Guerra do Iraque criar PDF versão para impressão
01-Nov-2006
E DEPOIS DA RETIRADA?
wallerstein_webNeste artigo, Immanuel Wallerstein, investigador da Universidade de Yale, prevê que os Estados Unidos serão forçados a retirar do Iraque antes das eleições presidenciais de 2008 e discute as consequências que uma nova síndrome de derrota pode provocar. Uma delas poderia ser uma mais acentuada viragem à direita.

Cegueira na política externa          

Immanuel Wallerstein

19 de Outubro de 2006

Parece bastante provável, excepto se ocorrer um grande milagre para os republicanos, que os democratas ganhem pelo menos uma e provavelmente as duas casas do Congresso dos Estados Unidos nas eleições de 7 de Novembro. Que diferença vai isso fazer? Eu diria que eu, pessoalmente, vou votar na opção democrata. Mas, tal como muita gente, o meu voto é antes de tudo um voto negativo contra George W. Bush e secundariamente contra a maioria republicana em ambas casas. Vou fazê-lo por muitas razões, mas em primeiro lugar porque penso que a invasão do Iraque foi imoral, contraprodutiva e em geral um fiasco - para os EUA, para o Iraque e para o mundo inteiro. Há muitas outras queixas. Queixas contra o regime actual - os seus ataques às liberdades fundamentais do povo americano, as suas políticas económica e social regressivas, e a sua política externa irresponsável e incompetente em geral. Mas, como motivo, o Iraque ultrapassa-as todas. Por isso, vou votar em protesto e tentar impedir que as coisas fiquem ainda piores.

Mas o que fará melhor um Congresso democrata? Isso, como todos já observaram, não é nada claro. Na verdade, é legítimo duvidar que os democratas colectivamente tenham realmente uma política externa melhor para oferecer. O principal problema da liderança do Partido Democrata é acreditar, pelo menos tanto quanto os republicanos, que os Estados Unidos são o centro do mundo, a fonte da sabedoria, o grande defensor da liberdade do mundo - em poucas palavras, uma nação profundamente virtuosa num mundo perigoso.

Pior ainda, parece que acreditam nisso, que simplesmente expurgando os elementos de exagerado unilateralismo praticado pelo actual regime serão capazes de levar de novo os Estados Unidos a uma posição de centralidade no sistema-mundo e reconquistar o apoio dos seus outrora aliados e apoiantes, em primeiro lugar na Europa ocidental e depois no resto do mundo. Parecem mesmo acreditar que é uma questão de forma, não de conteúdo, e que o erro do regime Bush foi não ter sido suficientemente bom em diplomacia.

É verdade que nem todos os democratas pensam assim, e, nessa questão, nem todos os republicanos e independentes. Mas, neste momento, os que estão dispostos a olhar de frente as falácias das políticas dos EUA são uma minoria - mais ainda, uma minoria sem uma agenda clara e certamente sem um líder político de peso para expressar uma visão alternativa.

O que vai acontecer então? É provável, não certo, que os Estados Unidos sejam forçados a retirar do Iraque antes das eleições presidenciais de 2008. É também quase certo que os republicanos vão culpar os democratas por "perderem" a guerra, e os democratas vão dizer que não é verdade. Mas para além do paleio político habitual, a retirada vai provocar um choque profundo no povo americano, mesmo que a maioria não veja alternativa.

Temos que colocar esta retirada no contexto das guerras que os Estados Unidos travaram desde 1945. A guerra da Coreia e a primeira guerra do Golfo terminaram na linha de partida. Nenhum dos lados realmente ganhou. A guerra mais importante dos Estados Unidos - em termos de impacto geopolítico, de custos económicos e de envolvimento emocional dos Estados Unidos - foi a do Vietname. E os Estados Unidos perderam essa guerra. O resultado provocou uma clivagem profunda no povo americano - acerca de "quem" perdeu a guerra, e se a guerra podia ter sido "ganha" se outras políticas tivessem prevalecido.

A chamada síndrome do Vietname nunca foi curada. Com os ataques de 11 de Setembro, houve um levantamento patriótico entre o povo americano, e o país pareceu temporariamente reunificado. Mas George Bush desperdiçou esse capital, e nenhum presidente democrata vai conseguir ressuscitá-lo. O meu prognóstico é que a retirada do Iraque vais ser ainda mais traumática que a fuga de Saigão de 1975. Duas derrotas serão devastadoras e também esclarecedoras em relação aos limites reais do poder dos EUA. Chegados a este ponto, há apenas duas possibilidades. Uma é que vá ocorrer uma espécie de exame de consciência profundo que levaria os Estados Unidos a reavaliar a sua própria imagem, o seu sentido do que é possível no sistema-mundo agora e no futuro, e em que tipo de valores realmente acreditam. Se isso acontecer, talvez as forças internas ao Partido Democrata avancem para encarnar essa reavaliação. Ou talvez todo o quadro político dos Estados Unidos e os seus partidos mudem para reflectir tal avaliação.

Mas claro que há uma segunda possibilidade. É que a nação se deixe dominar pela raiva profunda em relação à "perda" da sua supremacia, que procure bodes expiatórios - e os encontre - e que finalmente se encaminhe na direcção de estripar a Constituição americana e as liberdades que se supõe que ela defenda. Algo semelhante ao que aconteceu na Alemanha de Weimar. E apesar de a situação ser diferente em muitos aspectos, e apesar de eu não estar a prever de forma alguma a emergência de um Partido Nazi, mesmo assim seria um enorme desastre para os EUA e para o mundo se os Estados Unidos se movessem em qualquer grau significativo nessa direcção.

O que importa - não só para os Estados Unidos como para o resto do mundo - é o que os Estados Unidos pensam e fazem deles mesmos. Porque um elefante ferido pode realmente ficar furioso. Por outro lado, podemos pensar em tempos em que um rude choque do tipo do que uma derrota no Iraque iria infligir pudesse ter o efeito saudável de reviver o melhor da tradição americana - a de um povo libertário, socialmente consciente, que mais uma vez iria, nas palavras gravadas na Estátua da Liberdade, acolher "as massas exaustas, pobres e confusas ansiando por respirar liberdade".

 
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