Os média em Israel tocam as trombetas da guerra criar PDF versão para impressão
11-Jan-2009
Funeral das crianças mortas na escola da ONu em Gaza. Foto EPA/ Mohammed SaberUm historiador do futuro que algum dia examine os arquivos dos jornais de Israel verá com clareza absoluta: para Israel, 200, 300 e, depois, 400 palestinianos assassinados 'não é' manchete. Os média em Israel são "poupados" de ter de exibir imagens "fortes". Israel abraça e sempre abraçará qualquer guerra, qualquer barbárie. Israel crê-se tão poderoso que se brutalizou, que já não sente. A análise é do jornalista israelita Gideon Levy.

Por Gideon Levy, publicado originalmente no Haaretz


Eis como estão as coisas em Israel: opor-se à paz é sempre atitude legítima e patriótica; opor-se à guerra é traição, atitude antipatriótica e atitude que deve ser combatida. Esta semana, falando do seu programa "London & Kirschenbaum", Yaron London, apresentador, deu sinais de que a coisa está a ficar difícil: "Tivemos problemas com o programa. Sabemos do amplo consenso a favor da guerra - acabar com eles, bater até que se calem. Mas também há outras vozes, não só dos israelitas-árabes, também de muitos judeus. Encontramos alguns poucos judeus que defendem o fim dos ataques, ou que jamais deveriam ter começado, e que é preciso iniciar negociações. Não é a minha opinião. A minha linha é outra, e já a expus em muitos artigos. Mas é preciso ouvir as outras vozes. Falar sozinho leva sempre ao desastre. O problema é que todos têm medo. As vozes da paz estão em silêncio, porque estão aterrorizadas."

Depois, London disse ao seu entrevistado, Amir Peretz, que planeara entrevistar também moradores de Gaza, para ouvir "o outro lado", mas que, infelizmente, aquelas poucas vozes foram silenciados "pelo terror".

Com terror ou sem terror, sei de muitos judeus, não de 'alguns poucos', que defenderiam "o outro" lado e que não vacilariam, nem por um segundo, a declará-lo na televisão. Por exemplo, as centenas que tomaram a Praça da Cinemateca, em Tel Aviv, no sábado à noite, para protestar contra a operação de guerra do exército israelita. Mas a equipe da produção do programa "London & Kirschenbaum" não os procurou. Problemas de produção, claro.

Seja como for, ninguém quis saber da opinião deles, no mais ouvido programa de entrevistas da televisão - porque há expressa proibição de que sejam ouvidos.

Pouco antes de sermão auto-justificativo de London, alguém que defende a posição "do outro lado", Ahmed Tibi, foi convidado para uma entrevista nos estúdios do programa "Erev Hadash" ['outra noite'].

O que ali se ouviu está fadado a tornar-se um clássico do telecine de terror: horror e horror, berros, gritaria e insultos. Veias a ponto de explodir e gargantas roucas de tanto berrar. Margalit [apresentador do programa]: "Você está a inventar disparates... Você não respondeu à minha pergunta." Tibi: "Respondo o que eu quiser responder." Margalit: "Baixe a voz. Fale como ser humano civilizado!" Tibi: "Estou a falar como ser humano civilizado." Margalit: "Respeite-me!" Até que Margalit deu-se por satisfeito e ordenou ao co-entrevistador, Ronen Bergman: "OK. Deixe-o falar." Tibi, então, tentou dizer que a única diferença entre o Hamas e o governo de Israel é a questão dos pontos de controle, "que têm de ser abertos". Margalit, então, gargalhou em cena.

Pense: quando, algum dia, ouviu Margalit ou qualquer outro entrevistador de televisão, dizer ao entrevistado "Você está a inventar disparates"? Será que falam assim a Benjamin Netanyahu? Ehud Barak? Tzipi Livni? E esses? Não "inventam disparates" vez ou outra? E quando, algum dia, alguém assistiu a um entrevistador dizer, na televisão "Baixe a voz. Fale como ser humano civilizado!" Gargalhar em cena?! Os nervos estão mesmo em frangalhos e os árabes (além de vários judeus heréticos) andam a criar dificuldades.

Porque é assim que estão as coisas em Israel. Opor-se à paz é sempre atitude legítima e patriótica; opor-se à guerra é traição, atitude antipatriótica e deve ser combatida. Podem debater o custo da paz eternamente; ninguém ouvirá uma palavra sobre o custo da guerra. Movimentos pacifistas são censurados. Movimentos pró-violência são ensinados. Pelo menos, até certo ponto.

A crítica da guerra, mais uma vez, terá de esperar. [...] Esse é o teste de coragem e credibilidade dos média, sempre igual, guerra após guerra. E sempre, guerra após guerra, os média fracassam.

Nos estúdios de televisão, só entram generais e analistas militares, as mesmas caras, nos mesmos estúdios, já desde a guerra passada, na de antes, na de antes daquela, porque só neles se concentra a sabedoria e o talento que há na sociedade de Israel, na opinião dos média de Israel.

Porque é assim que estão as coisas em Israel: os primeiros dias de guerra, de qualquer guerra, são sempre os mais sombrios. Mas nada de "Silêncio, não perturbem, estamos a matar gente!" Ah, não! Silêncio nenhum. O que se ouve é sempre o mesmo coro estridente de entrevistas e noticiários de televisão, gritaria, vinhetas espalhafatosas, clamores urgentes de "mais ataques, mais ataques", "matem mais", que Israel mate muito, que não pare de matar, entusiasmo crescente a cada nova chacina, guerra sem parar, cada vez mais.

Só depois, quando baixa a poeira, quando já todos sabem que mais uma vez a vitória se converteu em derrota e as conquistas foram ilusão (quando não apenas mentiras), então, sim, começam a falar outras vozes. Até que, algumas vezes, algum senso, depois, aos poucos, implanta-se também na opinião pública. Sempre tarde demais. Sempre desgraçadamente tarde demais.

"Silêncio, não perturbem, estamos a matar gente!"? Dia 6 de Junho de 1982, há 25 anos, quando Israel embarcou na primeira Guerra do Líbano, talvez a mais ensandecida das guerras em que Israel embarcou, o meu falecido colega Amiram Nir publicou, naquele seu artigo que fez história: "Silêncio, não perturbem, estamos a matar gente!": "Hoje não há oposição, nem Likud nem Ma'arakh, nem religiosos nem seculares, nem ricos nem pobres. Somos um só povo em armas. Estamos a matar gente. Portanto, façam silêncio." Nir de fato não queria qualquer silêncio. Israel não quer silêncio. Quer sempre muito barulho, mas que só falem as vozes da beligerância, da violência, do nacionalismo fanático, da propaganda, da opinião 'geral'. Excepto essas vozes, sim, o silêncio. Silêncio total. Silêncio de morte.

No primeiro dia desta nova guerra, a televisão mostrou imagens horripilantes. Praticamente nada se escondeu. Telas divididas mostravam de um lado o medo em Ashkelon, de outro, o sofrimento em Gaza. (...) Todos os canais de televisão em Israel exibiram pedaços de cadáveres de palestinianos carregados, com escavadoras, para camiões de carga. O pior de tudo: nem aquelas imagens despertaram qualquer protesto. Desta vez, já não pareceu necessária qualquer tipo de consideração. Israel tornou-se tão indiferente à morte, o coração dos israelitas endureceu, petrificou-se de tal modo, que Israel vê o que viu essa semana... e nada! Apatia? Não, não é só isso.

A verdade é que, vez ou outra, muitos tiveram uma mesma ideia: Será que a "campanha de Relações Públicas do governo de Livni" não nos fere mais do fere 'o outro lado'? (...)

Os média foram cuidadosamente preparados para essa guerra. Nenhuma comissão de inquérito, nem Winograd nem Doner, poderá jamais dizer que os média não tenham sido preparados para essa guerra. Durante meses, todos recebemos apavorantes 'relatórios' sobre o crescente poderio do Hamas, sobre como o Hamas se armava. Túneis, bunkers, casamatas, mísseis de longo alcance, exército cada dia maior. Nenhum jornalista investigou. Ninguém sequer suspeitou.

Assim os média em Israel inventaram o Hamas. Apagaram a realidade de uma organização em frangalhos, em luta desesperada para não se deixar assassinar e que lança bombinhas de salão contra o mais poderoso exército do mundo. Assim, também, os média de Israel encobriram o facto de que Israel, não o Hamas, foi quem quebrou o pacto de cessar-fogo, imediatamente, no mesmo dia em que firmou o pacto: um dos túneis foi bombardeado no mesmo dia em que o cessar-fogo foi assinado.

Os média israelitas também ocultaram os efeitos do boicote. Durante dois anos e meio nenhum veículo dos média de Israel pôde entrar em Gaza. A opinião pública em Israel não soube de nada. Tampouco se ouviu qualquer protesto dos jornalistas em Israel. O sofrimento pelo qual passa a população sitiada em Gaza não apareceu na agenda jornalística em Israel. Alguns ainda tentaram acalmar a própria consciência (nunca, de fato, muito torturada), com notícias de que não havia bloqueio; alguns "pressentiram"; alguns inventaram cenas piores do que a realidade. Mas os efeitos do sítio e do bloqueio de Gaza não foram noticiados em Israel.

Depois da fase de preparação, a fase de avaliação: isso não pode continuar, disseram todos os analistas, introduzindo a ideia de que a resposta teria de ser militar, exclusivamente militar. Os assustados moradores de Sderot passaram a ser as únicas vítimas conhecidas. Não as crianças de Gaza, que não têm nem caderno para escrever, não os adultos que não tem nem cimento para vedar os túmulos dos seus mortos, não os motoristas que dirigiam carros movidos com óleo de cozinha que aprenderam a reciclar, não os médicos que operavam sem electricidade, não os feridos operados sem anestésicos, não as famílias mortas de frio. Essas não são personagens da cena do "isto não pode continuar".

E então começou a fase mais activa da campanha pelos média: à guerra, à guerra! Acabem com eles! Operação militar! Acção, reacção, o que for, desde que 'eles' sejam detidos.

O último a aderir foi Nahum Barnea, colunista nacional, que entrou numa barbearia para cortar o cabelo, semana passada, em Sderot, e, é claro, não perdeu a oportunidade de partilhar a experiência com os seus leitores e imediatamente, já de cabelo cortado, desafiou o ministro da Defesa, Ehud Barak, exactamente na véspera de Barak despachar os seus aviões para suas missões de morte. "Onde está o ministro da Defesa? Quem defenderá Israel?" bradava aquela manchete inesquecível.

Mas essa ainda não foi a manchete da semana do jornalismo nacional em Israel. Esfuziante, imediatamente depois do início de mais uma guerra, um dia depois do Sábado Negro, quando mais de 200 palestinianos foram mortos e havia mais de 1.000 feridos em Gaza, um terço dos quais, pelo menos, civis (70 eram guardas de trânsito, reunidos na cerimónia de formatura, jovens em busca desesperada de algum meio para ganhar a vida, que pensaram tê-la ganho na polícia, no instante em que a perderam sob bombardeio israelita), nesse mesmo dia e hora, com as letras enormes que se reserva para guerras novinhas em folha, a principal manchete do dia declarava: "Meio milhão de israelitas sob fogo". Isso. Apenas isso. Coisa simples, modesta, com a muito clara certeza e o profissionalismo típico de jornal e jornalistas que sabem a importância que têm para os seus leitores.

Quem quisesse saber o que ocorrera em Gaza naquele festim sangrento, e não só em Sderot e Netivot ("Netivot da Morte" dizia outra manchete), teria de andar até a página 13, para lá encontrar um relato muito sucinto do que, àquela hora, todos os telespectadores do mundo já sabiam: que o horror desabara dos céus sobre Gaza.

Um historiador do futuro que algum dia examine os arquivos dos jornais de Israel verá com clareza absoluta: para Israel, 200, 300 e, depois 400 palestinianos assassinados 'não é' manchete. Que os média em Israel são "poupados" de ter de exibir imagens "fortes", que o que Israel e os seus militares fizeram contra Gaza é assunto para especialistas em "Relações Públicas", que a Livni tudo é permitido, que os palestinianos fizeram por merecer, e que Israel abraça e sempre abraçará qualquer guerra, qualquer barbárie. Que Israel crê-se tão poderosa que se brutalizou, que já não sente, que em Israel a barbárie é regente.

Gideon Levy é jornalista, colunista do jornal Haaretz.

Tradução: Caia Fitipaldi, para a Carta Maior, adaptada a Portugal por Luis Leiria

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