Que escola a tempo inteiro querem os pais?
01-Abr-2009

A Confederação de Pais (CONFAP) insiste na proposta da escola a tempo inteiro, mas curiosamente não se conhecem bem em que condições está disponível a aceitar a presença das crianças em média 12 horas por dia em espaço escolar. Como alertou Daniel Sampaio recentemente no Público, "não estaremos a remediar à pressa um mal-estar civilizacional, pedindo aos professores (mais uma vez...) que substituam a família?".

Opinião do nosso leitor José Lopes

É que como pergunta o especialista de psiquiatria, "Se os pais têm maus horários, não deveriam reivindicar melhores condições de trabalho...?" ou seja, adianta mesmo, "Não deveria ser esse um projecto de luta das associações de pais? Seria certamente uma perspectiva bem mais consequente de luta pelo direito ao convívio dos adultos com as crianças, em vez da actual realidade da vida em família, em que os pais estão cada vez com menor relacionamento com os filhos, situação que o Código de Trabalho vem agravar com medidas como o "banco" de horas, colocando a vida e tempo de lazer dos trabalhadores à disposição dos interesses do capital, bem contrárias ao que é ensinado pela Psicologia e Psiquiatria, como refere Daniel Sampaio: "é fundamental a vinculação de uma criança a um adulto seguro e disponível, não faz sentido aceitar que esse desígnio possa alguma vez ser bem substituído por uma instituição como a escola, por melhor que ela seja".

Seria então interessante saber em que condições quer a Confap a escola a tempo inteiro, porque realisticamente é inaceitável exigir mais esta "proletarização" no desempenho dos professores, já que, como refere este especialista na temática da relação escolar: "Perante o caos ou o vazio de muitas casas, os docentes, tantas vezes sem condições e submersos pela burocracia ministerial, acabam por conseguir guiar os estudantes na compreensão do mundo. A escola já não é, portanto, apenas um local onde se dá instrução, é um território crucial para a socialização e educação (no sentido amplo) dos nossos jovens".

Para que a escola a tempo inteiro não se transforme num inevitável armazém de crianças, é preciso contrariar a dinâmica do Governo e do Ministério da Educação para a sua desresponsabilização na garantia de uma escola pública capaz de, com dignidade para com os seus profissionais, corresponder através de áreas especificas extracurriculares, como animadores sócio-educativos ou culturais que não têm sido reconhecidos nem valorizados ao serviço de tais pretensões de uma escola mais adequada aos novos tempos de exploração laboral. Ou querem os pais muitas das soluções precárias que se vivem já hoje com os prolongamentos escolares, as actividades extra-curriculares, garantidas em cada ano pela instabilidade dos docentes, pela sua extrema precariedade profissional, pelo recurso a desempregados (POC's) como auxiliares ou tarefeiras com 2 ou 4 horas, como se estes prolongamentos não passassem simplesmente da tão reclamada guarda das crianças, que cada autarquia também encontra múltiplas formas de se desresponsabilizar, entregando tais serviços a outras instituições ou entidades que ainda procuram o inerente lucro com recurso á inevitável mão de obra barata, precária e temporária, mas insustentável nesta época de crise e de poucos recursos das famílias chamadas a suportar pelo menos parte destes custos.

Que qualidade de serviço público reclamam afinal os pais e a Confap para os filhos dos portugueses, sem recursos para o "negócio" em expansão dos centros de estudos na ausência de respostas públicas, beneficiarem, não de politicas propagandísticas e casuísticas que o Governo empurra para as câmaras e estas para satisfação de lobis, mas de opções coerentes que dignifiquem e respeitem saudavelmente a vida em meio escolar, dos alunos e dos vários profissionais, para que as crianças consigam consolidar laços afectivos com adultos, que, como refere Daniel Sampaio, "por falta de disponibilidade destes..." não têm sido possíveis tanto na escola como em casa.

José Lopes (Ovar)

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