamas a reagir. Depois de vários meses, durante os quais praticamente não foram lançados rockets Qassam, uma unidade do exército foi mandada à Faixa, para "destruir um túnel localizado muito próximo da cerca de fronteira". De um ponto de vista estritamente militar, faria mais sentido montar uma emboscada dos dois lados da cerca. Mas o objectivo era criar um pretexto para pôr fim ao cessar-fogo, de modo que parecesse plausível culpar os palestinianos. Afinal, depois de várias pequenas acções, nas quais foram assassinados combatentes do Hamas, o Hamas retaliou com lançamento massivo de rockets e, abracadabra, acabou o cessar-fogo. Todos culparam o Hamas.

Para quê? Tzipi Livni disse abertamente: para derrubar o governo do Hamas em Gaza. Os rockets Qassam foram o pretexto.

Derrubar o governo do Hamas? Soa como capítulo de "A Marcha da Insensatez". Afinal de contas, todo mundo sabe que, para começar, o governo de Israel praticamente criou o Hamas. Uma vez, perguntei a um ex-chefe do Shin-Bet, Yaakov Peri, sobre isso, e ele respondeu-me com ar enigmático: "Não criamos, mas tampouco dificultamos."

Durante anos, as autoridades da ocupação estimularam o movimento islâmico nos territórios ocupados. Quaisquer outras actividades políticas foram rigorosamente suprimidas, mas a actividade dos movimentos islâmicos nas mesquitas continuou livremente. O cálculo foi tão simples quanto ingénuo: a OLP era considerada o principal inimigo de Israel, Yasser Arafat era o demónio da hora. O movimento islâmico combatia a OLP e Arafat. Então... foi tratado como aliado de Israel.

Na primeira intifada, em 1987, o movimento islâmico oficialmente rebaptizou: passou a chamar-se Hamas (sigla, em árabe, de "Movimento da Resistência Islâmica") e mergulhou na luta. Mesmo então, o Shin-Bet nada fez contra o Hamas durante quase um ano, enquanto os membros do Fatah eram executados ou presos aos magotes. Israel só reagiu depois de um ano, e prendeu também Sheikh Ahmed Yassin e os seus seguidores.

Depois disso, as coisas mudaram. Hoje, o demónio da hora é o Hamas, e a OLP é vista por muitos em Israel quase como um braço do movimento sionista. A conclusão lógica, se o governo de Israel quisesse a paz, seria aceder ao que pedem as lideranças do Fatah: fim da ocupação, assinar um tratado de paz, instituir um Estado da Palestina, retorno às fronteiras de 1967, solução razoável para o problema dos refugiados, libertação de todos os prisioneiros palestinianos. Com isso, com certeza, o crescimento do Hamas teria sido contido.

Mas lógica e política não se dão bem. Nada daquilo aconteceu. Aconteceu o contrário. Depois do assassinato de Arafat, Ariel Sharon declarou que Mahmud Abbas, que sucedeu a Arafat, era uma "galinha depenada". Não permitiram que Abbas contabilizasse a seu favor nenhum feito político, por pequeno que fosse. As negociações, patrocinadas pelos EUA, viraram piada. O mais autêntico dos líderes do Fatah, Marwan Barghouti, foi preso, com sentença de prisão perpétua. Em vez de libertação de prisioneiros, só "gestos" estreitos e insultantes.

Abbas passou a ser sistematicamente humilhado, o Fatah tornou-se um saco vazio e o Hamas obteve retumbante vitória eleitoral nas eleições na Palestina - as eleições mais democráticas que jamais houve no mundo árabe. Israel imediatamente se pôs a boicotar o governo eleito. Na luta interna que se seguiu, o Hamas obteve o controle directo sobre a Faixa de Gaza.

Agora, depois de tudo isso, o governo de Israel decidiu "liquidar o poder do Hamas em Gaza" com sangue, fogo e colunas de fumo.

O nome oficial da guerra é "Cast Lead" ["soldadinho de chumbo", dentre outras traduções possíveis], duas palavras tiradas de uma canção infantil sobre um brinquedo do Hanukkah.

Mais adequado seria que a chamassem "Guerra das Eleições".

Já outras vezes, no passado, também houve guerra durante campanhas eleitorais. Menachem Begin bombardeou o reactor nuclear do Iraque durante a campanha eleitoral em 1981. Quando Shimon Peres reclamou que seria golpe eleitoral, Begin gritou, logo no comício seguinte: Judeus! Crêem que eu mandaria os nossos valentes rapazes para a morte ou, pior, para cair prisioneiros nas mãos de animais, só para vencer uma eleição?" Begin venceu.

Peres não é Begin. Quando, durante a campanha de 1996, ordenou a invasão do Líbano (operação "Vinhas da Ira"), todos sabiam que o fizera por puro cálculo eleitoral. A guerra foi um fracasso para Israel, Peres perdeu e Binyamin Netanyahu chegou ao poder.

Barak e Tzipi Livni recorrem agora ao mesmo velho golpe. Segundo as sondagens, só nas últimas 48 horas, Barak já conquistou mais cinco cadeiras no Parlamento. Cerca de 80 cadáveres de palestinos por voto eleitoral.

O facto é que é muito difícil caminhar sobre uma pilha de cadáveres. Os ganhos eleitorais podem evaporar-se. Basta, para que se evaporem, que a opinião pública em Israel passe a ver a guerra como um fracasso. Por exemplo, se os Qassams continuarem a atingir Beersheba, ou se a invasão por terra levar a muitas mortes de soldados israelitas.

O timing foi cuidadosamente escolhido, também por outro critério. Os ataques começaram dois dias depois do Natal, quando os líderes europeus e norte-americanos estão em férias, até ao Ano Novo. A ideia brilhante: ainda que alguém sinta algum ímpeto de deter a guerra, ninguém desistirá do feriado. Assim, Israel ganhou vários dias sem qualquer pressão do exterior.

Mais uma razão para a ocasião escolhida: são os últimos dias de George Bush na Casa Branca. Cabia esperar que esse tolo encharcado de sangue apoiasse entusiasticamente a chacina, o que, de facto, ele fez. Barack Obama ainda não tomou posse e encontraria o pretexto perfeito, pronto, para não interferir: só há um presidente. O silêncio nada acrescenta, de positivo, à história do governo Obama.

A ideia central foi: não repetiremos os erros da Segunda Guerra do Líbano. Esse lema foi incansavelmente repetida em todos os jornais, nas entrevistas e noticiários de televisão. O que não altera o fato: a Guerra de Gaza é réplica quase idêntica da Segunda Guerra do Líbano.

O conceito estratégico é o mesmo: aterrorizar a população civil, com ataques implacáveis por ar, semeando a maior quantidade possível de morte e destruição. Esse tipo de estratégia não implica risco para os pilotos israelitas, porque os palestinianos não têm qualquer armamento de defesa anti-aérea. O plano: se a infra-estrutura de manutenção da vida diária das populações que vivem na Faixa for completamente destruída e se se implantar total anarquia... a população se levantará e derrubará o regime do Hamas. Então, Mahmude Abbas voltará para Gaza montado nos tanques de Israel.

No Líbano, o mesmo plano deu errado. A população chacinada, inclusive cristãos, reuniu-se em torno do Hizbollah, e Hassan Nasrallah tornou-se herói do mundo árabe. O mesmo, provavelmente, acontecerá agora. Os generais entendem de matar e movimentar tropas, não de psicologia de massas.

Há algum tempo escrevi que o bloqueio de Gaza é uma experiência científica, para determinar o quanto aguenta uma população privada de tudo, antes de que a espinha dorsal se parta. É uma experiência conduzida com o generoso apoio da Europa e dos EUA. Até agora, deu em nada. O Hamas tornou-se mais forte e os Qassam alcançam alvos cada vez mais distantes. A guerra, hoje, é a continuação da mesma experiência, por outros meios.

É possível que não tenha restado "outra alternativa" ao exército, além de tentar reocupar a Faixa de Gaza, porque não há outro meio de deter os Qassams excepto um acordo com o Hamas, o que contraria a política do governo. Quando começar o avanço por terra, tudo dependerá da motivação e da capacidade de combate dos soldados do Hamas, contra os soldados israelitas. Ninguém sabe o que acontecerá.

Dia a dia, noite após noite, o canal árabe Al-Jazeera exibe imagens atrozes: corpos mutilados, velhos e crianças chorando, à procura dos seus, nas dezenas de cadáveres espalhados no chão, uma mulher puxando de uma pilha de cadáveres o cadáver de uma menina, médicos exauridos, sem remédios e sem gaze, tentando salvar a vida dos feridos. (O canal Al-Jazeera que transmite em inglês, diferente do canal que transmite em árabe, tem exibido imagens saneadas e repetido a incansável propaganda do governo de Israel. Seria interessante descobrir o que houve por lá.).

Milhões de pessoas estão a ver aquelas imagens terríveis, tela após tela, dia e noite. São imagens que ficam gravadas na memória para sempre: Israel, o horrível. Israel, o abominável. Israel, o desumano. Cria-se hoje mais uma geração que odeia. É um erro horrendo, pelo qual Israel continuará a pagar, até muito depois de todos esquecerem quaisquer outros resultados dessa guerra.

Mas outra coisa está também sendo inscrita para sempre, na mente de milhões: o retrato dos miseráveis, corruptos, passivos regimes árabes. Do ponto de vista dos árabes, um facto é hoje visível, inultrapassável: que governos vergonhosos!

Para o milhão e meio de árabes em Gaza, que sofrem tão terrivelmente, a única abertura para o mundo, não controlada por Israel, é a fronteira com o Egipto. Só por ali podem chegar comida para matar a fome, ou medicamentos para os feridos. Essa fronteira permanece fechada, no momento do terror máximo. O exército egípcio bloqueou a única via possível para que cheguem remédios, no momento em que os feridos estão sendo operados sem anestésicos.

Por todo o mundo árabe, de um extremo a outro, ecoaram as palavras de Hassan Nasrallah: Os líderes egípcios são cúmplices do crime. Estão a colaborar com o "inimigo sionista" na tentativa de dobrar o povo da Palestina. Evidentemente, não se referia apenas a Mubarak, mas a todos os demais, do rei da Arábia Saudita ao presidente palestiniano. Quem assista às manifestações que estão a acontecer em todo o mundo árabe e ouça os seus slogans terá a impressão de que, para muitos árabes, os políticos parecem patéticos, no melhor dos casos; ou criminosos colaboracionistas, no pior.

Tudo isso terá consequências históricas. Uma geração inteira de líderes árabes, uma geração imbuída da ideologia secular do nacionalismo árabe, os sucessores de Gamal Abd-al-Nasser, Hafez al-Assad e Yasser Arafat, pode estar a ser varrida do cenário. Podem estar a dar lugar, no mundo árabe, à única alternativa que ainda parece viável: a ideologia do fundamentalismo islâmico.

Esta guerra é como um graffiti no muro: Israel está a perder a oportunidade histórica de fazer a paz com o nacionalismo árabe secular. Amanhã talvez seja obrigado a enfrentar um mundo uniformemente árabe fundamentalista, o Hamas multiplicado por mil.

O meu motorista de táxi, em Telavive, num dia destes, pensou em voz alta: Por que não convocam os filhos dos ministros e dos deputados, organizam batalhões e os mandam invadir Gaza por terra?

Uri Avnery é jornalista, membro fundador do Gush Shalom (Bloco da Paz israelita) e publicado em zope.gush-shalom.org

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