Depois do massacre, mentiras repetem-se criar PDF versão para impressão
08-Jan-2009
Robert Fisk. Foto de Marjorie LipanEm artigo publicado no The Independent, o jornalista Robert Fisk acusa o governo israelita de contar mentiras para tentar justificar as atrocidades cometidas em Gaza. "O que surpreende é que tantos líderes ocidentais, tantos presidentes e primeiros-ministros e, temo, tantos editores e jornalistas tenham acreditado na mesma velha mentira: que os israelitas algum dia se tenham preocupado em poupar civis", escreve.

Da Redação da Carta Maior


Em artigo publicado no jornal The Independent, o jornalista britânico radicado no Líbano Robert Fisk denuncia as mentiras contadas pelo governo de Israel para tentar justificar as atrocidades cometidas em Gaza (e atrocidades anteriores também). A Organização das Nações Unidas também rebateu a versão israelita, segundo a qual as escolas bombardeadas estariam abrigando militantes do Hamas. Sobre esse tema, Fisk, que é considerado um dos maiores especialistas hoje em Médio Oriente, escreve:

"O que surpreende é que tantos líderes ocidentais, tantos presidentes e primeiros-ministros e, temo, tantos editores e jornalistas tenham acreditado na mesma velha mentira: que os israelitas algum dia se tenham preocupado em poupar civis. Todos os presidentes e primeiros-ministros que repetiram a mesma mentira, como pretexto para não impor o cessar-fogo, têm as mãos sujas do sangue da carnificina de ontem. O que aconteceu não foi apenas vergonhoso. O que aconteceu foi uma desgraça. ‘Atrocidade' é pouco para descrever o que aconteceu. Falaríamos de ‘atrocidade" se o que Israel fez aos palestinianos tivesse sido feito pelo Hamas. Israel fez muito pior. Temos de falar de ‘crime de guerra', de matança, de assassinato em massa".

A lógica de justificativas de Israel não é nova, acrescenta o jornalista:

"Reportei as desculpas que o exército de Israel tem oferecido ao mundo já várias vezes, depois de cada chacina. Dado que provavelmente serão requentadas nas próximas horas, adianto algumas delas: que os palestinianos mataram refugiados palestinianos; que os palestinianos desenterram cadáveres para pô-los nas ruínas e serem fotografados; que a culpa é dos palestinianos, por terem apoiado um grupo terrorista; ou porque os palestinianos usam refugiados inocentes como escudos humanos."

"O massacre de Sabra e Chatila foi cometido pela Falange Libanesa aliada à direita israelita; os soldados israelitas assistiram a tudo por 48 horas, sem nada fazer para deter o morticínio; são conclusões de uma comissão de inquérito de Israel. Quando o exército de Israel foi responsabilizado, o governo de Menchaem Begin acusou o mundo de preconceito contra Israel. Depois que o exército de Israel atacou com mísseis a base da ONU em Qana, em 1996, os israelitas disseram que a base servia de esconderijo para o Hezbollah. Mentira."

"Israel insinuou que os corpos das crianças assassinadas num segundo massacre em Qana teriam sido desenterrados e expostos para fotografias. Mentira. Sobre o massacre de Marwahin, nenhuma explicação. As pessoas receberam ordens, de um grupo de soldados israelitas, para evacuar as casas. Obedeceram. Em seguida, foram assassinadas por matadores israelitas. Os refugiados reuniram os filhos e puseram-se à volta dos camiões nos quais viajavam, para que os pilotos dos helicópteros vissem quem eram, que estavam desarmados. O helicóptero varreu-os a tiros, de curta distância. Houve dois sobreviventes, que se salvaram porque fingiram estar mortos. Israel não tentou nenhuma explicação."

"Doze anos depois, outro helicóptero israelita atacou uma ambulância que conduzia civis de uma vila próxima - outra vez, soldados israelitas ordenaram que saíssem da ambulância - e assassinaram três crianças e duas mulheres, Israel alegou que a ambulância conduzia um ferido do Hezbollah. Mentira."

Fisk relata ainda que cobriu, como jornalista, todas essas atrocidades e investigou-as uma a uma, entrevistando sobreviventes:

"Muitos jornalistas sabem o que eu sei. O nosso destino foi, é claro, o mais grave dos estigmas: fomos acusados de anti-semitismo. Por tudo isso, escrevo aqui, sem medo de errar: agora recomeçarão as mais escandalosas mentiras."

Uma outra mentira denunciada por Fisk é a de que o cessar-fogo em Gaza teria sido rompido pelo Hamas: "O cessar-fogo foi rompido por Israel, primeiro dia 4/11, quando bombardeou e matou seis palestinianos em Gaza e, depois, outra vez, dia 17/11, quando outra vez bombardeou e matou mais quatro palestinianos", escreve.

(Trechos do artigo traduzidos por Caia Fitipaldi)

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