O objectivo de Israel não é a paz, mas o domínio militar criar PDF versão para impressão
09-Jan-2009
Tanques israelitas na fronteira de Gaza, antes da ofensiva terrestre. Foto de Amir Farshad EbrahimiUm estado pária é aquele que viola a lei internacional, possui armas de destruição em massa e pratica o terrorismo - o uso da violência contra civis com objectivos políticos. Israel cumpre os três critérios, conclui Avi Shlaim, professor de Relações Internacionais na Universidade de Oxford, que serviu no exército israelita e nunca questionou a legitimidade deste Estado. Mas a impiedosa agressão a Gaza conduziu-o a esta e a outras conclusões devastadoras.

Por Avi Shlaim, publicado originalmente no The Guardian


A única forma de dar sentido à guerra insensata de Israel em Gaza é através da compreensão do contexto histórico. Estabelecer o Estado de Israel em Maio de 1948 implicou uma enorme injustiça para os palestinianos. As autoridades britânicas ressentiram-se amargamente do apoio americano ao novo Estado. No dia 2 de Junho de 1948, Sir John Troutbeck escreveu ao secretário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Ernest Bevin, que os americanos eram responsáveis pela criação de um Estado gangster encabeçado por um "grupo de líderes totalmente sem escrúpulos". Eu achava esta opinião demasiado severa, mas o cruel ataque de Israel ao povo de Gaza e a cumplicidade da administração Bush reabriram a questão.

Escrevo como alguém que serviu fielmente no exército israelita na década de 60 e que nunca questionou a legitimidade do Estado de Israel nas suas fronteiras antes de 1967. O que eu rejeito veementemente é o projecto colonial sionista para além da Linha Verde. A ocupação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza no rescaldo da guerra de Junho de 1967 teve pouco a ver com segurança e muito a ver com expansão territorial. O objectivo era estabelecer o Grande Israel através do controlo político, económico e militar permanentes dos territórios palestinianos. O resultado foi uma das mais prolongadas e brutais ocupações militares dos tempos modernos.

Quatro décadas de controlo israelita causaram danos incalculáveis à economia da Faixa de Gaza. Com uma grande parte da população de refugiados de 1948 encaixados numa pequenina faixa de terra, sem infra-estruturas ou recursos naturais, as expectativas de Gaza nunca foram brilhantes. Contudo, Gaza não é um simples caso de subdesenvolvimento, mas sim um caso inigualável de cruel deliberação de não-desenvolvimento. Usando a expressão bíblica, Israel tornou o povo de Gaza de colectores de madeira e extractores de água, numa fonte de trabalho barato e num mercado cativo para os bens israelitas. O desenvolvimento da indústria local foi activamente impedido de modo a que se tornasse impossível aos palestinianos acabar com a sua subordinação perante Israel e estabelecer as bases económicas necessárias para um verdadeira independência política.

Gaza é um caso clássico de exploração colonial na era pós-colonial. Os colonatos judeus nos territórios ocupados são imorais, ilegais e um obstáculo insuperável à paz. São simultaneamente um instrumento de exploração e um símbolo da odiada ocupação. Em Gaza, os colonos judeus eram apenas 8.000 em 2005, em comparação com 1,4 milhões de residentes locais. Todavia, os colonos controlavam 25% do território, 40% da terra arável e parte de leão das escassas fontes de água. Ombro a ombro com estes intrusos estrangeiros, a maioria da população local vivia na mais abjecta e inimaginável pobreza. Oitenta por cento ainda hoje subsiste com menos de dois dólares por dia. As condições de vida na Faixa continuam a ser uma afronta aos valores civilizados, um poderoso incentivo à resistência e um terreno fértil para o extremismo político.

Em Agosto de 2005, um governo do Likud liderado por Ariel Sharon encenou uma desocupação unilateral de Gaza, retirando os 8.000 colonos e destruindo as casas e quintas que deixaram para trás. O Hamas, movimento de resistência islâmica, conduziu uma campanha eficaz para expulsar os israelitas de Gaza. A retirada foi um humilhação para as Forças de Defesa Israelitas. Para o mundo, Sharon apresentou a retirada como uma contribuição para a paz baseada numa solução de dois Estados. Mas, no ano seguinte, outros 12.000 israelitas estabeleceram-se na Cisjordânia, reduzindo ainda mais a possibilidade de um Estado Palestiniano Independente. Ocupar terras e fazer a paz são coisas simplesmente incompatíveis. Israel teve escolha, e escolheu a terra em vez da paz.

O verdadeiro objectivo da jogada foi redesenhar as fronteiras do Grande Israel, incorporando os principais colonatos da Cisjordânia no Estado de Israel. A retirada de Gaza não foi então um prelúdio para um acordo de paz com a Autoridade Palestiniana, mas um prelúdio para uma maior expansão sionista na Cisjordânia. Foi uma decisão unilateral israelita, empreeendendo o que foi visto, erroneamente na minha opinião, como uma acção no interesse nacional israelita. Ancorada na rejeição de uma identidade nacional palestiniana, a retirada de Gaza foi parte de um esforço a longo prazo para negar ao povo palestiniano qualquer existência política independente na sua terra.

Os colonos de Israel foram retirados, mas o soldados israelita continuaram a controlar o acesso à Faixa de Gaza por terra, mar e ar. Gaza foi rapidamente convertida numa prisão a céu aberto. A partir daqui, a Força Aérea Israelita obteve a liberdade total para lançar bombas, fazer voos rasantes a baixa altitude e quebrar a barreira do som para aterrorizar os desgraçados habitantes desta prisão.

Israel gosta de se retratar como um farol da democracia num mar de autoritarismo. No entanto, Israel nunca fez nada para promover a democracia no lado Árabe, e fez tudo para a destruir. Israel tem uma longa história de colaboracionismo secreto com regimes árabes reaccionários para suprimir o nacionalismo palestiniano. Apesar de todos os defeitos, o povo palestiniano conseguiu construir a única democracia genuína no mundo árabe, com a possível excepção do Líbano. Em Janeiro de 2006, as eleições livres e justas para o Conselho Legislativo da Autoridade Palestiniana trouxeram ao poder um governo liderado pelo Hamas. Contudo, Israel recusou-se a reconhecer o governo democraticamente eleito, afirmando que o Hamas é simples e unicamente uma organização terrorista.

De uma forma vergonhosa, os E.U.A e a União Europeia associaram-se a Israel para ostracizar e demonizar o Hamas, e para tentar derrubá-lo através da suspensão de receitas fiscais e da ajuda externa. Ocorreu assim, uma situação surreal, com uma significativa parte da comunidade internacional impondo sanções económicas, não contra a ocupação, mas contra os ocupados, não contra o opressor, mas contra o oprimido.

E assim, como tem sucedido frequentemente na história trágica da Palestina, as vítimas foram culpadas pelo seu próprio infortúnio. A máquina de propaganda de Israel faz passar a mensagem de que os palestinianos são terroristas, que rejeitam a coexistência com o estado Judaico, que o seu nacionalismo é um pouco mais que anti-semitismo, que o Hamas são um monte de fanáticos religiosos e que o Islão é incompatível com a democracia. Mas a verdade pura e simples é a de que os palestinianos são pessoas normais, com aspirações normais. Não são melhores nem piores que qualquer outro grupo nacional. Acima de tudo o que desejam é um pedaço de terra a que possam chamar seu e onde possam viver em liberdade e dignamente.

O Hamas, à semelhança de outros movimentos radicais, começou a moderar o programa político depois de subir ao poder. Partindo do rejecionismo ideológico do seu programa, começou a mover-se no sentido de uma acomodação mais pragmática à solução dos dois estados. Em Março de 2007, o Hamas e a Fatah formaram o governo de unidade nacional que estava preparado para negociar um cessar-fogo de longo prazo com Israel. Contudo, Israel recusou-se a negociar com um governo que incluísse o Hamas.

Israel continuou o jogo de dividir para reinar entre as facções palestinianas rivais. No final dos anos 80, Israel tinha apoiado o emergente Hamas com vista ao enfraquecimento da Fatah, o movimento nacionalista secular liderado por Yasser Arafat. Agora, encoraja os corruptos e dóceis lideres da Fatah a derrubar os seus adversários políticos e religiosos e recuperar o poder. Os agressivos neoconservadores norte-americanos participaram na sinistra trama de instigar uma guerra civil palestiniana. A sua manobra foi um factor fundamental no colapso do governo de unidade nacional e levou a que em Junho de 2007 o Hamas tomasse o poder em Gaza, para prevenir um golpe da Fatah.

A Guerra desencadeada por Israel em Gaza a 27 de Dezembro foi o culminar de uma série de choques e confrontos com o governo do Hamas. No entanto, num sentido mais lato, é uma guerra entre Israel e o povo palestiniano, porque o povo elegeu o partido no poder. O objectivo declarado da guerra é enfraquecer o Hamas e intensificar a pressão até que os seus líderes concordem com um novo cessar-fogo nos termos impostos por Israel. O objectivo não declarado é assegurar que os palestinianos em Gaza sejam vistos pelo mundo como apenas mais um problema humanitário, e assim sabotar a sua luta pela independência e a criação de um Estado.

O momento em que a Guerra despoletou foi determinado por conveniência política. Estão marcadas eleições gerais para 10 de Fevereiro e todos os principais candidatos procuram uma oportunidade para provar como são duros. As altas patentes do exército já engendravam algo para desferir um duro golpe no Hamas, de forma a limpar a nódoa deixada na sua reputação pelo falhanço da guerra contra o Hezbollah no Líbano em Julho de 2006. Os cínicos líderes israelitas podiam também contar com a apatia e impotência dos regimes árabes pró-ocidentais e com o apoio cego por parte do presidente Bush no final do seu mandato na Casa Branca. Bush prontamente apoiou o ataque, colocando todas as culpas pela crise no Hamas, vetando as propostas do Conselho de Segurança das Nações Unidas para um cessar-fogo imediato e dando carta branca a Israel para lançar uma invasão terrestre a Gaza.

Como sempre, o poderoso Israel clama ser a vítima de agressões palestinianas, mas a completa assimetria de poder entre ambos os lados deixa pouco espaço para dúvidas sobre quem é a verdadeira vítima. Este é de facto um conflito entre David e Golias, mas a imagem bíblica foi invertida - um pequeno e indefeso David palestiniano enfrenta um altamente armado, impiedoso e dominador Golias israelita. O recurso à força militar severa é acompanhado, como sempre, pela estridente retórica de vitimização e revestida de uma mistura de auto-comiseração e afirmação de superioridade moral pelos seus actos. Em hebreu, isto é conhecido como a síndrome de bokhim ve-yorim, "chorar e disparar".

É claro que o Hamas não é um movimento inteiramente inocente neste conflito. Tendo-lhe sido negado o fruto da sua vitória eleitoral e estando confrontado com um adversário sem escrúpulos, recorreu às armas dos fracos - o terror. Os militantes do Hamas e da Jihad Islâmica continuaram a lançar ataques de rockets caseiros Qassam contra os colonatos israelitas perto da Faixa de Gaza, até ao passado mês de Junho, quando o Egipto mediou um cessar-fogo de seis meses. Os danos causados por esses rockets primitivos são mínimos, mas o impacto psicológico é imenso, incitando o povo israelita a exigir protecção do seu governo. Nessas circunstâncias, Israel tinha o direito de actuar em autodefesa, mas a sua resposta às alfinetadas dos rockets foi completamente desproporcional. Os factos falam por si. No decorrer de três anos depois da retirada de Gaza, 11 israelitas foram mortos pelo fogo destes rockets. Do outro lado, só e apenas entre 2005 e 2007, a IDF (Força de Defesa de Israel) matou 1,290 palestinianos em Gaza, entre os quais 222 crianças.

Independentemente dos números, a matança de civis está errada. Esta regra aplica-se tanto a Israel como ao Hamas, mas o historial inteiro de Israel é de uma brutalidade desenfreada e incessante para com os habitantes de Gaza. Israel também manteve o bloqueio da Gaza depois que o cessar-fogo entrou em vigor, o que, do ponto de vista dos líderes do Hamas, constitui mais uma violação do acordo. Durante o cessar-fogo, Israel impediu toda a exportação desde a faixa, em clara violação de um acordo de 2005, levando a uma aguda diminuição das oportunidades de emprego. Oficialmente, 49.1% da população está desempregada. Ao mesmo tempo, Israel restringiu drasticamente o número de camiões que transportam comida, combustível, botijas de gás de cozinha, fornecimento de água de beber e para o saneamento, e mantimentos médicos para Gaza. É difícil perceber como ao esfomear e congelar os civis de Gaza se pretende proteger as pessoas do lado israelita da faixa. Mas, mesmo se assim fosse, ainda seria imoral, seria uma forma da punição colectiva que é estritamente proibida pelas leis humanitárias internacionais.

A brutalidade dos soldados de Israel está completamente aliada à desonestidade dos seus oradores. Oito meses antes de lançar a guerra actual contra Gaza, Israel criou um Directório Nacional de Informações. As principais mensagens deste directório para os média são que o Hamas quebrou os acordos do cessar-fogo, que o objectivo de Israel é a defesa da sua população e que as forças de Israel estão a ter o máximo de cuidado para não atingir civis inocentes. Os doutos em manipulação de Israel foram notavelmente bem sucedidos na divulgação destas mensagens. Mas, na sua essência, esta propaganda é um pacote de mentiras.

Um fosso profundo separa a realidade das acções de Israel da retórica dos seus oradores. Não foi o Hamas, mas o IDF que quebrou o cessar-fogo. Fê-lo com um raide em Gaza no dia 4 de Novembro que matou seis homens do Hamas. O objectivo de Israel não é apenas defender a sua população, mas derrotar finalmente o governo Hamas em Gaza, voltando o povo contra os seus soberanos. E, longe de ter o cuidado de poupar civis, Israel é culpado do bombardeio indiscriminado e de um bloqueio de três anos que levou os habitantes da Gaza, agora 1.5 milhões, à beira de uma catástrofe humanitária.

A injunção Bíblica de olho por olho é bastante selvagem. Mas a ofensiva insana de Israel contra Gaza parece seguir a lógica de olho por pestana. Depois de oito dias de bombardeio, com um custo de mais de 400 palestinianos e quatro Israelitas mortos, o zeloso gabinete encomendou uma invasão terrestre de Gaza cujas consequências são incalculáveis.

Nenhuma escalada militar pode comprar a imunidade de Israel dos ataques de rockets da ala militar do Hamas. Apesar de toda a morte e destruição que Israel lhes infligiu, eles mantiveram a sua resistência e continuaram disparando os seus rockets. Isto é um movimento que glorifica a vitimização e o martírio. Não há simplesmente nenhuma solução militar para o conflito entre as duas comunidades. O problema com o conceito de segurança de Israel é que ele nega até a mais elementar segurança da outra comunidade. O único caminho de Israel para obter segurança não é pelo tiroteio, mas por meio do diálogo com o Hamas, que declarava repetidamente a sua prontidão para negociar um cessar-fogo a longo prazo com o estado judaico dentro das suas fronteiras de 1967 de 20, 30, ou até de 50 anos. Israel rejeitou esta proposta pela mesma razão que desprezou o plano de paz de 2002 da Liga árabe, que está ainda na mesa: implica concessões e compromissos.

Este breve historial das quatro décadas passadas faz com que seja difícil resistir à conclusão de que Israel se tornou um estado pária "com um grupo de líderes completamente sem escrúpulos". Um estado pária habitualmente viola a lei internacional, possui armas de destruição em massa e pratica o terrorismo - o uso da violência contra civis com objectivos políticos. Israel cumpre todos esses três critérios; o barrete ajusta-se e ele deve usá-lo. O verdadeiro objectivo de Israel não é a coexistência pacífica com os seus vizinhos palestinianos, mas a dominação militar. Continua compondo os erros do passado com novos erros ainda mais desastrosos. Os políticos, como qualquer pessoa, são naturalmente livres de repetir as mentiras e os erros do passado. Mas não é obrigatório fazer assim.

7 de Janeiro de 2009

  • Avi Shlaim é professor de relações internacionais na Universidade de Oxford e autor de The Iron Wall: Israel and the Arab World and of Lion of Jordan: King Hussein's Life in War and Peace.

Tradução de Sofia Gomes, Cláudia Belchior e Ana da Palma

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