Olhar melhor para as palavras
23-Mar-2009

O BE afirmou-o como objectivo: Juntar Forças.

E uma leitura apressada dirá que a tradição e os hábitos da esquerda empenhada mostram que é necessária uma actuação mais organizada da esquerda. O que é verdade. Mas é uma leitura míope. Pode olhar-se melhor para as palavras.

Há coisas à escala mais geral e coisas do foro individual que podem e devem ler-se na palavra de ordem.

Começando pelo desafio mais geral que se põe à esquerda, juntar forças é incentivar e participar em todas as iniciativas que contribuam para caminhar em direcção a um mundo mais decente. O que implica saber que há uma criatividade, que ultrapassa as forças tradicionais da esquerda, a despertar. Que a acção em rede, e a confiança nessa criatividade são o desafio que se põe à esquerda. Mais do que participar pessoalmente, muitas vezes haverá que apoiar e incentivar. E a palavra "forças" ganha aqui uma amplitude à escala da mudança global. Queremos fazer música, mas queremos que haja músicos, por todo o lado, e que nos olhem como parte da festa.

À esquerda cabe fazer o possível para que a energia dos que querem um mundo onde valha a pena viver não se desperdice no isolamento, e para que não fique prisioneira da mudança pela mudança.

E isso leva a outra escala, à de cada um de nós, à do papel da pessoa no mundo. O que mais me assusta é o sentimento de impotência que nos querem vender todos os dias. Não é necessário ter um plano global para o mundo, uma cartilha a respeitar, antes de tentar agir. Mas vale a pena olhar à volta e ver o que está ao nosso alcance, o que podemos tocar. E fazê-lo. Porque a sensação de estar sozinho se desvanece se, mesmo sem muitas vezes vermos o que outros fazem, virmos no entanto as suas pegadas no caminho; junto com as nossas. E não estar sozinho é por si uma força enorme.

Contribuir para criar uma imagem do mundo em que a presença da esquerda se sinta é o que se pede a cada um que se vê a si mesmo como uma pessoa de esquerda.

E sim, existem questões de organização que se põem às forças políticas de esquerda, para que não terminem cercadas em si próprias. Desde que sejam capazes, de forma consequente, de se assumirem como uma parte do todo que é a esquerda. E desde que cada um dos seus militantes sinta que isso lhe diz respeito como pessoa.

José Pedro Fernandes

{easycomments}